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botequim.pt 08 a 15 de Outubro de 2026
MAIS ABAIXO Lula da Silva já perdeu a 2ª volta das eleições do Brasil?
Anne Carson Autobiography of Red
Poetisa canadiana ganha Nobel da Literatura
O Prémio Nobel da Literatura de 2026 foi atribuído à escritora, poeta, ensaísta e tradutora canadiana Anne Carson, "pela sua obra ousada e inventiva que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea".

Anne Patricia Carson nasceu a 21 de junho de 1950, em Toronto, Canadá.
Perfil Académico: É uma consagrada classicista e professora universitária, tendo doutorado em Estudos Clássicos. Lecionou em várias universidades prestigiadas no Canadá e nos Estados Unidos (como Princeton, Michigan e Berkeley).
Estilo e Abordagem: O seu trabalho destaca-se por desafiar as fronteiras tradicionais entre géneros literários, misturando poesia, ensaio, crítica literária, tradução de textos gregos antigos e elementos visuais.
Distinções Anteriores: Ao longo da carreira, recebeu prémios de relevo internacional, como o T. S. Eliot Prize (sendo a primeira mulher a conquistá-lo), o Prémio Princesa das Astúrias das Letras, o PEN/Nabokov Award e bolsas prestigiadas como a da Fundação MacArthur ("Genius Grant").
Principais Livros
Eros the Bittersweet (1986), Glass, Irony, and God (1995), Autobiography of Red (1998), Men in the Off Hours
(2000), The Beauty of the Husband (2001), Nox (2010), Red Doc> (2013), Wrong Norma (2024)
O Livro Mais Importante: Autobiography of Red (Autobiografia de Vermelho)
Considerada por muitos críticos a obra-prima e o marco definidor da sua carreira, Autobiography of Red: A Novel in Verse (publicada em 1998) redefine a forma de contar histórias através da poesia narrativa.
Resumo: O livro baseia-se num fragmento sobrevivente da obra do poeta grego antigo Estesícoro, que relata o mito do monstro alado Geryon e o seu confronto com Hércules, que o mata para roubar o seu rebanho de gado vermelho. Anne Carson subverte radicalmente o mito ao transportá-lo para um cenário contemporâneo e urbano. Na sua versão, Geryon é transformado num jovem sensível, gay e dotado de asas vermelhas que vive à margem.
A narrativa acompanha a sua descoberta do mundo, a paixão avassaladora e dolorosa por um jovem rebelde chamado Hércules, e a posterior separação. Misturando a psicologia moderna, a solidão e a estética visual com a herança dos mitos clássicos, a obra tornou-se um clássico moderno instantâneo da literatura queer e da poesia narrativa.
László Krasznahorkai, Prémio Nobel da Literatura 2025 explicita a vitalidade e a diversidade recente do panorama literário internacional galardoado pela Academia Sueca.
O direito à habitação existe?
Irene Montero sobre Maricarmem desalojada aos 87 anos:
"Não é uma morte é um assassinato"
A morte de María del Carmen Abascal (Maricarmen), aos 87 anos, em Madrid, vai marcar ainda mais o debate sobre a crise habitacional em Espanha e na Europa e terá consequências nas eleições antecipadas decretadas por Pedro Sanchez.
Espanha irá a votos, com Maricarmen na ponta das canetas
Quem era Maricarmen e o que aconteceu?
Maricarmen tornou-se num símbolo nacional da resistência contra a especulação imobiliária após ter sido despejada da sua casa no bairro do Retiro, em Madrid, onde vivia há mais de sete décadas.
O imóvel foi comprado por um fundo de investimento (fundo abutre) que tentou impor um aumento drástico na renda — pretendendo subi-la de cerca de 500 euros para um valor incomportável de mais de 1.600 euros, superior à própria pensão de Maricarmen.

Apesar dos problemas de saúde, Maricarmen mobilizou centenas de pessoas e coletivos de inquilinos à porta do prédio, mas o despejo acabou por ser executado judicialmente. Poucos dias depois, fragilizada por todo o processo, Maricarmen acabou por falecer no hospital.
A febre dos fundos abutre e o abismo político
O caso de Maricarmen escancarou a fratura social gerada pela financialização da habitação. Em Espanha, tal como em Portugal, os fundos de investimento compram edifícios inteiros, expulsam os inquilinos tradicionais e transformam as frações em ativos financeiros altamente rentáveis, seja para turismo, alojamento de luxo ou especulação pura.
A pressão política: O governo de Pedro Sánchez tem tentado implementar medidas e travões legais para conter a escalada dos preços e proteger os arrendatários, enfrentando forte resistência política dos partidos de Direita e o bloqueio de governos regionais (como na Comunidade de Madrid).
A alternativa autonómica
Regiões como a Catalunha tentaram avançar com tetos máximos para as rendas e restrições à exploração especulativa, mas o problema continua a alastrar-se pelas grandes cidades ibéricas.
O reflexo ibérico
O cenário vividos em Espanha espelha-se diretamente em Portugal, onde as famílias enfrentam custos históricos na habitação, falta de casas acessíveis no mercado de arrendamento e o mesmo avanço de capitais especulativos sobre os centros urbanos de Lisboa e Porto.
A exigência social
Ecoa nas ruas de ambos os países e é clara: a habitação tem de ser encarada como um direito humano fundamental para habitar, e não como um mero ativo financeiro de luxo.
Que se dividam os apartamentos em sociais, destinados à habitação, e em turísticos ou de luxo, destinados a negócio.
Não Pagamos - Dario Fo
O escritor de extrema-esquerda
que arrebatou um Nobel
Dario Fo viveu e interveio numa das eras mais turbulentas e politicamente polarizadas da história europeia contemporânea: a Itália do pós-guerra, a Guerra Fria e a agitação social do final do século XX. ´E autor de "Não Pagamos" um livro muito polémico, como o próprio nome indica. Ganhou o Nobel da Literatura em 1997
Politicamente, Dario Fo foi uma figura central da esquerda radical e anticapitalista em Itália, profundamente marcado por um percurso de ativismo político independente e iconoclasta
O seu percurso intelectual e satírico moldou-se e reagiu diretamente aos seguintes marcos históricos:
Esquerda independente e antiautoritária

