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destaque Agostinho da Silva

Quando Agostinho escandalizou um padre

Num notável e polémico ensaio, Agostinho da Silva (nascido há 120 anos, fá-los este mês) escreveu, a partir da crucificação de Jesus, um artigo intitulado "O Cristianismo". Incluído nos seus célebres "Cadernos de Iniciação", o texto deflagrou na altura polémicas e escândalos em jornais, opúsculos, altares, confrarias, etc. Com a iconoclastia que o caracterizava, o Professor propunha uma nova releitura do Velho Testamento a fim de desmontar algumas versões oficiosas da igreja - como quando afirma que, 

início, o "Reino dos Céus ou de Deus não significa ascensão para um paraíso, após a morte", mas ascensão a um paraíso "na terra, não no além". Nesse éden, especifica Agostinho citando Jesus, "ninguém terá que trabalhar", isto é, "de sujeitar-se a tarefas que são formas de escravatura", nem haverá "a menor ideia de organização familiar", "nem existirá Estado, ou tribunais, ou juízes". 

Adversa a utopias, a realidade da época levará, porém, "os Apóstolos a transferir o Reino da Terra para os Céus", ou seja "para depois da vida", alteração que "abriu caminho a todas as deturpações".

Retido em Jerusalém, Cristo é, entretanto, crucificado, o que permitirá "à igreja transformar uma ideia revolucionária numa religião submissa": a que temos.  As críticas mais veementes pertenceram a um padre, Augusto Durão Alves, que as reuniu no volume "O cristianismo do sr. Agostinho...e o mais que se verá". Mas não se viu grande coisa, nem do sacerdote, nem do Patriarcado, nem do Vaticano – o sacerdote ficou a falar sozinho!

Agostinho da Silva

o regresso do anarquista feliz

Vêm aí grandes comemorações sobre Agostinho da Silva, grande filósofo português do Séc. XX. Publicamos aqui, no botequim.pt, o mais importante sobre o que vai acontecer e sobre o grande Agostinho da Silva (1906–1994) foi um dos maiores filósofos, ensaístas e pedagogos portugueses do século XX. Formado em Filologia Clássica, foi um espírito livre que renunciou ao funcionalismo público para se dedicar ao pensamento e à liberdade, exilando-se no Brasil durante a ditadura de Salazar. 

Lá, fundou universidades e centros de estudos, tornando-se uma figura influente na cultura luso-brasileira. A sua filosofia, o "Quinto Império", defendia uma humanidade liberta do trabalho braçal pela tecnologia, dedicada à criatividade, ao espírito e à fraternidade universal. Considerava que o homem não nasceu para trabalhar, mas para criar. 

A sua humildade e sabedoria tornaram-no popular em Portugal nos anos 90, através de entrevistas televisivas marcantes. É recordado como um "operário do pensamento" que pregava a alegria e a esperança. Faleceu em Lisboa, deixando um legado de profunda crença no potencial do povo de língua portuguesa.

Depois dos estudos no Porto, da passagem por Paris e no regresso a Portugal, encontramos Agostinho da Silva no Liceu José Estêvão em Aveiro. Estávamos em 1935, ano em que é emitido o Decreto 27.003 – que obrigava os funcionários do Estado a afirmarem-se integrados no Estado Novo e com repúdio pelo comunismo e outras ideias subversivas.ão e é demitido da Função Pública. Muda-se para Espanha, onde permanece até ao início da Guerra Civil, regressando a Lisboa e ao ensino Agostinho da Silva recusa assinar a declaraç, no Colégio Infante Sagres. 

Carta à juventude Portuguesa

Embora o texto tenha a forma de uma correspondência pessoal, ele não se dirigia a uma pessoa específica com nome e apelido, mas sim à  Juventude Portuguesa. Foi escrita num período (anos 40) em que o regime de Salazar promovia a obediência e o pensamento único. Agostinho dirigia-se aos jovens para os incentivar à rebeldia intelectual.

