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Edição de 13 a 20 Março de 2026, com actualizações diárias
Editorial
Portugal não produz riqueza, produz ricos
Últimos apuramentos de contas revelam que em 2025 só uma empresa eléctrica teve lucros líquidos superiores a 1.000 milhões de euros, uma gasolineira arrecadou 1154 milhões, que quatro bancos somaram 14 milhões de euros por dia.

Cresce o número de pessoas que questionam as razões de Portugal estar, nas últimas décadas, em paragem económica e social, por vezes retrocesso, quando outros, de patamares afins, se desenvolvem, se harmonizam.
Em passado recente, escamoteia-se, crescia-se seis por cento ao ano; agora não se ultrapassam, pese o contentismo de vários responsáveis, dois por cento.
https://youtu.be/mVPJ1_spgcA?si=I3j0-yv1r7q1WNzp
Se o progresso de um país se mede pelo bem estar das populações, onde está o do nosso? Tirando a corte (a que vive do orçamento, dos partidos, dos lóbis, das famílias - parecemos mais uma monarquia do que uma república), os privilegiados que enchem restaurantes de luxo, compram apartamentos milionários, conduzem automóveis de topo gama, abarbatam créditos, pagam ordenados indignos, desviam fundos públicos, escusam-se a fiscos, ocultam fortunas em paraísos enevoados - o povão e a classe média calam vergonhas de má nutrição, de inacessibilidades na saúde, de insegurança no emprego, na família,

espantados com acusações de "viverem acima das suas possibilidades", de serem responsáveis pelas carências sofridas, por preguiça, por desistência, por ausência de ambições.
Os dominadores têm, sabe-se, a tendência de culpabilizar as vítimas por o serem. Desligada da realidade, afastada dela, a elite instalada (na economia, na política, na cultura, na academia, na justiça, na comunicação social) cria um país contentinho, opaco e egoísta que põe os seus interesses pessoais e de grupo acima dos da comunidade, hipotecando o futuro às novas gerações, criando divórcios crescentes entre Estado e Nação.
Como pode haver progresso se - denuncia o Observatório Fiscal da União Europeia - 40 por cento do Produto Interno Bruto português está depositado em paraísos fiscais? Exangue, o corpo do País arqueja sob propagandas suicidárias umas, populistas outras, não curando de esclarecer que desenvolvimento não significa só por si progresso, mas quase sempre enriquecimento de minorias e empobrecimento de maiorias, isto é, aumento de fossos sociais, retornos à precarização, ao abandono, ao retrocesso.
https://youtu.be/2bNxlnpT3OI?si=9GXAa_rOvmoQa_Xi
Últimos apuramentos de contas revelam que em 2025 só uma empresa eléctrica teve lucros líquidos superiores a 1.000 milhões de euros, uma gasolineira arrecadou 1154 milhões, que quatro bancos somaram 14 milhões de euros por dia. Distribuidoras (supermercados) contabilizam milhões, tal como farmacêuticas, escritórios de advogados, clínicas de saúde, construtoras civis.
Socorrendo-se do princípio dos vasos comunicantes, Raul Brandão afirmava, vai para 100 anos, que "por cada pessoa que enriquece, mil empobrecem". Qual será hoje a percentagem? Os grupos dominantes estão prósperos, o povo não. "Portugal não produz riqueza, produz ricos", advertia Agostinho da Silva.
Poucos residiram no Palácio de Belém

