BOTEQUIM

Edição semanal de 12 a 18 de Jameiro 2026 sujeita a actualizações diárias

 Sacerdotisas do amor

 Ao entrar, de madrugada, na rua onde vivia (zona de fecunda prostituição), Natália Correia abria a janela do carro e exortava, "meninas, não se deixem humilhar, lembrem-se que são sacerdotisas do amor!"

Logo era rodeada de estrídulas afectuosidades das prostitutas, dos prostitutos, dos travestis, dos chulos, dos vadios, dos guardas-nocturnos, todos rendidos ao incitamento da "senhora poeta" a falar-lhes como ninguém lhes falava – os elevava.

Quase ao mesmo tempo, outro poeta de provocações, Jorge de Sena, perguntava através dos jornais (Diário Popular, Agosto de 1975), nessa altura bastante mais ousados do que hoje, "se se faz amor por tanta coisa, porque não faze-lo por dinheiro?"; e reivindicava "o direito de todo o ser humano à liberdade de se relacionar intimamente com quem quiser ou puder, desde que mutuamente consentido, independentemente do sexo, da idade, do número, do parentesco". 

"Se não fossem os profissionais do sexo, que seria dos velhos, dos disformes, dos tímidos?" E de seguida defendia "a gratuitidade da pornografia para os que não podem comprar pessoas como os ricos".

Quando a política (a religião, a justiça, a moral) entra na cama das pessoas dá asneira, porque jamais acabará - como mostra a natureza humana - a (considerada) profissão mais velha do mundo.


Salazar, que não era muito puritano, regulamentou-a por entende-la um serviço público, medicamente assistido, até que, contrariado, a ilegalizou devido a pressões de senhoras do Movimento Nacional Feminino cuja acção lhe convinha dada a guerra colonial.A um amigo confidenciaria, resignado, "bom, elas podem tornar-se patrioticamente úteis em África a consolar os nossos rapazes!"

Jorge Sena rematava, "se a vocação dos portugueses é serem prostitutos, como mostra a história, por que razão as prostitutas não podem sê-lo?"

1º lugar concurso internacional de cartoon sobre escravatura e trabalho  forçado OIT

Vasco Gargalo 

o cartoonista português da Paz

Vasco Gargalo (Vila Franca de Xira, 1977) é um cartoonista e ilustrador português dos mais brilhantes, com trabalhos publicados em vários meios de comunicação nacionais e internacionais, como  o Courrier InternacionalGroene Amsterdammer e Spotsatire. É colaborador permanente do Correio da Manhã e da Sábado.

É colaborador regular do Cartoon Movement e do Cartooning for Peace. Em 2016, Gargalo recebeu quatro menções honrosas: Prémio de Cartoon Político das Nações Unidas/Ranan Lurie; no 1.º Festival de Cartoon do Kuwait; 9.ª edição do D. Quichotte International Cartoon Contest/Quo Vadis Europe/Journey of Hope e no 18.º Festival Mundial PortoCartoon. Ainda no mesmo ano, o seu cartoon 'Aleppo(nica)', deu-lhe a visibilidade internacional.

Foi considerado, em 2018, pelo Cartoon Home Network International como o melhor 'Cartoonista Europeu'. Em 2019, venceu o prémio Plumes Libres, um galardão atribuído pela revista Courrier Internacional. Em 2020, a Ordem Independente de B'nai B'rith, organização judaica dedicada aos direitos humanos, acusou o cartoonista de anti-semitismo depois deste ter publicado o cartoon 'O Crematório'. Surpreendentemente, o Courrier Internacional cedeu às pressões e retirou-lhe prémio Plumes Libres dado no ano anterior.

Em 2021, teve o primeiro lugar num concurso internacional de cartoon sobre escravatura e trabalho forçado, no âmbito do Dia Mundial contra o Tráfico de Seres Humanos, organizado pela Organização Internacional do Trabalho e pela organização não governamental Recursos Humanos Sem Fronteiras. Vasco Gargalo é brilhante! Excepcional!

Tema de segunda-feira: 'matar o tempo sem deixar ferida a eternidade'. Dica do Henry David Thoreau que acreditava que temos de ser verdadeiros apenas com os amigos, a palavra e o trabalho e não achar graça a nos sentar para escrever quando não nos levantamos para viver. ctrl + alt e pára o baile, suponho. Há dias em que escrevo o que não vejo. Melhor isso que não ver o que ando escrever.

Um pele vermelha 

em Viseu

O primeiro pele vermelha que surgiu na pintura portuguesa (e talvez europeia) encontra-se na Sé de Viseu, num retábulo de Vasco Fernandes. Nele, o mago Baltasar não é um preto, é um índio.