Embora tenha começado ligado a alas progressistas e ao Partido Comunista Italiano (PCI), a quem depois criticou por considerar demasiado moderado ou "revisionista", Fo aproximou-se sempre de movimentos sociais revolucionários e da extrema-esquerda extraparlamentar nas décadas de 1960 e 1970.

Teatro de intervenção (Agitprop): Utilizou a sua arte e o teatro satírico como uma arma política direta ao serviço dos trabalhadores, dos operários e dos movimentos de contestação social, fundando coletivos teatrais alternativos (como o Nuova Scena e La Comune).
Crítica implacável ao poder: A sua sátira visava o capitalismo, a corrupção institucional, a hipocrisia do Estado italiano, a censura e o conservadorismo da Igreja Católica.
A vida de Dario Fo (1926–2016) — dramaturgo, ator, encenador e Prémio Nobel da Literatura em 1997 — foi profundamente marcada pela controvérsia, censura e confronto direto com o poder.
Denúncia dos abusos do poder
As suas peças satíricas utilizavam o humor para denunciar abusos de poder de governos e da Igreja Católica, valendo-lhe fortes críticas e boicotes. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi conscrito no exército da República de Salò, conseguindo escapar e esconder-se nos últimos meses do conflito.
Consagração Artística: Nos anos 1960 e 1970, afirmou-se como um dos dramaturgos europeus mais encenados do mundo, destacando-se em obras de sátira política e social como Mistero Buffo e A Morte Acidental de um Anarquista.
Reconhecimento Global: Em 1997, recebeu o Prémio Nobel da Literatura, consagrando uma carreira dedicada a usar o riso como arma de intervenção cívica e política contra a corrupção e a opressão.
Últimos anos: Já na velhice, manteve o seu espírito inconformista e de forte intervenção cívica, tendo demonstrado simpatia e apoio público a movimentos de cidadãos antissistema e de protesto cívico em Itália, como o Movimento 5 Stelle (na sua fase inicial).
Em suma, era um intelectual de esquerda heterodoxo, comunista libertário no espírito, que usava o humor cáustico para combater o poder estabelecido.
Bancos roubam a vida dos Italianos
Quando Dario Fo deixou de estar
Matteo Renzi declarou publicamente que não seria hipócrita ao prestar falsas homenagens, afirmando que nunca gostou de Dario Fo.
Silvio Berlusconi nunca escondeu o alívio perante o afastamento daquele que considerava um agitador político radical travestido de artista.
Junger, alemão, e Marras, francês
A Extrema Direita salvadora na literatura europeia
Ernst Jünger (Alemanha)
Intelectual e escritor de Direita alemão ligado à chamada Revolução Conservadora da República de Weimar.

O anticapitalismo: Em obras fundamentais como O Trabalhador (Der Arbeiter), Jünger rejeita visceralmente o capitalismo liberal burguês, a economia de mercado e a mercantilização do mundo.
Para ele, o capitalismo e o comunismo soviético eram faces da mesma moeda: o triunfo da técnica moderna e do economicismo burguês sobre a alma humana. Propunha uma ordem hierárquica onde o "trabalhador-soldado" substituísse o burguês capitalista.

Charles Maurras (França)
Escritor, poeta de Direita e principal ideólogo da Action Française, o movimento monárquico, nacionalista integral e antiliberal mais influente da França do século XX. (autor de O Declínio do Ocidente): Filósofo e historiador alemão que misturava um pessimismo cultural profundamente conservador com ataques severos ao capitalismo financeiro e ao dinheiro, que considerava o grande coveiro da civilização ocidental. (França):
O principal rosto da Nova Direita europeia contemporânea, cujos escritos criticam implacavelmente o "capitalismo liberal globalizado", o mercado total e a mercantilização de todas as esferas da vida, alinhando-se muitas vezes com teses anticapitalistas de matriz antiliberal.
Em suma, Ernst Jünger ou ainda Oswald Spengler representam o cume deste "anticapitalismo de direita" na literatura europeia: rejeitavam a esquerda marxista pelo seu materialismo e ateísmo, mas odiavam o capitalismo liberal por destruir a tradição, a pátria e o espírito.