"Meu caro Amigo: do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros, se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu, do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. (…)"

O filósofo da Esperança


Marcelo Rebelo de Sousa: "Agostinho era o nosso filósofo da esperança, o homem que transformou a utopia numa forma de estar e que via no povo português uma genialidade ainda por cumprir."

Mário Soares: "Agostinho da Silva é um mestre da liberdade, um homem que nos ensinou a olhar para o futuro com uma audácia que a política quotidiana raramente permite."

Francisco Sá Carneiro: "Um espírito livre e inquieto, cuja visão para Portugal ultrapassava as fronteiras do imediato para se focar na dignidade absoluta do ser humano."

Ramalho Eanes: "Ele foi, acima de tudo, um educador de almas, alguém que soube ler o destino de Portugal com uma profundidade espiritual única no nosso século."

Freitas do Amaral: "Agostinho da Silva foi o grande mestre da liberdade de pensamento em Portugal, um homem que nos ensinou a olhar para o mundo e para nós próprios com uma audácia espiritual que a política, por si só, nunca alcança." 

A passagem de Agostinho pelo Aljube

É preso no dia 24 de julho de 1943, para averiguações, e enviado para o Aljube, onde permanece incomunicável durante 18 dias. Depois de libertado, é-lhe imposta a pena de residência fixa que cumpre em Portimão. Parte para o exílio na América Latina em 1944, fixando-se no Brasil entre 1947 e 1969, ano em que regressa a Portugal. Depois do 25 de Abril de 1974, regressa ao ensino

Depois do 25 de Abril de 1974, regressa ao ensino em diversas universidades portuguesas, dirige o Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade Técnica de Lisboa e desempenha funções de consultor do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (atual Instituto Camões). in Museu do Aljube - Resistência e Liberdade


Entre as colaborações na "Seara Nova", as tertúlias e as mudanças que vai implementando no sistema de ensino no Infante Sagres, em 1940 Agostinho da Silva começa – com a colaboração de Fernando Raul – a escrita, edição e distribuição dos Cadernos de Informação Cultural, visto como uma afronta ao programa educativo do regime. 

A Obra de Agostinho da Silva

A obra de Agostinho da Silva é vasta e dispersa por ensaios, biografias e cartas, focando-se na pedagogia, na filosofia e na espiritualidade. Em textos como "Sete Cartas a um Jovem Filósofo", defende a liberdade individual e a educação como descoberta do próprio ser. 

A sua escrita biográfica sobre figuras como Pestalozzi ou Montaigne serviu para ilustrar modelos de pensamento livre. No centro do seu

legado está a visão do "Quinto Império", onde Portugal teria a missão espiritual de promover a fraternidade universal. Propôs a substituição do trabalho pela criação, antecipando uma era de lazer tecnológico dedicado ao espírito.

Os seus cadernos de divulgação cultural visavam democratizar o conhecimento clássico e humanista. A obra reflete um "anarquismo manso", rejeitando dogmas e estruturas opressivas. Em suma, os seus escritos são um apelo à audácia, à alegria e à crença na genialidade latente do povo português. 

'Empurrado' para o Panteão

Homenagem no Panteão Nacional: Estão a decorrer movimentos da sociedade civil e de grupos de intelectuais para reforçar o pedido de trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional, ou, em alternativa, a 

colocação de uma placa evocativa, assinalando o dia 3 de abril com uma sessão solene sobre a "Portugalidade" , assinalando o dia 3 de abril com uma sessão solene sobre a "Portugalidade". Roteiros "Agostinianos" em Lisboa: No início de abril, serão organizados passeios culturais pelos locais marcantes da sua vida na capital, como a zona da Arroios e a Pensão Ideal, onde viveu os seus últimos anos, culminando com leituras de poesia e filosofia ao ar livre. Dia de Portugal (10 de Junho): No âmbito das comemorações oficiais, espera-se que o Presidente da República dedique uma parte da sua intervenção à visão agostiniana de Portugal. A ideia é focar no conceito de "Portugal como Fraternidade" em vez de apenas uma unidade política ou económica, alinhando-se com o tema da Diáspora e das Comunidades Portuguesas.