As artes plásticas revelam-se, juntamente com a literatura e a arquitectura, o campo onde as Navegações tiveram maior repercussão. O Livro de Horas de D. Manuel abre com iluminuras sobre o mar. O sentimento do transcendente, a gravidade da melancolia são, no dizer de Hernani Cidade, "sublimes na criatividade de então".

Foi a arte manuelina que mais profundamente, mais originalmente reflecte, depois da poesia, os Descobrimentos. Os Jerónimos, o Convento de Cristo de Tomar, a Torre de Belém fizeram-se-lhes referências universais.

O seu (da arte manuelina) é um estilo de belas características ornamentais e decorativas lançadas sobre estruturas góticas. As referências ao mar - aos temas, gentes, terras, costumes situados para lá dele - são uma constante. Chegam a ser, como na célebre Janela de Tomar, de exuberância barroca, traduzida em apoteoses de cabos, cordas, anéis, esferas. 

O Manuelino apareceu como expressão plástica relacionada com o ambiente e clima de euforia que desfrutámos na época das nossas conquistas, sublinha o arquitecto Mário de Oliveira. Passou a ser estilo quando se libertou de influências estrangeiras, sobretudo espanholas. O ultramar vincou ainda mais a personalidade artística dos portugueses, os quais têm marcado de forma muito peculiar a sua sensibilidade. Foi quando estávamos subjugados pelo ambiente marítimo que apareceu o estilo mais português de todos os estilos. O Manuelino foi a força mística que fez os nossos antepassados atingirem o inigualável.

Os Jerónimos estão para a arquitectura como Os Lusíadas para a literatura. Os Jerónimos e Os Lusíadas valem toda uma arquitectura e uma literatura.

A cerâmica e a ourivesaria viram-se igualmente seduzidas pelo maravilhoso ultramarino. As de quinhentos revelam-se de uma riqueza, de uma variedade incomuns. As suas ornamentações atingem, com frequência, apuros de verdadeiras obras-primas.

Como sucedeu com a arquitectura, a música só começou a ser portuguesa depois das Navegações. Os ritmos encontrados noutros continentes fascinaram, a partir daí, os seus autores tocando-os sobretudo a nível popular. O lundum e a morna levaram-nos ao fado.

Vindo do Brasil, António José da Silva, o Judeu, introduziu através das suas peças de teatro) a ópera cantada em português - antes era-o em italiano. O que se estava passando na nossa epopeia marítima tornou possível o brilho de actividades artísticas, nomeadamente musicais, que não tinha sido antes viável, especifica João de Freitas Branco.

Os roteiros e relações das viagens oceânicas antecederam as crónicas e os poemas sobre elas. Preciosos de informações, propiciaram muitas das grandes obras surgidas depois. Os assentos que, por exemplo, Fernão Velho anotou, a bordo da nau de Gama, foram decisivos para Camões elaborar Os Lusíadas.

Para saber quem somos, "para ter por nós o respeito que precisamos, temos de saber quem fomos", diz Teresa Rita Lopes. "O traço mais vincado de nós reside na crença de que a vida é morte, quase sempre acompanhada pela esperança de que se há-de ressuscitar um dia. Apetece dizer que nos sentimos habitantes do país da Bela Adormecida que, como ela, esperamos o beijo redentor"

Gabriel Garcia Marquez

Alô Senhor Trump...

com base na obra e reconhendo várias informações por iA de Gabriel Garcia Marquez -  ficcionamos o que poderia ele dizer a Donald Trump, num telefonema

- Alô Donald Trump? Falo-lhe da varanda da História, onde o tempo não perdoa aos soberbos. 

Na Venezuela, o senhor cometeu o erro dos tiranos de outrora, julgando que a alma de um povo se dobra como um mapa de papel sob o peso das botas.  Na sua própria casa, o senhor semeia o caos, transformando o seu país num labirinto de espelhos onde a verdade morre de frio. 

No resto do mundo, de Gaza às fronteiras do medo, o senhor espalha o veneno da discórdia, como se o amanhã fosse uma diabólica propriedade privada. Sabe? O poder é uma cadeira de balanço no vácuo; quanto mais o senhor se balança, mais se aproxima da solidão absoluta que aguarda os que governam sem poesia e sem piedade. 

Não termine os seus dias como um patriarca esquecido num palácio de cinzas. A vida é um sopro e o seu legado será a crónica de uma ruína.


Gabriel Garcia Marquez, nasceu a 6 de Março de 1927 em Araxataca, Colômbia, faleceu a 17 de Abril de 2014, Cidade do México, México.

O Amor nos Tempos do Cólera: Uma história sobre a persistência do amor que dura décadas, enfrentando o tempo e a doença. Crônica de uma Morte Anunciada: O relato reconstrói um assassinato onde todos na cidade sabiam o que ia acontecer, menos a vítima.