Pasolini causou apoplexias ao escrever, numa crónica no Corriere de la Serra, que as maiores vítimas do capitalismo eram, não as multidões dos seus operários, mas as elites dos seus administradores.

E justificava, provocando: as primeiras ganham pouco, é certo, mas têm horários fixos (nessa altura ainda não se falava em flexibilização laboral), fins de semana livres e férias garantidas; os segundos, esses, não dispõem sequer de tempo para si — nem, suprema frustração, para as suas voluptuosas, onerosas amantes.

As contradições dos poderosos («deviam ser eles, hoje, os mais evangelizados», exclama Agustina na Alma dos Ricos) mereciam, na verdade, outras atenções da nossa parte, até porque eles nos condicionam a vida.
A maior parte dos dirigentes comporta-se como se os sectores de que são titulares lhes pertencesse, não curando de pensar que uma empresa é dos proprietários, empregados, colaboradores, clientes, ou seja, da comunidade que a integra, em que se integra; que as decisões a tomar deviam, ao invés do que sucede, levar em conta os interesses, as participações dessa comunidade.

As riquezas naturais não têm donos, são pertença da humanidade.O ter tornou-se esquizofrenia levando, curiosa ironia, trabalhadores a fazerem-se investidores, isto é, pequenos accionistas que funcionam, em simultâneo, como neo-escravos (de uns) e neo-esclavagistas (de outros).
As empresas não podem ser mealheiros pessoais das famílias e grupos que as detêm. Os bons capitalistas (os defensores dele com rosto humano) submergiram há muito, ante ultraliberalistas especializados em desvios, corrupções, branqueamentos que conduzem o sistema para um big-brother demencial, suicidário.
"As causas da pobreza não estão", lembrava Natália Correia, "nos pobres, mas nos não pobres".
.Na mesma linha de pensamento, Almeida Garrettperguntava "aos economistas, políticos, moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, à desmoralização, à desgraça para produzir um rico".

D. Maria Pia, mãe de D. Carlos, enlouqueceu em Portugal no mês de Outubro, mês marcante em toda a sua extraordinária e enevoada vida. Raul Brandão chamou-lhe o mês da rainha louca. D. Maria Pia, mãe de D. Carlos, enlouqueceu em Portugal no mês de Outubro, mês marcante em toda a sua extraordinária e enevoada vida. Raul Brandão chamou-lhe o mês da rainha louca.

Nascida em Turim a 16 de Outubro de 1847, Maria Pia de Sabóia e Bragança, filha de Vítor Manuel II, o rei unificador de Itália, e da arquiduquesa Maria Adelaide da Áustria, casa-se por procuração com D. Luís e entra, triunfalmente em Lisboa, a 5 de Outubro. A ratificação do enlace tem lugar na Igreja de São Domingos, consolidando oficialmente a aliança entre os dois países.