Salazar "queria que todos fossem contabilistas"


Não existem registos públicos de frases elogiosas ou citações diretas de António de Oliveira Salazar sobre Agostinho da Silva. A relação entre ambos foi de oposição ideológica absoluta e repressão institucional. O que se conhece são as ações do regime de Salazar em relação ao filósofo, que caracterizam o que o ditador pensava dele:

Portugal numa sacristia

Agostinho da Silva referiu-se à governação de Salazar dizendo que o regime, onde Cerejeira era um pilar, tentava fechar Portugal numa "sacristia", enquanto ele queria abrir Portugal ao mundo e à liberdade do espírito. Portanto, o silêncio de Cerejeira sobre Agostinho era um silêncio de desaprovação institucional. 

A "Demissão" Forçada: Em 1935, Salazar assinou o decreto que obrigava os funcionários públicos a declarar que não pertenciam a sociedades secretas. Agostinho da Silva recusou-se a assinar e foi imediatamente expulso do ensino oficial. O Desprezo pela Indisciplina: Para Salazar, que privilegiava a ordem, o rigor financeiro e a estabilidade, Agostinho da Silva representava o oposto: a "indisciplina do espírito", a utopia e a liberdade individual absoluta. 

A Vigilância da PIDE: Durante o exílio de Agostinho da Silva no Brasil, os relatórios da polícia política (PIDE) descreviam-no como um elemento perigoso pela sua capacidade de influenciar a juventude e as elites intelectuais contra o Estado Novo.

Numa entrevista já no fim da vida, Agostinho da Silva comentou com ironia que Salazar tinha o "defeito" de querer que todos os portugueses fossem "contabilistas", enquanto ele queria que fossem todos "poetas". Em suma, Salazar não o citava para o elogiar; via-o como um intelectual dissidente que deveria ser afastado da formação das novas gerações. 

O futuro, segundo Agostinho

Sobre o futuro: Ele falava frequentemente na vinda de uma "Era do Espírito Santo", um tempo de liberdade total e alegria, onde o Estado e as hierarquias deixariam de ser necessários.  A sua postura era de uma "humildade audaciosa", acreditando que o maior erro de Portugal era a falta de confiança na sua própria capacidade de imaginação.

Agostinho da Silva era conhecido pelo seu otimismo profético e por uma visão espiritual do destino de Portugal. Aqui estão algumas das suas ideias e frases mais emblemáticas: Sobre a vocação de Portugal: "O destino de Portugal não é ser uma potência, é ser uma fraternidade.

" Ele acreditava que a missão dos portugueses era unir povos através da cultura e do espírito, e não pelo domínio económico. Sobre o trabalho: "O homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar. A tecnologia deveria libertar a humanidade da escravidão emprego para que todos pudessem ser poetas ou filósofos. a educação: Educar não é ensinar o que não se sabe, é ajudar a descobrir o que se é. Sobre a esperança: "Não é por as coisas serem difíceis que nós não ousamos; é por nós não ousarmos que elas são difíceis.  Educar não é ensinar o que não se sabe, é ajudar a descobrir o que se é. Sobre a esperança: "Não é por as coisas serem difíceis que nós não ousamos; é por nós não ousarmos que elas são difíceis.

Se fosse vivo Agostinho escreveria

Com base na sua Obra diria: "Meus senhores, deixai que vos diga: Portugal nunca foi um território, foi sempre uma esperança que se desfez em mar para se encontrar em 

espírito. O futuro que nos espera não mora na contabilidade das bolsas, mas na audácia de quem se atreve não ser nada, para poder ser tudo. Havemos de chegar ao tempo em que as máquinas farão o suor e os homens farão o sonho, transformando este rectângulo num jardim de poetas e vadios iluminados.

"Não queiramos ser uma província cansada da Europa. Sejamos antes a varanda de onde o mundo aprende que a fraternidade é a única economia que não abre falência. Portugal só cumprirá o seu destino quando perder o medo de ser livre e trocar a segurança pela aventura da criação pura."Ide, pois, e não trabalheis: criai, porque o mundo está sedento de uma alegria que só nós a sabemos inventar." 