O Outono do Patriarca: Uma exploração profunda e complexa sobre a solidão e a tirania de um ditador eterno. Ninguém Escreve ao Coronel: A espera angustiante de um veterano de guerra por uma pensão que nunca chega.

Em "Cem Anos de Solidão" Narra a saga da família Buendía ao longo de sete gerações na aldeia fictícia de Macondo. A história mistura o cotidiano com o fantástico (realismo mágico), mostrando como o destino da família e da cidade estão entrelaçados em um ciclo de tragédias, guerras e solidão, até que o último membro da linhagem decifra pergaminhos que prevêem o fim apocalíptico de todos.

Muitos ignoram que Márquez escreveu antes da fama:

"A Revoada" (La Hojarasca), o livro que deu origem a Macondo. Nesta obra curta e densa, a história é narrada por três gerações de uma família que cumpre o dever moral de enterrar um médico odiado por todos. É um texto sombrio, focado na honra e na decadência, onde o realismo mágico ainda é apenas um sussurro. Nele, Gabo explora a solidão da morte e o peso do passado numa aldeia sufocada pela poeira.

Cartonistas d'olho 

no "Nobel"... 

de Trump


Ele morreu 

no Martinho da Arcada

O mês de Novembro, agora passado, assinala a morte (a 30 de 1935, há 90 anos) de um dos maiores génios da humanidade: Fernando Pessoa. Dois dias antes ele esteve, como lhe era habitual, no café Martinho de Lisboa. A seu lado sentavam-se, como também lhes era habitual, o professor Agostinho da Silva (então bolseiro numa Espanha a ensanguentar-se), e o juiz dramaturgo e cronista Luiz de Oliveira Guimarães, vizinho do poeta em Campo de Ourique. Pessoa mostrava-se constrangido por ter de submeter-se, no dia seguinte, a uma intervenção cirúrgica no Hospital de São Luiz dos Franceses, ao Bairro Alto. Falou pouco. Comeu um ovo estrelado, o seu jantar de sempre, a que chamava Sol Frito.

Não bebeu o bagaço do costume; mas como de costume, a conversa rolou entre literatura, política, a ditadura crescente e, particularmente, a ameaça do peso colonial . África merecia-lhes especial atenção, sobretudo a partir da publicação da célebre frase de Pessoa,

"A minha Pátria é a língua portuguesa", empenhados na concepção de um império cultural, espiritual onde "as colónias não só não seriam precisas como constituiriam um forte empecilho", palavras do autor de "A Mensagem". Isso provocou-lhes alguns dissabores (Agostinho seria preso e exilado no Algarve) por estar-se numa altura em que os portugueses eram quase todos colonialistas, monárquicos e republicanos, situacionistas e reviral-hos, intelectuais e povo, em consequência do Ulimatum Inglês. 

O colonialismo impedia, na óptica deles, a formação de um grande bloco (multirracial, multicontinental), proporcionado pela nossa língua, pelo nosso estar com os outros. Não anteviam uma CPLP como a actual, mas uma 

(alargada) comunidade de povos de línguas Ibéricas constituída pelos territórios (independentes e democráticos) da península ibérica, da América do Sul, de África e Ásia, de fala portuguesa e espanhola, riquíssimos em matérias primas, juventude criativa, dimensão geográfica, cultural e humanista.

"Só as línguas dos povos que criam impérios têm direito ao futuro. Nós criámos civilização, e não simplesmente a vivemos e a exploramos, pois recriámo-la pela escrita", escreve Pessoa .

Foi um dos seus últimos sonhos. Anos mais tarde, já radicado em Lisboa, passado Abril, Agostinho da Silva, à mesa do mesmo Martinho, comentará que, caído o império soviético, em desagregação o norte-americano, só o ibérico seria capaz de ombrear com o asiático (China, Índia, Paquistão) em afirmação, equilibrando a nova ordem mundial.

"Simbolicamente Pessoa morreu no Martinho", comentará Luiz de Oliveira Guimarães, "talvez por isso ele tenha, antes de expirar, pedido os óculos à enfermeira para escrever algo que não chegámos a conhecer".Ninguém lhes deu ouvidos.Aos três.

Gaza, um dos piores desastres

https://youtu.be/4SHVMGYn3yc?si=qr_gJHMdUE0YwqOx


O video da menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. 

A  Faixa de Gaza tem o pior dos mundos, nem os temporais poupam esta população de palestinos empurrados para uma faixa por soluções britânicas, agressões de Israe* e a indiferença de países árabes. O fim do Império Otomano originou na Palestina um dos piores desastres da História da Humanidade

https://youtu.be/wPa7hkoxWt8?si=uOEYN91cbOvKnxvM

o que a infância pedia às andorinhas - Natália Correia