D. Luís subira ao trono aos 23 anos devido à morte prematura do irmão D. Pedro V. As expectativas da corte são grandes, tendo a diplomacia portuguesa trabalhado, desde logo, pelo casamento e descendência do monarca. A escolha de D. Maria Pia teve o melhor acolhimento nos meios sociais e políticos. O nosso País fora, aliás, dos primeiros a reconhecer a unificação italiana.
Autoritária mas magnânima, a monarca ganhou grande popularidade junto do povo e grandes reticências nos grupos radicais. Notável apreciadora de artes decorativas e plásticas, de música, de teatro, de literatura, era uma viajante e coleccionadora incansável.
Percorria com frequência Portugal, França e Itália onde se detinha em museus, teatros, lojas e convívios. Os gastos que fazia eram considerados exagerados pela oposição. A própria corte portuguesa sentia, frequentemente, dificuldades em pagar as suas numerosas encomendas. Encomendas que iam da Europa aos Estados Unidos. Esse património fez, no entanto, da Ajuda um dos palácios mais requintados da época.
No ano seguinte ao casamento, D. Maria Pia dá à luz o primeiro filho, D. Carlos. Um segundo filho, D. Afonso, anima em 1865 a corte portuguesa. Os projectos absolutistas de D. Miguel (tio-avô de D. Luís), exilado após a vitória de D. Pedro IV, na Áustria, caíam por terra. A soberana centrou-se com grande empenho na educação dos
filhos, nas inúmeras obras de caridade e no acompanhamento do trabalho de D. Luís, por quem nutria profundo carinho. A morte deste, ocorrida a 17 de Outubro de 1889, afectou para sempre a sua existência, passando a ser vista com frequência,
de jarro na mão, a regar as flores das alcatifas dos palácios que utilizava. A alegria de viver, as excentricidades, as provocações que a caracterizavam desaparecerem a partir desse Outubro.
Na memória das gazetas da época ficou para sempre um célebre Carnaval por ela preparado em que, disfarçada de mulher do povo, se vestiu de varina, não lhe faltando sequer os tamancos e as argolas de ouro de Viana do Castelo. Ocultando o rosto com uma máscara, quase ninguém reconheceu.
Oito anos depois dá- se o Regicídio vitimizando D. Carlos e o príncipe-herdeiro D. Luís Filipe.Maria Pia fica profundamente abalada. A tragédia que a envolveu tornou-a uma heroína para muitos autores, entre os quais Raúl Brandão. Nas Memórias, este escritor reteve para sempre as figuras de D. Maria Pia e D. Amélia imobilizadas defronte dos corpos sem vida dos imolados.
Apática, lembra uma sonâmbula, cada vez mais distanciada da realidade que a envolve. Passa as noites a vaguear pelos salões falando com os fantasmas dos desaparecidos. Implacável e devastador o mundo da loucura imergiu-a para sempre. Abandona o quarto-real para dormir num anexo onde em tempos provava as suas requintadas roupas.
A revolução republicana apanha-a no Paço de Sintra, num apartamento que ainda existe hoje. Na manhã de 5 de Outubro parte com a nora em direcção a Mafra, onde as espera o rei, D.Manuel. Daí descem, numa caminhada de sombras e sobressaltos, para a Ericeira. O povo aclama-os. Barcos de pescadores leva- os, entre vagas fortes, para o iate Amélia IV que os aguardava ao largo.
Numa das grandes peças do teatro português, O Fim, António Patrício descreve-a a transportar ao colo um pão que, sôfrega, levou de Mafra. Manuela de Freitas incarnou-a antologicamente numa encenação de Jorge Listopad.
Completavam-se nesse dia de Outubro (mais uma vez Outubro) 48 anos da sua chegada Portugal. Após breve estadia em Gibraltar, regressa a Itália, acolhida pelo sobrinho neto, rei Vitor Manuel II.
A república devolve-lhe a maioria do património pessoal, as jóias e alguma prataria, que acabam por ser leiloadas. Morre a 5 de Julho de 1911, aos 63 anos, num palácio da casa- real italiana, envolvida na saudade da terra onde viveu os momentos mais extasiantes e pungentes da sua vida.
Miguel Esteves Cardoso
"se não fosse o Serviço Nacional de Saúde
Eu seria coxo ou já estava morto"
"Se não fosse o NHS - o sistema de saúde do Reino Unido, onde nasceram, muito prematuramente, as minhas filhas - elas não teriam sobrevivido.
Elas devem a vida ao NHS. E eu devo-lhe o amor e a alegria de conhecer a Sara e a Tristana, para não falar no meu neto, António, igualmente devedor,