Uma Sociedade sem Igreja

Tal como no caso de Salazar, não existem registos de frases públicas de elogio ou amizade do Cardeal Cerejeira dirigidas a Agostinho da Silva. Pelo contrário, as posições de ambos representavam visões de mundo opostas e em conflito direto durante o Estado Novo. O cardealCerejeira era o rosto da Igreja institucional, hierárquica e aliada ao regime (a Cristandade do "Estado Novo"). Agostinho da Silva, embora 

profundamente espiritual, defendia um cristianismo joanino" e anárquico, sem necessidade de padres, templos ou dogmas, focado na liberdade absoluta do Espírito Santo. A Questão da Educação: Cerejeira defendia uma educação católica tradicional e conservadora. Quando Agostinho da Silva foi expulso do ensino em 1935 por se recusar a assinar a declaração de lealdade ao regime, a Igreja de Cerejeira não só não o defendeu como viu nele um perigo para a "formação moral" da juventude, devido ao seu pensamento heterodoxo.

Enquanto o Cardeal pregava a obediência e a moralidade cristã clássica, Agostinho pregava a vinda de uma era onde a Igreja institucional deixaria de ser necessária porque Deus estaria em todos os homens. Para a hierarquia da época, estas ideias eram vistas quase como "heresias" ou devaneios perigosos.

Associação Agostinho da Silva

Sediada em Lisboa, esta instituição desempenha um papel fundamental por várias razões: Espólio e Arquivo: É a principal guardiã dos documentos, cartas, manuscritos e objetos pessoais do filósofo, gerindo o acesso de investigadores e académicos ao seu pensamento original.

Edição e Publicação: Tem sido responsável pela organização e reedição de muitas das suas obras, garantindo que textos anteriormente dispersos ou esgotados voltem a estar disponíveis para o público. Divulgação Cultural: Promove regularmente colóquios, conferências e iniciativas como as 

"Folhas à Solta", que visam manter o pensamento agostiniano vivo e adaptado aos desafios da sociedade contemporânea.

Ponto de Encontro: Funciona como a ponte oficial entre a família do filósofo, o Estado português e as instituições brasileiras, onde Agostinho também deixou uma marca profunda. A associação é composta por amigos, discípulos e estudiosos que procuram não apenas homenagear a figura histórica, mas aplicar o seu ideal de "pedagogia da liberdade" e de "Portugal como fraternidade" nos dias de hoje.

Lançamento de documentário

stá prevista a exibição, em canais públicos e centros culturais, de um documentário que reúne imagens inéditas das suas últimas entrevistas e depoimentos de figuras que conviveram com ele, focando-se na sua passagem pelo Brasil e no seu regresso triunfal a Portugal.Encontro de Escolas "Educar para a Liberdade": No dia 3 de abril, várias escolas que seguem pedagogias alternativas ou que estudam o seu pensamento planeiam um "dia sem aulas" tradicionais, substituindo-as por oficinas de criação artística e debates, honrando o lema de que a educação deve ser a descoberta do que cada um é.

Destaques Mediáticos e Digitais

RTP e Antena 1: No dia 13 de fevereiro de 2026, o programa "Uma Noite em Forma de Assim" (Antena 1) dedicou uma emissão especial aos 120 anos do filósofo, com a participação do investigador Jorge Afonso, analisando a atualidade do seu pensamento. Associação Agostinho da Silva: A associação continua a ser o epicentro das comemorações, promovendo a digitalização do boletim "Folhas à Solta" e organizando sessões de leitura e debate sobre as suas obras principais.

Nova Acrópole (Lisboa e Porto): Estão a decorrer ciclos de palestras intitulados "Pensadores do Nosso Tempo", focados na pedagogia da liberdade de Agostinho da Silva. 

