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Edição de 15 a 22 Março de 2026, com actualizações diárias
Editorial
Portugal não produz riqueza, produz ricos
Últimos apuramentos de contas revelam que em 2025 só uma empresa eléctrica teve lucros líquidos superiores a 1.000 milhões de euros, uma gasolineira arrecadou 1154 milhões, que quatro bancos somaram 14 milhões de euros por dia.

Cresce o número de pessoas que questionam as razões de Portugal estar, nas últimas décadas, em paragem económica e social, por vezes retrocesso, quando outros, de patamares afins, se desenvolvem, se harmonizam.
Em passado recente, escamoteia-se, crescia-se seis por cento ao ano; agora não se ultrapassam, pese o contentismo de vários responsáveis, dois por cento.
https://youtu.be/mVPJ1_spgcA?si=I3j0-yv1r7q1WNzp
Se o progresso de um país se mede pelo bem estar das populações, onde está o do nosso? Tirando a corte (a que vive do orçamento, dos partidos, dos lóbis, das famílias - parecemos mais uma monarquia do que uma república), os privilegiados que enchem restaurantes de luxo, compram apartamentos milionários, conduzem automóveis de topo gama, abarbatam créditos, pagam ordenados indignos, desviam fundos públicos, escusam-se a fiscos, ocultam fortunas em paraísos enevoados - o povão e a classe média calam vergonhas de má nutrição, de inacessibilidades na saúde, de insegurança no emprego, na família,
espantados com acusações de "viverem acima das suas possibilidades", de serem responsáveis pelas carências sofridas, por preguiça, por desistência, por ausência de ambições.
Os dominadores têm, sabe-se, a tendência de culpabilizar as vítimas por o serem. Desligada da realidade, afastada dela, a elite instalada (na economia, na política, na cultura, na academia, na justiça, na comunicação social) cria um país contentinho, opaco e egoísta que põe os seus interesses pessoais e de grupo acima dos da comunidade, hipotecando o futuro às novas gerações, criando divórcios crescentes entre Estado e Nação.
Como pode haver progresso se - denuncia o Observatório Fiscal da União Europeia - 40 por cento do Produto Interno Bruto português está depositado em paraísos fiscais? Exangue, o corpo do País arqueja sob propagandas suicidárias umas, populistas outras, não curando de esclarecer que desenvolvimento não significa só por si progresso, mas quase sempre enriquecimento de minorias e empobrecimento de maiorias, isto é, aumento de fossos sociais, retornos à precarização, ao abandono, ao retrocesso.
https://youtu.be/2bNxlnpT3OI?si=9GXAa_rOvmoQa_Xi
Últimos apuramentos de contas revelam que em 2025 só uma empresa eléctrica teve lucros líquidos superiores a 1.000 milhões de euros, uma gasolineira arrecadou 1154 milhões, que quatro bancos somaram 14 milhões de euros por dia. Distribuidoras (supermercados) contabilizam milhões, tal como farmacêuticas, escritórios de advogados, clínicas de saúde, construtoras civis.
Socorrendo-se do princípio dos vasos comunicantes, Raul Brandão afirmava, vai para 100 anos, que "por cada pessoa que enriquece, mil empobrecem". Qual será hoje a percentagem? Os grupos dominantes estão prósperos, o povo não. "Portugal não produz riqueza, produz ricos", advertia Agostinho da Silva.
Poucos residiram no Palácio de Belém