mais as netas e netos que aí vêm.Se não fosse o SNS (Serviço Nacional de Saúde) eu teria morrido em 2005, com uma hepatite alcoólica causada unicamente por culpa minha.
Seria também coxo, quando me deram uma prótese para anca. E, sobretudo, teria morrido, se o SNS não me tivesse dado o antibiótico caríssimo (Linozelid) que
me salvou do MRSA assassino que me infectou durante a operação.Se não fosse o SNS, a Maria João, o meu amor, estaria morta. Se não fossem o IPO e o Hospital de Santa Maria, pagos pelo SNS, ela não estaria viva, por duas vezes.Sem a NHS e o SNS, eu seria um morto, sem mulher, filhas ou netos. Estaríamos todos mortos ou condenados à inexistência.
Não é difícil chegar à conclusão, atingida desde os meus dezanove anos, de que as melhores ideias de todas são a social-democracia e o Estado-providência: não tanto no sentido ideológico, mas na prática.A nossa família e as nossas famílias só existem e podem existir se não tiverem morrido.
Damos graças aos serviços nacionais de saúde - a esse empenho ideológico e caríssimo - que nos tratam como se fizéssemos parte deles.Devemos as nossas vidas a decisões políticas tomadas por outros."
Bolsonaro Versus Lula
Lula já perdeu
Lula da Silva já perdeu a segunda volta, ainda antes dela se disputar, por obra e graça dos evangélicos que subjugam agora religiosamente o Brasil
Com recursos a vários videos tentamos explicar o que sucedeu para a surpreendente vitória de Bolsonaro sobre Lula na primeira volta, por uma margem de apenas dois pontos percentuais;
revelou-se inesperada para grande parte dos observadores políticos, mas carrega um significado profundo sobre o panorama atual do Brasil. Este resultado escancara a influência avassaladora que os movimentos evangélicos conquistaram em todo o país.
No tabuleiro do poder brasileiro, os tradicionais coronéis e os grandes proprietários de terras já não mandam sozinhos; a hegemonia social e política estendeu-se de forma decisiva às igrejas e comunidades evangélicas.
Neste cenário, Bolsonaro transformou a prática política num exercício de feudo pessoal, agindo como se detivesse uma grande propriedade privada ou como se o seu apelido reinasse há gerações. A sua estratégia baseia-se na promessa fácil e absoluta: promete tudo ao eleitorado, revestindo o discurso com um manto messiânico ao afirmar que governa e nomeia em nome de Jesus.
Esta simbiose entre o poder político, a promessa populista e a fé religiosa desafia a racionalidade democrática e ameaça agravar seriamente os problemas estruturais do Brasil.
As consequências desta guinada antecipam-se profundas e alarmantes, com impactos diretos na preservação ambiental — antevendo-se uma nova vaga de desmatamento na Amazónia — e na geopolítica internacional. Sobretudo, esta postura coloca em risco a relação historicamente benéfica no âmbito dos BRICS, fragilizando o papel construtivo que o Brasil desempenhava ao ajudar a aproximar potências como a Índia e a China de uma nova época de cooperação e civilização global.
Se antes as elites tradicionais e as grandes famílias viam com receio as medidas de cariz popular de Lula da Silva, hoje encontram-se perante um cenário radicalmente distinto: foram ultrapassadas na tomada de decisões por uma nova força social.
As famílias historicamente dominantes perderam espaço de poder, uma vez que quem dita as regras e influencia diretamente o rumo político são agora os pastores destas igrejas, que se ergueram como verdadeiros potentados económicos.
As dinâmicas de poder e influência religiosa não se limitam ao continente americano, ecoando também na realidade europeia e portuguesa.
A célebre e aprofundada investigação jornalística de Alexandra Borges e Judite França na TVI, intitulada "O Segredo dos Deuses", abriu o debate público ao denunciar uma alegada rede de adoções ilegais e esquemas associados a figuras e estruturas ligadas a correntes neopentecostais, como Igreja evangélica.
Apesar da gravidade das denúncias trazidas ao pequeno ecrã — que expuseram circuitos paralelos de retirada e encaminhamento de crianças —, o impacto político e institucional esbarrou muitas vezes na inércia ou na recusa de intervenção direta por parte dos órgãos de soberania, deixando a investigação e as questões de fundo num limbo perante a complexidade jurídica e a sensibilidade do tema.