Palco de acontecimentos faustosos e trágicos, o Palácio de Belém, hoje sede da Presidência da República, é um dos mais emblemáticos edifícios da nossa história, tendo enfrentado ao longo dos tempos terramotos e abandonos, vandalismos e sagrações. Talvez por isso, muitos reis e presidentes não o utilizaram como residência pessoal caso, agora, de António José Seguro. Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, Sidónio Pais, Craveiro Lopes e Ramalho Eanes foram os presidentes que, temporariamente, o habitaram.
https://youtu.be/PzXGxTNPwdE?si=YAPD5ShvSvPJ69zo
Construído nos séculos XVII e XVIII, o edifício seria adquirido em 1726 pelo Rei D. João V, para sua residência de Verão. Originalmente componha-se de duas áreas, o Solar dos Condes de Aveiras e o Picadeiro. Relatos da época referem que era, no entanto, "simples e desconfortável", o que levou a família real a realizar grandes transformações e a decorar faustosamente o interior.
Em 1755 o Rei D. José, a mulher e as filhas encontram-se no edifício quando ocorre o terramoto que semi-destroi Lisboa, levando o Rei a instalar-se em tendas nos jardins, após o que se mudou para a Ajuda, onde fora edificado um palácio em madeira, chamado a Barraca Real.
https://youtu.be/P1AqOQtjiN8?si=ExSlOPLbbZ8-q2t4
Belém fica abandonando durante décadas, tendo o recheio seguido, devido às invasões francesas, para o Brasil. Por decisão de D. Maria II, em 1846, é recuperado, as paredes são forradas a seda, os pavimentos revestidos a madeiras preciosas e vê abrir-se-lhe um amplo salão de baile.
Após o desaparecimento da monarca, desenlaces acontecem inesperadamente: a Rainha Estefânia, o Rei D. Pedro V e os príncipes Fernando e João morrem com intervalo de meses.
https://youtu.be/Ka8YWhNbI-w?si=f6YWgmUIMczc-2Kt
O novo soberano, D. Luís, jamais habitará nele, só se deslocando ao seu picadeiro para ver domar os poldros que havia de montar. O palácio acolherá membros de casas reais de visita a Portugal, caso da Rainha Isabel II de Espanha e do futuro Rei Eduardo VII de Inglaterra. Em 1889 D. Carlos e D. Amélia reocupam-no, tendo as suas instalações sofrido de novo grandes obras. Alguns tectos e sobre - portas são pintados por Columbano e Malhoa, tendo sido construída uma pequena capela.
Após a morte de D. Luís, os novos reis mudam-se para o Palácio das Necessidades e, mais uma vez, Belém fica destinado a residência exclusiva de visitantes ilustres. Nele instala-se o Rei Afonso VIII de Espanha, o Imperador Guilherme II da Alemanha, o presidente Loubet da França.
O picadeiro, alvo de obras, torna-se, por iniciativa da Rainha D. Amélia, Museu dos Coches, considerado um dos melhores do mundo. Com o assassínio de D. Carlos e do seu primogénito, em 1908, Belém é entregue pela casa-real ao Estado.
Na noite de 3 de Outubro de 1910 o presidente brasileiro Hermes da Fonseca, então de visita ao nosso País, é homenageado com um banquete enquanto, fora, se preparava a proclamação da República.
De madrugada, D. Manuel II abandona Belém e regressa às Necessidades. Na manhã seguinte, a 4 de Outubro, o edifício sofre vários bombardeamentos obrigando à fuga do monarca para Mafra e ao embarque, na Ericeira, no iate Amélia, com a mãe, a avô e o tio, para o exílio. "Palácio fatídico", segundo relatos continuados, há nele, dizem, mau olhado. De monárquicos? de republicanos?
Ai! o que pensar da IA?






Rita Rato: afinal era boa demais!