Palco de acontecimentos faustosos e trágicos, o Palácio de Belém, hoje sede da Presidência da República, é um dos mais emblemáticos edifícios da nossa história, tendo enfrentado ao longo dos tempos terramotos e abandonos, vandalismos e sagrações. Talvez por isso, muitos reis e presidentes não o utilizaram como residência pessoal caso, agora, de António José Seguro. Manuel de Arriaga, Bernardino Machado, Sidónio Pais, Craveiro Lopes e Ramalho Eanes foram os presidentes que, temporariamente, o habitaram.
https://youtu.be/PzXGxTNPwdE?si=YAPD5ShvSvPJ69zo
Construído nos séculos XVII e XVIII, o edifício seria adquirido em 1726 pelo Rei D. João V, para sua residência de Verão. Originalmente componha-se de duas áreas, o Solar dos Condes de Aveiras e o Picadeiro. Relatos da época referem que era, no entanto, "simples e desconfortável", o que levou a família real a realizar grandes transformações e a decorar faustosamente o interior.
Em 1755 o Rei D. José, a mulher e as filhas encontram-se no edifício quando ocorre o terramoto que semi-destroi Lisboa, levando o Rei a instalar-se em tendas nos jardins, após o que se mudou para a Ajuda, onde fora edificado um palácio em madeira, chamado a Barraca Real.
https://youtu.be/P1AqOQtjiN8?si=ExSlOPLbbZ8-q2t4
Belém fica abandonando durante décadas, tendo o recheio seguido, devido às invasões francesas, para o Brasil. Por decisão de D. Maria II, em 1846, é recuperado, as paredes são forradas a seda, os pavimentos revestidos a madeiras preciosas e vê abrir-se-lhe um amplo salão de baile.
Após o desaparecimento da monarca, desenlaces acontecem inesperadamente: a Rainha Estefânia, o Rei D. Pedro V e os príncipes Fernando e João morrem com intervalo de meses.
https://youtu.be/Ka8YWhNbI-w?si=f6YWgmUIMczc-2Kt
O novo soberano, D. Luís, jamais habitará nele, só se deslocando ao seu picadeiro para ver domar os poldros que havia de montar. O palácio acolherá membros de casas reais de visita a Portugal, caso da Rainha Isabel II de Espanha e do futuro Rei Eduardo VII de Inglaterra. Em 1889 D. Carlos e D. Amélia reocupam-no, tendo as suas instalações sofrido de novo grandes obras. Alguns tectos e sobre - portas são pintados por Columbano e Malhoa, tendo sido construída uma pequena capela.
Após a morte de D. Luís, os novos reis mudam-se para o Palácio das Necessidades e, mais uma vez, Belém fica destinado a residência exclusiva de visitantes ilustres. Nele instala-se o Rei Afonso VIII de Espanha, o Imperador Guilherme II da Alemanha, o presidente Loubet da França.
O picadeiro, alvo de obras, torna-se, por iniciativa da Rainha D. Amélia, Museu dos Coches, considerado um dos melhores do mundo. Com o assassínio de D. Carlos e do seu primogénito, em 1908, Belém é entregue pela casa-real ao Estado.
Na noite de 3 de Outubro de 1910 o presidente brasileiro Hermes da Fonseca, então de visita ao nosso País, é homenageado com um banquete enquanto, fora, se preparava a proclamação da República.
De madrugada, D. Manuel II abandona Belém e regressa às Necessidades. Na manhã seguinte, a 4 de Outubro, o edifício sofre vários bombardeamentos obrigando à fuga do monarca para Mafra e ao embarque, na Ericeira, no iate Amélia, com a mãe, a avô e o tio, para o exílio. "Palácio fatídico", segundo relatos continuados, há nele, dizem, mau olhado. De monárquicos? de republicanos?
Ai! o que pensar da IA?






Fui a Paris para ver Renoir
Fui visitar de propósito o Museu d'Orsay, em Paris, para ver o quadro "O Baile no Moulin de la Galette", de Renoir, que tanto me apaixona, até porque o museu faz 40 anos desta casa de luz. Que tempo este, em que a matéria se faz claridade! A obra é o coração de "Renoir e o Amor", onde o mundo parece uma manhã eterna.
Em Montmartre, o povo dança sob um sol que pinga das árvores, criando manchas de ouro na carne e nos trapos. É uma modernidade alegre, de pincelada fluida, celebrando o baile e a vida no seu 150.º aniversário.
Mas, entre tanta claridade, espreita a sombra. "O Desesperado" de Courbet, vindo de mãos privadas, olha-nos com olhos de abismo. Tu sentes o contraste?De um lado, o riso que flutua no ar de Paris; do outro, o grito mudo de um homem que se rasga.
O museu é este lugar onde o contentamento se cruza com a dor mais funda, oferecendo-nos a angústia de um e o esplendor de outro. Vós que passais, vede como a tinta ainda pulsa, quente e terrível.
J.P.Saragoça
Quai d' Orsay, Paris:
os jovens sabichões
Uma jovem sentou-se ao meu lado num banco corrido do Museu d'Orsay, ao mesmo tempo que um pombo entrou inesperadamente por uma claraboia do museu e pousou, manso, sobre a moldura dourada do Renoir. Eu sacodi a manga do casaco e disse-lhe:

- Vê, minha menina, como a luz ali não é tinta, mas o próprio hálito da vida? E a estudante respondeu: - É mais do que luz, senhor. Olhe a psicologia daqueles rostos no baile; Renoir não pinta corpos, ele pinta a euforia de quem esqueceu a morte por um instante. - e eu suspirei, olhando as manchas de sol: - A menina tem olhos de ver. Renoir disseca a alegria com a mesma precisão com que outros dissecam a dor. A jovem sorriu, apontando para o centro da tela: - Cada pincelada é um batimento cardíaco, uma negação da sombra que nos habita. - E eu murmurei: - Sim, porque no fundo de cada cor alegre, ele escondeu a nossa fome eterna de sermos felizes. - E ficamos imóveis e eu pensei, já não no quadro, mas nos jovens hoje. São diferentes, porque podem viajar e por isso já conhecem melhor a vida. Raul B. Gomes
Jóias Dinásticas
No Hotel de la Marine, em Paris

Theresa Lobo
Sheikh Hamad bin Abdullah Al-Thani, é um proeminente coleccionador do Qatar e um apaixonado por arte e um grande mecenas.
Este Príncipe lembra a família Medici, que governou Florença e depois a Toscana até 1737, com alguns intervalos no meio. Além de muitos empreendores, os Medicis amavam arte e como mecenas financiavam e investiam em arte.
MEDICI: MASTERS OF FLORENCE (Starring Richard Madden) - Official Trailer
O espólio "Tesouros da Colecção Al Thani" do Sheikh Hamad bin Abdullah Al-Thani está exposto permanentemente em quatro galerias do edifício histórico, Hotel de la Marine, na Place de la Concorde, em Paris. A colecção inclui 120 obras de arte excepcionais, desde a Antiguidade até ao século XIX.
A Colecção Al Thani no Hôtel de la Marine
Esta magnífica colecção tem um direito de uso por 20 anos sobre um espaço expositivo no Hotel de la Marine, este espaço museológico apresenta as obras de arte provenientes de toda a colecção, além de acolher uma série bienal de exposições temáticas e empréstimos individuais de museus internacionais.
O espaço museológico é o resultado de um acordo de longo prazo entre a Fundação da Colecção Al Thani e o Centre des Monuments Nationaux (CMN), responsável por este edifício histórico emblemático.
Até Abril de 2026, a Colecção Al Thani, no Hotel de la Marine, em Paris, apresenta o terceiro capítulo de uma trilogia de exposições organizada em colaboração com o Victoria and Albert Museum, a mostra: Jóias Dinásticas.
Após as duas edições anteriores, dedicadas respectivamente às artes da Idade Média e do Renascimento, esta exposição agora patente no Hotel de Paris, reúne jóias magníficas, raras, históricas e de grande importância, provenientes tanto das colecções do prestigiado museu londrino Victoria & Albert quanto da Colecção Al Thani, muitas das quais são exibidas na França pela primeira vez.