"ESPÓLIO": reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta
Artur Semedo
"Um partido que não ri
está condenado"

"Rir é uma reacção de inteligência, um partido que não ri está condenado. As piadas destroem mais do que os discursos.
"Eu, por exemplo, andei no PC antes do 25 de Abril, tinha mesmo um irmão muito mergulhado no partido, mas saí pois afligia-me a falta de sentido de humor dos seus militantes. Estava permanentemente a dizer-lhes, oh senhores riam, riam por favor!
"O Saramago aprendeu a rir comigo. Um dia disse-lhe: tu tens de rir, não há razão nenhuma para não rires. E ele começou a rir. Tinha, aliás, bons dentes para isso. Não ria por coisas do PCP, nódoas pecêzistas que teimava em conservar.
"Frequentávamos as tertúlias de café onde pontificavam os grandes escritores, recordo-me que na pastelaria Mourisca estavam sempre o Casais Monteiro e o Jorge de Sena, na Paulistana o prof. Lima Basto, isto nos anos cinquenta.
"A falta, hoje, dessas tertúlias, com o seu convívio, a sua maledicência, as suas discussões, é desoladora. Politicamente eram quase todos do contra. Havia uma grande cumplicidade entre nós, de admiração, de amizade.
"Dei-me sempre muito com escritores. Fui muito amigo do Alves Redol, do Zé Cardoso Pires, do Manuel da Fonseca, do Carlos de Oliveira. Os escritores gostam de falar comigo, até o Saramago gostava.
«O 25 de Abril foi um dos grandes momentos da minha vida. Rasguei pano por todo o lado ... Quando se deu o primeiro 1º de Maio percebi que ia falhar. As ocupações não foram feitas por quem as deviam fazer, mas por outros. Pelos aparelhos partidários. Comecei a andar de desilusão em desilusão, senti-me ferido, muito ferido... é a tal questão da honestidade. Quem tem desses valores está tramado. Sempre tramado.
"O tempo do Estado Novo era muito engraçado. Ao regime, o desenvolvimento cultural que interessava era o do vinho, beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, dizia-se, o de ir a Fátima, à bola... existia, no entanto, uma actividade cultural muito interessante.
"Havia o grupo dos neo-realistas, dos surrealistas, havia realizações de cinema, de teatro, de pintura. Eu convivi com esses grupos todos desde muito cedo, desde o Conservatório.
"Portugal é um pais em que, mais do que mulheres, se violam correspondências e telefonemas. Os nossos marialvas, que não têm qualquer sentido de humor, são-no apenas na posição vertical, não na horizontal. Quando passam à horizontal entram na pornocracia. As polícias, com a mania das escutas, que o digam. Não tenho consideração por isso.
"Certa vez tive que despachar um polícia que se meteu comigo e com a senhora com quem eu estava dentro do carro para os lados de Cabo Ruivo. Quis-nos levar para a esquadra. Eu identifiquei-me, contei-lhe que tinha espectáculo daí a pouco, expliquei-lhe que a senhora tinha uma alta posição na embaixada de
Itália, que era tudo muito chato, mas ele nada, não se demoveu. Bom, só há uma maneira de resolver isto, disse para comigo. Olhei à volta, estava tudo deserto, saí do carro e, zás! Uma boa cabeçada, apesar da pala do boné do tipo, deitou-o por terra, a dormir. Safámo-nos assim.
"Um dia o marido de uma amiga minha disse que ia viajar e não viajou. Estávamos muito bem deitados quando ela gritou, aí que estão a abrir a chave! Eu agarro na roupa e pus-me atrás da porta. Antes que ele me visse arriei-lhe, toma, toma, dei-lhe uma carolada que o deixou estendido. Depois saí. Tornei-me especialista em dar caroladas. Quando era surpreendido raspava-me deixando os tipos a dormir e elas, acordadas, a acordá-los.
"Adorava ser galã, sobretudo de vestir bem. Eu é que ditava a moda, como a do andar despenteado e com a barba por fazer... não para excitar as mulheres mas para acalmar os ciúmes dos maridos. Tinha mais sorte com a barba por fazer do que escanhoado!
"Tinha muitos convites para filmar fora, sobretudo em Espanha onde havia uma grande falta de jovens no cinema castelhano de então por causa da guerra civil . Daí que os produtores se tivessem voltado para os actores portugueses da época, que eram muito bonitos. Alguns conseguiram boas carreiras, o António Vilar, o Virgílio Teixeira, o Carlos Otero, a Isabel de Castro, a Maria Dulce, o Barreto Poeira. Só não me radiquei lá porque não sou pessoa de ficar fora. Gosto muito do meu recanto.
"Há ainda uma mentalidade que subsiste afirmando que a cultura irradia do centro do País, de Coimbra onde, segundo ela, se encontram as nossas verdadeiras raízes. Portugal tem quatro pontos cardeais, é verdade, mas dois são muito, muito estreitinhos: o oeste e o este. Ou seja, Portugal quase que não tem esquerda nem direita. Só centro. Centro e norte ... e novo riquismo.
"Estamos a sofrer uma hecatombe descomunal de novo-riquismo. Há disparidades incríveis na distribuição do dinheiro, uma parte das pessoas passa fome e outra sofre de indigestão por comer em demasia. É uma vergonha. As pessoas estão a caminhar para o antropofagismo.
Entramos num restaurante e vemos dois empresários sentados. Não se matam a tiro, não, mas aquele que tem mais força nos dentes come o outro, devora o outro, deglute o outro. É um regresso à selva. Tenho por vezes de fazer um esforço muito grande para não pegar numa espingarda e desatar aos tiros, pum, pum!
BIOGRAFIA
Nascido em 1924 en Arronches, no Alentejo, Artur Semedo - actor, autor, realizador, encenador - fez-se uma figura angular no mundo do espectáculo e da boémia, do convívio e da comunicabilidade, da transgressão e da moda.
"Meu Amor é Traiçoeiro", que protagonizou com Laura Alves, e "Vidas Sem Rumo", com Helga Liné, foram interpretações suas, no teatro a primeira, no cinema a segunda, que o impuseram como um dos grandes galãs ibéricos.
Faleceu em 2001, em Lisboa.
( "ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta)
Palácio do Correio Velho 12 de Outubro próximo
leilão on-line com 159 lotes
É o leilão online 2159 do Palácio do Correio Velho (dedicado à Coleção Privada & Coleção do Antiquário Augusto Alves dos Santos - Parte III) composto por 195 lotes e nele se cruza a herança de antiquariat clássico, arte sacra, peças de cariz oriental e arte moderna/contemporânea.
O catálogo reflete o espólio eclético típico de uma grande coleção de antiquário e espalha-se por várias categorias:
Arte Oriental e Asiática: Inclui peças como Thangkas (têxteis budistas tibetanos), esculturas e divindades hindus e nepalesas em madeira entalhada, placas em pedra dura esculpida (como representações de divindades), painéis em baixo-relevo da Birmânia e porcelana da Companhia das Índias.
Arte Sacra e Ícones: Várias peças de inspiração religiosa, destacando-se ícones ao estilo ortodoxo (como representações de Nossa Senhora com o Menino Jesus) e peças devocionais

Móvel de alçado Luis XV
Nossa Senhora com o Menino Jesus, ao estilo dos ícones ortodoxo, com missangas e outros materiais. Emoldurada. Gastos, falhas e defeitos.
Dim. aprox. imagem.: 19 x 17,5 cm.; Dim. total. aprox.: 63 x 57 cm. 1ª licitação 160 euros