O afastamento de Rita Rato da direção do Museu do Aljube prova que nunca estamos bem quando... finalmente estamos bem.
Rita Rato fez um trabalho notável naquela casa de memórias; ao princípio, todos diziam, com as suas bocas cheias de certezas, que seria uma escolha errada. Mas ela foi em cheio, lavou a face da antiga prisão política e deu-lhe uma dignidade que poucos esperavam.
Agora, puseram-na na rua. Não interessa o partido onde ela gastou os dias como deputada; o que conta nesta história é o suor que deixou no solo do compromisso. E a qualidade! A taça transbordou, como se o champanhe do sucesso fosse um pecado.
Rita entregou o corpo ao trabalho e a colheita foi farta, e por isso o tempo dela acabou. É a velha história dos homens que não suportam ver uma vinha florescer, sob a mão de quem eles não escolheram. João S. Lima

É urgente passar-a-palavra
Moita Flores: Chão coalhado de dor

DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Envelheci com a crença de que, um dia, todos haveríamos de ser iguais e felizes. Foi um sonho não resolvido. Continuo a passar por este dia, que evoca mulheres em luta, e sinto que esta caminhada com mais de um século trouxe grandes conquistas, embora o chão esteja coalhado de dor e sofrimento. As mulheres-coisa do Afeganistão, as mulheres viúvas de Gaza, as mulheres com fome de África, as mulheres amordaçadas do Irão, as mulheres de tantos lugares da Terra, explorada, martirizadas, sujeitas à mais cruel servidão, dizem-me que este Dia é um sonho não realizado. Continua a ser uma procissão dolorosa para tantos milhões que sinto que não irei assistir a esse dia de igualdade plena. De sermos irmãos. Deixo-te um abraço, minha irmã. Com a esperança de que este Dia deixe de fazer sentido. (trazido para passar-a-palavra do face de Moita Flores)
Passar-a-Palavra
Margarida Davim: Adão e Eva
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente.


É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família.
E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza.
Acabam-se os disparates, que a conversa do "isto agora não se pode dizer nada" é só quando nos convém. Perdão.
Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante? (trazido para passar-a-palavra do Face de Margarida Davim)
Passar-a-Palavra
Mia Couto: a Literatura me salvou



Em cena há 74 anos em Londres
O mistério de "A Ratoeira"
Há um mistério sobre A Ratoeira, de Agatha Christie, em cena em Londres desde 1952. O segredo resiste ao tempo e ao esquecimento. Muitos dos atores que pisaram aquele palco já faleceram, mas a peça permanece imóvel, como uma armadilha eterna no West End.
O verdadeiro mistério é o pacto: no final de cada sessão, o público é intimado a guardar o silêncio sobre a identidade do assassino. É este ritual que mantém a peça viva, atravessando décadas e gerações.
Os intérpretes partem, mas a ratoeira continua armada, à espera de quem ainda não conhece a verdade. já ultrapassou as 25 mil representações. The Mousetrap St.Martin's Theatre Ela também é notória por seu final inesperado, que os espectadores ao fim de cada sessão são convidados a não revelar quando saírem dali.