Ainda bem, que este magnífico espólio com diademas lindíssimos das imperatrizes Catarina II da Rússia, Josefina, Maria Luísa da Áustria e a rainha Vitória e de outras princesas, estavam no Hotel de la Marine, em Paris e não no Louvre, senão tinham sido também roubadas em Outubro 2025.
Poder, prestígio e paixão: estas três palavras resumem, por si só, a exposição Jóias Dinásticas e condensam os desafios ligados à posse de gemas e jóias por soberanos e elites.
Poder, antes de mais, porque as jóias não são apenas adornos, mas verdadeiros atributos do poder. Embutidas em coroas, disseminadas nas vestes, integradas nas insígnias régias, encarnam a autoridade soberana, a legitimidade dinástica e a estabilidade do trono.
Prestígio, em seguida, porque as gemas afirmam a posição social, a prosperidade e também o poder de sedução de uma corte, a sua capacidade de maravilhar, impressionar e até intimidar.
Paixão, por fim, de que as jóias são portadoras: paixão íntima pela beleza pura das pedras, paixão amorosaquando a jóia se torna penhor de união e fidelidade, e também paixão pela posse das peças mais raras.
Assim, diamantes, pérolas, safiras, rubis e esmeraldas são exibidos ao longo dos séculos em diademas, coroas, colares, pulseiras, anéis, pregadeiras, brincos e punhos de espada, graças ao talento de artistas e artesãos prodigiosos. Os soberanos e as cortes reais e imperiais europeias dos séculos XVIII e XIX, seguidos
Diadema Manchester. Cartier Paris, 1903. Diamantes, prata, vidro. Créditos da imagem: ©Victoria and Albert Museum, London. Doação ao governo britânico, atribuída ao Victoria and Albert Museum, 2007. Colecção Victoria and Albert Museum, London, 1979. Cortesia Al Thani Collection, Paris.

pelos ricos da "Gilded Age", da Era Eduardiana e da Belle Époque, fizeram largo uso desses tesouros para brilhar, antes que a viragem do mundo redistribuísse essas pedras preciosas e jóias por outras mãos ou as transferisse para as vitrinas dos museus.
É à descoberta desta epopeia verdadeiramente espetacular que "Jóias Dinásticas" nos convida, a exposição homónima da qual o Centre des Monuments Nationaux (CMN), se orgulha de participar.
O evento oferece-nos a oportunidade de admirar as "Jóias Dinásticas" pela imensa qualidade e ambição desta exposição, que dialoga de forma poderosa com o cenário que a acolhe: o Hotel de la Marine. É de considerar também o Victoria & Albert Museum, que se associa a esta aventura com o comissariado de Emma Edwards e o empréstimo de cerca de sessenta jóias de dinastias russas, francesas e inglesas. É de apreciar os proprietários públicos e privados que aceitaram separar-se temporariamente de gemas raras e de joias para esta exposição.

Créditos da imagem:© The Al Thani Collection, 2018. All rights reserved. Fotografia: Prudence Cuming Associates Ltd. Colecção Al Thani Collection, Paris. Cortesia Al Thani Collection, Paris
Os visitantes do Hotel de la Marine podem admirar estas preciosidades de outros tempos, que nada perderam do seu poder de fascínio ao lado dos retratos das soberanas que as usaram..
A jóia, expressão intemporal de poder e prestígio, revela-se aqui também como um objecto íntimo, portador de sentimentos e mensageiro de favores reais. A exposição reúne jóias associadas ao reinado de figuras emblemáticas da história europeia, como as imperatrizes Catarina II da Rússia, Josefina, Maria Luísa da Áustria e a rainha Vitória.
A mostra conta com empréstimos excepcionais de instituições como a Royal Collection, graças à generosidade de Sua Majestade o rei Carlos III; os "Historic Royal Palaces", graças à generosidade do Duque de Fife; o "Musée National du Château de Compiègne"; o "Domaine National du Château de Fontainebleau";

o "Musée National d'Histoire Naturelle"; e o Musée de Minéralogie Mines, Paris; assim como as colecções patrimoniais da Cartier, Chaumet, Mellerio e Van Cleef & Arpels.
Pedras lendárias, diademas sumptuosos, alfinetes deslumbrantes e colares de aparato compõem uma linguagem faustosa — a das cortes reais — na qual cada gema revela o status, a linhagem e a autoridade do seu ilustre detentor.
Rita Rato: afinal era boa demais!