O catálogo reflete o espólio eclético típico de uma grande coleção de antiquário e espalha-se por várias categorias:
Arte Oriental e Asiática: Inclui peças como Thangkas (têxteis budistas tibetanos), esculturas e divindades hindus e nepalesas em madeira entalhada, placas em pedra dura esculpida (como representações de divindades), painéis em baixo-relevo da Birmânia e porcelana da Companhia das Índias.
Arte Sacra e Ícones: Várias peças de inspiração religiosa, destacando-se ícones ao estilo ortodoxo (como representações de Nossa Senhora com o Menino Jesus) e peças devocionais.
Mobiliário, Decoração e Antiguidades: Frisos orientais com lamberquins em lã e fio de seda (séculos XVII/XVIII), pares de cassolettes com pedestais em madeira entalhada e peças decorativas de colecionismo.
Arte Moderna, Contemporânea e Pintura: Obras de pintura a óleo, técnicas mistas e gravuras — incluindo criações de artistas contemporâneos (como peças do artista Huang Gang), além de conjuntos de gravuras históricas (como as gravuras coloridas de Giovanni Ottaviani sobre as Salas de Rafael no Vaticano).
Livros e Manuscritos Raros: Edições de colecionador e fac-símiles de relevo, como volumes da Bíblia de San Luis e réplicas de manuscritos iluminados medievais (Bíblia Arménia).


A chegada às salas de cinema de Santo António, a nova aposta assinada por Ruben Alves, traz de volta ao grande ecrã o olhar afetuoso e popular de um realizador que sabe, como poucos, dialogar com a identidade luso-francesa e com o imaginário cultural português.

Contando com a presença magnética de Joaquim de Almeida à frente do elenco, o filme assume-se como um dos lançamentos mais aguardados do circuito comercial recente.
A História e o Enredo
Longe de ser uma biografia estritamente religiosa de época, a narrativa ancora-se na Lisboa dos nossos dias, onde o peso da tradição, as festas populares e a figura de Santo António — o casamenteiro, o procurador das coisas perdidas e o protetor da cidade — servem de bússola para os encontros
e desencontros das personagens. A trama acompanha laços familiares fraturados, paixões improváveis e pequenas buscas pessoais, nas quais Joaquim de Almeida encarna uma figura central de patriarca carismático, cuja vida se cruza com a dinâmica caótica, luminosa e calorosa dos bairros lisboetas.
A Assinatura de Ruben Alves: Do Fenómeno de A Gaiola Dourada a Este Regresso
Ruben Alves já provou a sua mestria na comédia humana com "A Gaiola Dourada" (La Cage Dorée, 2013),

o estrondoso sucesso de bilheteira que levou mais de 750 mil espectadores aos cinemas em Portugal e conquistou mais de um milhão em França ao retratar com ternura e humor a comunidade de emigrantes portugueses em Paris.
Em Santo António, o realizador recupera essa mesma sensibilidade sociológica: Autenticidade e pertença: A capacidade de captar a alma das ruas e a hospitalidade sem cair na caricatura fácil.
Comédia com coração: O equilíbrio entre o humor genuíno e momentos de melancolia honesta sobre a passagem do tempo e as raízes. Elenco de peso: A mestria em tirar partido do talento e da autoridade cénica de Joaquim de Almeida, oferecendo-lhe um papel que conjuga gravidade dramática e cumplicidade com o público.
O Interesse do Filme
O verdadeiro apelo de Santo António reside na sua capacidade de celebrar a identidade coletiva sem cinismo. Numa cinematografia nacional frequentemente dividida entre o hermetismo de autor e a comédia ligeira sem substância, a obra de Ruben Alves posiciona-se naquele espaço nobre do cinema popular bem construído: fotografia cuidada, ritmo envolvente e um amor genuíno pelas pessoas e pelos lugares que retrata. É um filme feito para reencontrar o público e encher as salas com o pulsar de Lisboa.

O argumento foi escrito por Ruben Alves em conjunto com Hugo Gélin e Jean-André Yerlès. Ruben Alves é ilho de pais portugueses que emigraram para França nos anos 1960 e 1970 — a sua mãe trabalhava como porteira e o seu pai na construção civil.
O filme é amplamente inspirado na história e vivências da sua própria família e da comunidade de emigrantes portugueses em França.

Trata-se de uma comédia que reune Ruben Alves com a atriz Rita Blanco (que protagonizou A Gaiola Dourada), ao lado de um elenco que inclui Joaquim Monchique, Ana Bola e Maria João Bastos.

Ruben Alves é um ator, argumentista e realizador luso-francês, nascido a 9 de janeiro de 1980 em Paris.
Origens e Primeiros Passos
Filho de pais portugueses que emigraram para França nos anos 1960 e 1970 — a sua mãe trabalhava como porteira e o seu pai na construção civil —, Ruben
cresceu em Paris em contacto próximo com as duas culturas. Essa vivência bicultural tornou-se a sua maior marca artística.
Iniciou a sua formação artística no teatro e na representação no início dos anos 2000, trabalhando durante anos como ator em várias produções televisivas e cinematográficas francesas (como La vie devant nous, Secret Défense e Yves Saint Laurent).