Conferências e Museus

Colóquios Académicos: Investigadores como Fabrizio Boscaglia têm promovido sessões sobre temas específicos da sua obra, como o "Islão, o Futuro e o Quinto Império", explorando as pontes culturais que o filósofo tanto defendia. Museu do Aljube (Lisboa): O museu evoca a resistência intelectual de Agostinho da Silva através de mostras documentais que recordam a sua expulsão do ensino e o seu papel no combate ideológico à ditadura. Iniciativas Locais: Em Torres Vedras e noutras cidades, espaços culturais estão a aproveitar a efeméride para dinamizar oficinas de criatividade baseadas no lema agostiniano de que "o homem nasceu para criar, não para trabalhar". Espera-se que, ao longo de 2026, surjam novas edições comentadas das suas cartas e ensaios, no seu renovado interesse público pela sua visão de um Portugal fraterno e universalista.

Mês do filósofo anarquista feliz

Agostinho da Silva ensinou filosofia aos guardas da sua prisão

Raul B. Gomes

Em 1943, Agostinho da Silva movia-se no Aljube como um raio de sol caído num poço de lama, um espírito alado entre carcereiros de alma de chumbo. Da sua janela gradeada via-se  a Sé de Lisboa  amuralhada, a cela revelava a geometria do absurdo: o filósofo, com bonomia de santo laico, explicava a eternidade a quem só entendia o ruído das chaves. 

"As vossas grades são de ferro, mas o meu pensamento é de ar", dizia ele. Num gesto de misticismo satírico, dava latim às pulgas e filosofia

aos carrascos, rindo-se das suas fardas, como disfarces de Carnaval. No lugar onde o medo era o pão diário, Agostinho gargalhava, reduzindo a opressão ao ridículo. 

Ao ser avisado de que ali "não era ninguém", transformou o cárcere num retiro espiritual e numa oportunidade pedagógica. Ensinava aos presos que as grades eram apenas uma ilusão de ferro e que o verdadeiro crime era a falta de imaginação. Enquanto a ditadura rangia os dentes, o filósofo colhia estrelas no teto da cela, provando que a única clausura só prende quem não sabe sonhar.

Com base na sua Obra, se fosse vivco Agostinho da Silva talvez dissesse sobre Trump o seguinte: "Trump, olha, tu berras e fazes a guerra, mas o mundo já não te ouve, porque está a ser comprado pela China, que não gasta uma bala para te tirar o chão. És o ruído do martelo. Eles são a paciência da água que tudo inunda sem avisar. 

"Enquanto tu fechas as portas com estrondo, eles entram pelas janelas em silêncio. Tu queres o mando pelo medo, mas eles preferem o domínio pela astúcia. Grita, o futuro já não te responde."

Natália Correia:


Sou filha de mim própria e de mais ninguém


O Enigma de Portugal


"Onde é que Portugal começa e acaba? É nesta mágoa de sermos o que não somos? Neste destino de mar que nos desaba Nas mãos vazias com que nos pomos?

Somos um povo de ausências e de brumas, Escrevendo o nome na espuma das marés, Buscando entre as estrelas e as espumas A pátria espiritual que não se vê.

Não somos este chão de barro e pedra, Nem este mapa de fronteiras traçadas. Somos a luz que na alma se nos medra E as palavras por nós nunca ditadas.

Portugal é um sonho de Deus que nos habita, Uma saudade de um futuro que não veio. É esta voz que no silêncio grita E o mistério que trazemos no seio.

Somos os marinheiros do impossível, Os construtores de um império do espírito, Buscando na luz o que é invisível E no silêncio o que não foi escrito.

Erguemos templos à nossa própria sede, Bebemos o vinho da nossa solidão. Não há muro, não há cerca, não há rede Que prenda o voo do nosso coração."

O império espiritual

Natália Correia não foi apenas uma poetisa mas um verdadeiro sismo na cultura portuguesa do século vinte trazendo das ilhas um misticismo rebelde que escandalizou a capital e desafiou abertamente o regime com a sua antologia de poesia erótica e satírica em 1966. 