O afastamento de Rita Rato da direção do Museu do Aljube prova que nunca estamos bem quando... finalmente estamos bem.
Rita Rato fez um trabalho notável naquela casa de memórias; ao princípio, todos diziam, com as suas bocas cheias de certezas, que seria uma escolha errada. Mas ela foi em cheio, lavou a face da antiga prisão política e deu-lhe uma dignidade que poucos esperavam.
Agora, puseram-na na rua. Não interessa o partido onde ela gastou os dias como deputada; o que conta nesta história é o suor que deixou no solo do compromisso. E a qualidade! A taça transbordou, como se o champanhe do sucesso fosse um pecado.
Rita entregou o corpo ao trabalho e a colheita foi farta, e por isso o tempo dela acabou. É a velha história dos homens que não suportam ver uma vinha florescer, sob a mão de quem eles não escolheram. João S. Lima
É urgente passar-a-palavra
Moita Flores: Perdemos um homem bom

Mário Zambujal (1936-2020), natural de Moura, foi um proeminente jornalista e célebre escritor português. Com uma vasta e rica carreira, destacou-se profundamente na imprensa escrita, na televisão e na rádio. Trabalhou em redações marcantes como "A Bola" e "O Século", cultivando um estilo literário muito cativante. A sua prosa é inconfundível, sendo sempre caracterizada pelo humor, ironia e um olhar muito humano. Na bibliografia, o seu estrondoso sucesso de estreia foi a obra "Crónica dos Bons Malandros" (1980). Destacam-se também outros livros muito aclamados pelo público, como "Histórias do Fim da Rua" (1983).
ATÉ UM DIA, MARIO! Hoje, perdemos um homem bom. Um jornalista de primeira água. Um escritor de excelência. Éramos conterrâneos. Fomos vizinhos. Fomos amigos durante meio século.
Mário Zambujal era a sabedoria mansa. O humor inteligente. A caneta que fazia amor com as palavras. O amigo do sorriso definitivo.Hoje, perdemos um homem bom! É com mágoa que me despeço de ti. Até um dia, Mário! (trazido do Face de Moita Flores)

A Crónica dos Bons Malandros de Mário Zambujal
A "Crónica dos Bons Malandros" é a obra-prima inconfundível de Mário Zambujal. O livro conta a história de um bando de assaltantes lisboetas muito peculiares e algo trapalhões que decidem roubar a célebre coleção Lalique do Museu Calouste Gulbenkian.
A importância desta obra reside na sua capacidade de misturar o romance policial com uma sátira social brilhante e um humor tipicamente português. Zambujal captou como ninguém a gíria e a linguagem das ruas de Lisboa, humanizando os marginais e transformando-os em anti-heróis profundamente carismáticos. Publicado em 1980, o livro tornou-se um marco cultural incontornável.
Passar-a-Palavra
Margarida Davim: Adão e Eva
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente.


É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família.
E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza.
Acabam-se os disparates, que a conversa do "isto agora não se pode dizer nada" é só quando nos convém. Perdão.
Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante? (trazido para passar-a-palavra do Face de Margarida Davim)
Passar-a-Palavra
Mia Couto: a Literatura me salvou