A Gaiola Dourada (La Cage Dorée, 2013): A sua estreia na realização de longas-metragens foi um fenómeno de bilheteira em França e em Portugal. O filme aborda com humor, respeito e sensibilidade a vida de um casal de emigrantes (interpretado por Rita Blanco e Joaquim de Almeida). Venceu o Prémio do Público nos prestigiados Prémios do Cinema Europeu (EFA) e foi nomeado para o César de Melhor Primeiro Filme em França.
Miss (2020): A sua segunda longa-metragem como realizador, comédia dramática que acompanha um jovem rapaz que persegue o sonho de concorrer e vencer o concurso de Miss França. O filme destacou-se pela abordagem à identidade de género, aceitação e superação pessoal.
Santo António – O Casamenteiro de Lisboa: Projeto de comédia focado na energia bairrista de Lisboa e nos tradicionais casamentos de Santo António.
Outros Projetos e Reconhecimento
Além da ficção no cinema, Ruben Alves dedicou-se à música e à preservação da identidade cultural: realizou documentários e projetos audiovisuais com foco no Fado, incluindo parcerias e registos em torno de nomes como Carminho, além de participar ativamente em iniciativas de cooperação cultural entre Portugal e França.
Em 2013, o Estado Português atribuiu-lhe o grau de Comendador da Ordem do Mérito, em reconhecimento pelo seu contributo na divulgação da cultura portuguesa e na valorização das comunidades portuguesas no estrangeiro.

Primo Levi (1919–1987) é um dos mais conhecidos nomes de Auschwitz e sobreviveu. Era judeu. Primo Levi permanece como uma das vozes mais lúcidas, despidas de ódio e moralmente rigorosas do século XX. O seu legado transcende o mero relato testemunhal: Levi operou como um cientista da alma humana perante a aniquilação deliberada da dignidade.
A Sobrevivência em Auschwitz. Químico de formação e judeu italiano, Levi foi capturado em 1943 enquanto integrava a resistência antifascista e deportado para Auschwitz III (Monowitz) no início de 1944.
A sua sobrevivência deveu-se a uma combinação improvável de fatores: a sua formação científica permitiu-lhe ser alocado a um laboratório da fábrica de borracha sintética da IG Farben nos meses mais frios de inverno.
A ajuda clandestina de um trabalhador civil italiano (Lorenzo Perrone) que lhe fornecia restos de sopa diários, é preciosa.
A outra inesperada ajuda será ima crise de escarlatina no momento da evacuação alemã — o que o impediu de marchar nas letais "marchas da morte", acabando libertado pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945.
A Obra: O Olhar Analítico da Memória Levi escreveu não para vingar, mas para compreender. A sua prosa caracteriza-se pela precisão descritiva, despida de histeria retórica:
Se Isto É um Homem (1947): Uma autópsia da desumanização. Levi detalha o sistema concentracionário onde a fome, o trabalho forçado e o frio desmantelavam a identidade do indivíduo até ao limite moral e biológico.
A Trégua (1963): A errática odisseia de regresso à Itália através de uma Europa oriental em ruínas, marcada pelo contraste entre a sobrevivência física e o trauma latente.
Os Afogados e os Sobreviventes (1986): A sua obra teórica definitiva, onde formula o conceito da "zona cinzenta" — o espaço moral ambíguo em que opressores e oprimidos se cruzavam para sobreviver, recusando simplificações maniqueístas do mal absoluto.
A negação do Holocausto
O Fim de Vida e o Peso da Memória A ideia de que Levi morreu "abandonado" no sentido social não corresponde exatamente aos factos, mas reflete com precisão o seu isolamento existencial e intelectual. Em Turim, Levi vivia integrado na família e cuidava da mãe idosa e doente, mas carregava o estigma profundo da culpa do sobrevivente — a angústia de crer que "os melhores não regressaram".
Nos seus últimos anos, o isolamento agravou-se perante a ascensão de correntes negacionistas do Holocausto e a indiferença das novas gerações, que lhe pareciam esquecer a facilidade com que um regime civilizado tomba na barbárie.
Em abril de 1987, caiu do vão de escadas do seu prédio em Turim, com a investigação a concluir tratar-se de suicídio (embora amigos e biógrafos continuem a debater se foi deliberado ou um acidente provocado por vertigens e medicação).
Elie Wiesel resumiu o impacto dessa morte afirmando que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois".
A grandeza de Primo Levi reside em ter transformado a experiência do abismo humano num instrumento de conhecimento ético e racional, exigindo a cada leitor a responsabilidade permanente da lucidez.
World Press Cartoons





Todo o ouro já extraído da crosta terrestre seria insuficiente para pagar a dívida norte-americana. Seriam necessárias sete Nvidias ou cada cidadão norte-americano doar 117 mil dólares.


New York Times "A vingança molda as prioridades do presidente, impulsiona suas ações e estrutura as decisões do seu governo", escreve nossa colunista Jamelle Bouie. "Nenhum lugar é mais aparente do que quando Trump desvia o peso do governo federal contra aqueles americanos que desafiam a sua vontade." https://nyti.ms/4xxjJuv
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel.
Países do Levante, civilizações milenares
Trump na mira dos cartoonistas americanos






Natália Correia
Os acontecimentos são pedras

Num rio que não existe
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
O poema é o grilo
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.
E o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.
Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.
E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.


0 mundo lisboeta de Natália Correia
Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias. Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.

