A Ratoeira começou sua carreira como uma peça curta de rádio, transmitida em 30 de maio de 1947 pela BBC, com o nome de Three Blind Mice (Três Ratos Cegos) e é baseada num caso real, a morte de um menino de doze anos por maus tratos de seus tutores, numa fazenda da Inglaterra, em 1945. Christie escreveu um conto baseado na pequena peça radiofônica, que se transformou no embrião da peça teatral.
Ela pediu que o conto não fosse publicado enquanto a peça estivesse sendo representada no West End de Londres, - onde está até hoje - e assim ele é inédito na literatura da Dama do Crime na Grã-Bretanha, apesar de ter sido publicada nos Estados Unidos em 1950, num livro junto com outros pequenos contos, Three Blind Mice and Other Histories. Fora do West End, apenas uma versão da peça pode ser apresentada, uma vez por ano, e nenhum filme pode ser feito até seis meses depois que ela encerre suas apresentações. Seu nome original foi trocado para The Mousetrap, por insistência de uma autora inglesa que havia escrito uma peça de menor sucesso com o mesmo nome antes da Segunda Guerra Mundial.
A peça teve sua estréia mundial no Theatre Royal, em Nottingham, em 6 de outubro de 1952, dirigida por Peter Cotes, e dali fez uma turnê por Liverpool, Manchester, Birmingham e Newcastle, até começar a ser encenada em
Londres no dia 25 de Novembro do mesmo ano, no New Ambassadors Theatre, onde ficou em cartaz por quase 22 anos, até 23 de março de 1974.
Transferida na apresentação seguinte para o St. Martin's Theatre - onde está até hoje - manteve seu status de continuidade, e em 10 de abril de 2008 alcançou a marca de 23.074 apresentações.
O elenco original trazia Sir Richard Attenborough e, apesar do cenário ter sido trocado por duas vezes nas últimas décadas, ainda hoje, um grande relógio da sala do cenário original de 1952 permanece em cena. Atualmente, o elenco - que já teve a participação de 382 atores em sua história - é mudado uma vez por ano, no mês de novembro, e a atriz principal que deixa o papel e a nova que irá substitui-la, cortam juntas um bolo no meio do palco no final da peça, numa das tradições mais conhecidas do espetáculo.
Em 26 de novembro de 2002, a peça fez uma apresentação de gala, com a presença de Sua Majestade a Rainha Elizabeth II e do Duque de Edimburgo.
João Fazenda o ilustrador português do New Yorker na Casa da Imprensa
Num tempo em que as cores já não eram baças, mas a mão logo tratou de lhes dar a vibração da vida e a geometria do pensamento, João Fazenda já andava pela New Yorker.
O traço era nítido. A ideia era um golpe seco. Nascido em Lisboa, em 1979, ele não desenha apenas figuras; ele esculpe o vazio com a linha, povoando o silêncio de gentes que parecem feitas de música e de memória. O seu traço é como o mar na foz: ora límpido, ora revolto em formas que se dobram sobre si mesmas para encontrar o que está escondido atrás do rosto.
Nesta sua caminhada, o ilustrador apresenta agora a exposição "Contra-relógio – Ilustrações de Imprensa", patente na Casa da Imprensa em Lisboa até ao dia 7 de março de 2026. Ali, as suas frases visuais são curtas e certeiras. João já andava pela New Yorker com esse mesmo rigor. No Largo da Horta Seca, o seu trabalho demonstra como a tinta se torna opinião e o boneco política pura.