Em cena há 74 anos em Londres
O mistério de "A Ratoeira"
Há um mistério sobre A Ratoeira, de Agatha Christie, em cena em Londres desde 1952. O segredo resiste ao tempo e ao esquecimento. Muitos dos atores que pisaram aquele palco já faleceram, mas a peça permanece imóvel, como uma armadilha eterna no West End.
O verdadeiro mistério é o pacto: no final de cada sessão, o público é intimado a guardar o silêncio sobre a identidade do assassino. É este ritual que mantém a peça viva, atravessando décadas e gerações.
Os intérpretes partem, mas a ratoeira continua armada, à espera de quem ainda não conhece a verdade. já ultrapassou as 25 mil representações. The Mousetrap St.Martin's Theatre Ela também é notória por seu final inesperado, que os espectadores ao fim de cada sessão são convidados a não revelar quando saírem dali.
A Ratoeira começou sua carreira como uma peça curta de rádio, transmitida em 30 de maio de 1947 pela BBC, com o nome de Three Blind Mice (Três Ratos Cegos) e é baseada num caso real, a morte de um menino de doze anos por maus tratos de seus tutores, numa fazenda da Inglaterra, em 1945. Christie escreveu um conto baseado na pequena peça radiofônica, que se transformou no embrião da peça teatral.
Ela pediu que o conto não fosse publicado enquanto a peça estivesse sendo representada no West End de Londres, - onde está até hoje - e assim ele é inédito na literatura da Dama do Crime na Grã-Bretanha, apesar de ter sido publicada nos Estados Unidos em 1950, num livro junto com outros pequenos contos, Three Blind Mice and Other Histories. Fora do West End, apenas uma versão da peça pode ser apresentada, uma vez por ano, e nenhum filme pode ser feito até seis meses depois que ela encerre suas apresentações. Seu nome original foi trocado para The Mousetrap, por insistência de uma autora inglesa que havia escrito uma peça de menor sucesso com o mesmo nome antes da Segunda Guerra Mundial.
A peça teve sua estréia mundial no Theatre Royal, em Nottingham, em 6 de outubro de 1952, dirigida por Peter Cotes, e dali fez uma turnê por Liverpool, Manchester, Birmingham e Newcastle, até começar a ser encenada em
Londres no dia 25 de Novembro do mesmo ano, no New Ambassadors Theatre, onde ficou em cartaz por quase 22 anos, até 23 de março de 1974.
Transferida na apresentação seguinte para o St. Martin's Theatre - onde está até hoje - manteve seu status de continuidade, e em 10 de abril de 2008 alcançou a marca de 23.074 apresentações.
O elenco original trazia Sir Richard Attenborough e, apesar do cenário ter sido trocado por duas vezes nas últimas décadas, ainda hoje, um grande relógio da sala do cenário original de 1952 permanece em cena. Atualmente, o elenco - que já teve a participação de 382 atores em sua história - é mudado uma vez por ano, no mês de novembro, e a atriz principal que deixa o papel e a nova que irá substitui-la, cortam juntas um bolo no meio do palco no final da peça, numa das tradições mais conhecidas do espetáculo.
Em 26 de novembro de 2002, a peça fez uma apresentação de gala, com a presença de Sua Majestade a Rainha Elizabeth II e do Duque de Edimburgo.
João Fazenda o ilustrador português do New Yorker na Casa da Imprensa
Num tempo em que as cores já não eram baças, mas a mão logo tratou de lhes dar a vibração da vida e a geometria do pensamento, João Fazenda já andava pela New Yorker.
O traço era nítido. A ideia era um golpe seco. Nascido em Lisboa, em 1979, ele não desenha apenas figuras; ele esculpe o vazio com a linha, povoando o silêncio de gentes que parecem feitas de música e de memória. O seu traço é como o mar na foz: ora límpido, ora revolto em formas que se dobram sobre si mesmas para encontrar o que está escondido atrás do rosto.
Nesta sua caminhada, o ilustrador apresenta agora a exposição "Contra-relógio – Ilustrações de Imprensa", patente na Casa da Imprensa em Lisboa até ao dia 7 de março de 2026. Ali, as suas frases visuais são curtas e certeiras. João já andava pela New Yorker com esse mesmo rigor. No Largo da Horta Seca, o seu trabalho demonstra como a tinta se torna opinião e o boneco política pura.



A obra ilumina o que é simples. Desenha a alma sem usar palavras.
Lago dos Cisnes de Kirov Ballet
A Nova VISÃO
de Margariuda Davim
Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários.

A meta de 200 mil euros foi atingida para permitir a compra do título em leilão.
Gaza volta a ser bomdardeada
Os palestinianos morrem de sede sob um céu de fogo, enquanto a água lhes é roubada pela mão de ferro que tudo boicota. É o horror puro: eles não têm pão, eles não têm combustível, eles não têm nada senão o pó da destruição. Em Telavive, vive-se o brilho fútil de uma cidade europeia; ali mesmo ao lado, na Faixa de Gaza, morre-se com a crueza do Sudão do Sul. Nós olhamos e nada fazemos.
Tu sentes o aperto na garganta perante este silêncio? Vós, que detendes o poder, permitis que eles sejam reduzidos ao nada. É inaceitável que uns habitem o conforto enquanto outros se finam na lama da miséria. A morte por sede é a mais lenta das demolições humanas. Raul B. Gomes
Menina carrega irmã em busca de auxilio
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
https://youtu.be/2oDByFG1jVk?si=L_eC60dKFGyYkYf8
A difícil arte do humor