Foi por isso condenada a prisão suspensa sem nunca conseguir silenciar a sua voz indomável. Reinando no seu bar Botequim entre fumo e debates intelectuais proibidos levou essa irreverência para a Assembleia da República onde desarmou o patriarcado com versos mordazes improvisados como o célebre poema do truca-truca que humilhou o conservadorismo cego em plena sessão parlamentar. 

Defensora da despenalização do aborto num tempo de tabus absolutos Natália viveu entre o sagrado e o profano acreditando num império espiritual que transcendia a política terrena sem nunca pedir licença ou perdão para existir.

Detestava o cinzentismo nacional e a pequenez de espírito das elites da sua época morrendo finalmente como viveu sendo uma força da natureza que ninguém jamais conseguiu domesticar deixando um legado de liberdade que continua a pulsar no coração das letras portuguesas.

"Sou filha de mim própria e de mais ninguém. Do meu silêncio fiz uma voz que me convém. Do meu orgulho fiz um teto que me cobre. E da minha pobreza a minha herança nobre. Não me peçam razões que eu não as sei dar. Sou como o vento: nasci para passar."


"Não te quero só para o amor. Quero-te para a raiva e para o espanto. Quero-te para o riso e para o pranto E para o que o corpo tem de mais pudor. Quero-te para a vida que se esquiva Na palma da mão que se nos fecha. Quero-te para a sombra e para a queixa E para a alma que em nós arde viva."


"Creio nos anjos que andam pelo mundo, Creio na feitiçaria da palavra, Creio no amor que é o meu pão profundo, Creio na luz que o meu silêncio lavra.
Creio que a vida é um intervalo breve Entre duas noites que não têm fim. Creio que o sol é uma moeda de neve Que Deus gastou para criar o jardim."

Rocochete

Que margens têm os rios?
para além das suas margens?

Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro por nós?
- Natália Correia, em "Passaporte".

Lançamento de documentário

Está prevista a exibição, em canais públicos e centros culturais, de um documentário que reúne imagens inéditas das suas últimas entrevistas e depoimentos de figuras que conviveram com ele, focando-se na sua passagem pelo Brasil e no seu regresso triunfal a Portugal.Encontro de Escolas "Educar para a Liberdade": No dia 3 de abril, várias escolas que seguem pedagogias alternativas ou que estudam o seu pensamento planeiam um "dia sem aulas" tradicionais, substituindo-as por oficinas de criação artística e debates, honrando o lema de que a educação deve ser a descoberta do que cada um é.

Destaques Mediáticos e Digitais

RTP e Antena 1: No dia 13 de fevereiro de 2026, o programa "Uma Noite em Forma de Assim" (Antena 1) dedicou uma emissão especial aos 120 anos do filósofo, com a participação do investigador Jorge Afonso, analisando a atualidade do seu pensamento.  Associação Agostinho da Silva: A associação continua a ser o epicentro das comemorações, promovendo a digitalização do boletim "Folhas à Solta" e organizando sessões de leitura e debate sobre as suas obras principais.

Nova Acrópole (Lisboa e Porto): Estão a decorrer ciclos de palestras intitulados "Pensadores do Nosso Tempo", focados na pedagogia da liberdade de Agostinho da Silva. 

 Conferências e Museus

Colóquios Académicos: Investigadores como Fabrizio Boscaglia têm promovido sessões sobre temas específicos da sua obra, como o "Islão, o Futuro e o Quinto Império", explorando as pontes culturais que o filósofo tanto defendia. Museu do Aljube (Lisboa): O museu evoca a resistência intelectual de Agostinho da Silva através de mostras documentais que recordam a sua expulsão do ensino e o seu papel no combate ideológico à ditadura. Iniciativas Locais: Em Torres Vedras e noutras cidades, espaços culturais estão a aproveitar a efeméride para dinamizar oficinas de criatividade baseadas no lema agostiniano de que "o homem nasceu para criar, não para trabalhar". Espera-se que, ao longo de 2026, surjam novas edições comentadas das suas cartas e ensaios, no seu renovado interesse público pela sua visão de um Portugal fraterno e universalista.