A obra ilumina o que é simples. Desenha a alma sem usar palavras.
A Nova VISÃO
de Margariuda Davim
Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários.

A meta de 200 mil euros foi atingida para permitir a compra do título em leilão.
Gaza volta a ser bomdardeada
Os palestinianos morrem de sede sob um céu de fogo, enquanto a água lhes é roubada pela mão de ferro que tudo boicota. É o horror puro: eles não têm pão, eles não têm combustível, eles não têm nada senão o pó da destruição. Em Telavive, vive-se o brilho fútil de uma cidade europeia; ali mesmo ao lado, na Faixa de Gaza, morre-se com a crueza do Sudão do Sul. Nós olhamos e nada fazemos.
Tu sentes o aperto na garganta perante este silêncio? Vós, que detendes o poder, permitis que eles sejam reduzidos ao nada. É inaceitável que uns habitem o conforto enquanto outros se finam na lama da miséria. A morte por sede é a mais lenta das demolições humanas. Raul B. Gomes
Menina carrega irmã em busca de auxilio
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
https://youtu.be/2oDByFG1jVk?si=L_eC60dKFGyYkYf8
Cartoonistas americanos de olho em Trump





China lidera 'ranking' mundial de universidades
https://youtu.be/Cs45UV_DUIw?si=nEhhAa2ikP32KHD_
https://youtu.be/qdlEqd30MYM?si=LIlQS5xZDiNbnjxX
https://youtu.be/m4AZcZKpf-s?si=3j6svEpH-EH__j9u
A China lidera agora o ranking mundial de universidades, consolidando a sua hegemonia no conhecimento e na inovação tecnológica. Aprender mandarim tornou-se essencial perante a ascensão da China a potência dominante e líder do comércio global.
Sendo a língua de negócios do futuro, o seu domínio oferece uma vantagem estratégica única no acesso a mercados e tecnologias de ponta. Mais do que comunicação, é a chave para compreender a nova ordem económica mundial. Investir neste idioma é garantir competitividade num mundo que gravita cada vez mais em torno de Pequim.
Natália Correia: liberdade exige desordem
Este é um dos poemas mais provocadores de Natália Correia, intitulado "Aviso". É uma peça curta, mas com uma voltagem de sarcasmo e inteligência típica da autora, onde ela critica a passividade e a falta de chama vital.

Aviso
"Cuidado com os que não bebem vinho. Com os que não sabem rir. Com os que não têm um segredo nem um pecado para contar.
Cuidado com os que não têm sede. Com os que não têm fome de ser. Com os que andam por aí com a alma lavada e engomada.
Cuidado com os que não têm dúvidas. Com os que não se perdem no caminho. Porque esses são os que, um dia, vos vão vender por um bocado de pão."
A Crítica à "Alma Engomada"
Este poema é uma lição de antropologia política e social. Natália utiliza o vinho, o riso e o pecado como metáforas para a humanidade autêntica.
A "Alma Engomada": É a imagem mais forte do poema. Natália desprezava a perfeição aparente, a moralidade excessivamente limpa e burocrática. Para ela, quem não erra, não arrisca ou não tem "sede" de vida, é alguém incompleto e, por isso, perigoso.
O Perigo da Falta de Dúvida: Ela avisa-nos contra os dogmáticos e os puritanos ("os que não têm dúvidas"). Na visão de Natália, a ausência de conflito interno e de paixão torna as pessoas frias e utilitárias, capazes de trair os outros ("vender por um bocado de pão") porque não têm uma ligação emocional profunda com a existência.
A Rebeldia como Ética: O poema defende que o "erro" e o "pecado" são provas de que estamos vivos e que temos uma consciência própria, não formatada pelo sistema. É um apelo a que nos rodeemos de gente real, "suja" de vida, em vez de figuras de cartão que seguem as regras apenas por falta de imaginação.
Este texto resume bem a filosofia de Natália: a ideia de que a liberdade exige uma certa dose de desordem e de prazer.
Creio em Ti, ó Noite
Creio em ti, ó noite, mãe do sono, quando o silêncio de mãos dadas com a minha alma em abandono, percorre as galerias desoladas deste castelo que sou eu.
Creio em ti, ó noite, deusa escura, de cuja fronte desce um véu de sombra sobre a minha dor e a minha desventura. Só tu, ó noite, sabes quanto assombra o vácuo de um destino que não é o meu.
Creio em ti, ó noite, e no teu abraço, no teu hálito de terra e de estrelas, que me levam para além do tempo e do espaço. Creio na luz que nasce de te vê-las, quando o dia, enfim, em ti morreu.
Creio em ti, ó noite, e na promessa que trazes escrita no teu manto negro, de que a angústia um dia, enfim, cessa. No teu mistério, ó noite, me entrego, pois só em ti me encontro e sou eu.

O que torna este poema especial?
A Noite como Refúgio: Ao contrário de muitos poetas que temem as trevas, Natália saúda a noite como uma "mãe" e uma "deusa". É no escuro que ela consegue tirar as máscaras sociais e enfrentar o "castelo" que é o seu próprio interior.
O Destino: Ela fala do "vácuo de um destino que não é o meu", uma expressão poderosa sobre a pressão que a sociedade exerce para que sejamos algo que não queremos ser.
A Entrega: É um poema de rendição espiritual. Natália, que era uma mulher de luta constante durante o dia, revela aqui a sua vulnerabilidade e a sua busca por paz.
Este poema mostra a Natália Correia "filósofa", que via na natureza e no cosmos as respostas que a política e a lógica não conseguiam dar.