China lidera 'ranking' mundial de universidades
https://youtu.be/Cs45UV_DUIw?si=nEhhAa2ikP32KHD_
https://youtu.be/qdlEqd30MYM?si=LIlQS5xZDiNbnjxX
https://youtu.be/m4AZcZKpf-s?si=3j6svEpH-EH__j9u
A China lidera agora o ranking mundial de universidades, consolidando a sua hegemonia no conhecimento e na inovação tecnológica. Aprender mandarim tornou-se essencial perante a ascensão da China a potência dominante e líder do comércio global.
Sendo a língua de negócios do futuro, o seu domínio oferece uma vantagem estratégica única no acesso a mercados e tecnologias de ponta. Mais do que comunicação, é a chave para compreender a nova ordem económica mundial. Investir neste idioma é garantir competitividade num mundo que gravita cada vez mais em torno de Pequim.
Natália Correia: Ó povo ergue-te da tua lama
Ocupados a ser / o que não somos, / deixamos de viver / por bons modos. / Morremos de asseio / e de respeito, / com um medo cheio / dentro do peito. / Ó povo de linho / e de silêncio, / que fazes do espinho / o teu incenso. / Ergue-te da lama / da tua calma. / E põe a chama / na tua alma. O

Este é o País que a dor inventa
Este é o país que a dor inventa. / Onde a luz é um punhal de mansidão. / E o povo que em silêncio se alimenta. / Do pão que amassa com a solidão. / Ó pátria de naufrágios e de lendas. / Onde o mar é o limite do desejo. / Abre as janelas, tira as tuas vendas. / E vê o sol no último bocejo. / Porque a vida é um fogo que se acende. / No peito de quem nunca se rende.
Sou um erro de Deus
Sou um erro de Deus. / Mas que erro divino / este de ser eu própria o meu destino. / Errei na conta dos dias e das horas. / Perdi-me em labirintos de auroras. / Busquei o que não tinha para dar. / E dei o que ninguém soube aceitar. / Sou um erro de cálculo da vida. / Uma estrada sem fim, mal decidida. / No entanto, neste erro que cometo. / Encontro o meu sentido mais completo. / Porque não há verdade que se meça. / Sem que antes um erro aconteça. / E se Deus errou quando me criou. / Foi para ver quão longe o erro voou.

Liberdade que és o meu tudo
Liberdade, que estás em mim, que em mim vives, que em mim cantas, que em mim choras, que em mim morres, que em mim surges, que em mim és.
Liberdade que és a minha vida, a minha morte, a minha glória, a minha dor, a minha alegria, a minha esperança, a minha desilusão.
Liberdade que és a minha solidão, a minha companhia, a minha força, a minha fraqueza, a minha coragem, o meu medo.
Liberdade que és a minha verdade, a minha mentira, a minha justiça, a minha injustiça, a minha paz, a minha guerra.
Liberdade que és a minha luz, a minha sombra, a minha alma, o meu corpo, o meu sangue, o meu pão.
Liberdade que és o meu céu, a minha terra, o meu mar, o meu sol, a minha lua, as minhas estrelas.
Liberdade que és o meu tudo, o meu nada, o meu sempre, o meu nunca, o meu sim, o meu não.
Liberdade que és eu, que és tu, que és todos, que és nenhum, que és a vida, que és a morte, que és a eternidade.u.

O que torna este poema especial?
A Noite como Refúgio: Ao contrário de muitos poetas que temem as trevas, Natália saúda a noite como uma "mãe" e uma "deusa". É no escuro que ela consegue tirar as máscaras sociais e enfrentar o "castelo" que é o seu próprio interior.
O Destino: Ela fala do "vácuo de um destino que não é o meu", uma expressão poderosa sobre a pressão que a sociedade exerce para que sejamos algo que não queremos ser.
A Entrega: É um poema de rendição espiritual. Natália, que era uma mulher de luta constante durante o dia, revela aqui a sua vulnerabilidade e a sua busca por paz.
Este poema mostra a Natália Correia "filósofa", que via na natureza e no cosmos as respostas que a política e a lógica não conseguiam dar.











