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Edição de botequim.pt Agosto de 2026, 4ª semana
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Os filhos de…
As famílias que governam Portugal (se governam dele) há séculos, estão cada vez mais sofisticadas e selectivas, por acção dos seus descendentes, predominantemente mulheres que as lideram com desmaiado distanciamento e colorida implacabilidade.

As famílias que governam Portugal (se governam dele) há séculos, estão cada vez mais sofisticadas e selectivas, por acção dos seus descendentes, predominantemente mulheres que as lideram com desmaiado distanciamento e colorida implacabilidade.
Natália Correia foi dos primeiros, entre nós, a chamar a atenção para esse fenómeno, o da ascensão do feminino ante o cansaço do masculino, antecipado pelo da desistência da esquerda em sê-lo (esquerda) e o ressurgimento (ocupa) da direita – até já há, entre nós, um Movimento Mulheres Conservadoras, apoiado pelo Chega, com ligações a cultos evangélicos .

Os filhos das classes dominantes estão a retirar cada vez mais espaço aos filhos das dos desfavorecidas, não por serem mais inteligentes e criativos, mas por deterem o controle da ascensão social, o que lhes assegura impunidades e privilégios crescentes.
Curiosamente, esses herdeiros comportam-se como se o herdado (em fortuna, realização, qualidade, prestígio) fosse conseguido por si, pela sua excepcionalidade, e o afirmam impondo-o, acreditando-o, sem reconhecerem que existem porque os antecessores existiram, sem eles não estariam nos lugares que, arrogantemente, ocupam.
Não há emprego para toda a vida dizem, justificando discriminações, os seus arautos, mas há estômago, há corpo.
O humanismo só não tem soçobrado porque continua a existir quem impõe partilha à usurpação, inteligência ao fanatismo, simplicidade à arrogância de castas, lóbis, capelas, instituições que em vez de fomentarem conhecimentos fomentam cartilhas, crendices, santinhos para cada usurpação, cada regime, insaciáveis em grilhetas e fogueiras, esbulhos e manipulações.
Perseguidos passam a perseguidores, torturados a torturadores, colonizados a colonizadores, tornando-se, por ascensões várias, verdugos do não sancionado por si fazendo outros sofrer, multiplicado, o que eles padeceram.

O empobrecimento das massas trabalhadoras, com ordenados a não permitirem sobreviver, debilita-as tragicamente. Só outras formas de retribuição, de distribuição poderão impedir apocalipses no futuro.
Futuro que pode ser diferente se ultrapassados comportamentos aviltantes, tabus retrógrados. Controlada, a Inteligência Artificial pode revelar-se meio deslimitado de avanços científicos, económicos, culturais, sociais. Vencidos os cancros, os vírus, os transplantes, as doenças mentais, atingiremos esperanças de vida na ordem dos 120 anos, limite de renovação das células humanas.
Essa realidade de vida (a vir?) trará novas mentalidades e novos herdeiros dos bens dela, vida, cujos netos os delapidarão rapidamente, como sempre - "maneira da natureza os distribuir por outros, num socialismo finalmente humanista", provocava, mais uma vez, Natália Correia.
Só a lucidez nos pode preservar do abuso dos poderes, poderes que não se encontram nas mãos dos que produzem o conhecimento, mas nas dos que manipulam os que produzem o conhecimento. Fernando Dacosta
Robots humanóides
dão espectáculo
Turquia em colisão com Isra3l
Almerindo Lessa
"Quanto mais comemos menos filhos fazemos"

"A idade cronológica de uma pessoa não tem nada a ver com a sua idade biológica. Ninguém soma os anos do bilhete de identidade. Não possuímos a mesma idade em todo o corpo, as minhas mãos, o meu baço, as minhas pernas não têm a mesma duração.
"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta
"Fomos programados para viver 120 anos, nascemos com uma estrutura genética que o afirma. A partir do momento em que um espermatozóide penetra num óvulo fica marcada a evolução do novo ser, a idade em que vai ter o primeiro cabelo branco, a primeira úlcera de estômago, a data em que vai morrer.
É um verdadeiro programa de computador que só se altera porque os vírus o invadem. O limite dos 120 anos é dado pelo tempo em que as células se renovam. Algo nos impede, ainda, de o atingirmos ... um acidente, uma doença, um sofrimento, uma angústia, um desgosto de amor.
O corpo humano sofre transformações em cada 300 mil anos, foi assim que chegamos à forma actual. No futuro iremos conhecer novas alterações, não precisaremos de dois pulmões, dois rins, intestinos tão extensos, cores de pele tão marcantes, sexos tão definidos. Se não surgirem doenças, o envelhecer não desmotiva, só por si, o cérebro, apenas lhe retira rapidez.
"Os desgostos de amor continuam, ao contrário do que se diz, a matar-nos. Somos, aliás, um país sentimentalmente roxo, a cor do ciúme, um povo de desdobramento dos sentimentos. A maior parte de nós tem um amor a que se dedica sensualmente e outro a que se dedica espiritualmente, que quase nunca coincidem. Apesar de divididos, é-nos muito agudo o sentido da posse, tornamo-nos capazes de comer com beijos os objectos amados. Se, porém, não nos sentirmos retribuídos podemos falecer de angústia. A pior coisa para nós é a falta de felicidade.
Por isso os idosos choram muito, emocionam-se muito, sofrem muitíssimo com a ausência de carinho e com o isolamento. Os quintos andares estão cheios de velhos esquecidos, Lisboa é um terceiro mundo ao domicílio. A sua solidão, o seu abandono são por vezes totais.
Sentem-se seres despedidos, despedidos pela sociedade e pela família, sente-se inaproveitados, desarticulados, rejeitados, desintegrados economicamente, politicamente, eroticamente. Dizer que os idosos não amam, não necessitam de afagos é uma enormidade. O amor existe em todas as idades.
"Portugal, com cerca de l 4 por cento da população acima dos 65 anos, faz já parte do chamado clube dos velhos, o que podia ser um factor de riqueza se os encarassemos de maneira diferente, como fazem outras civilizações, até porque se envelhece-se mais devagar. A Terceira Idade principia aos 75 anos, ganhou-se já uma década.
"Das três grandes explosões ocorridas na humanidade, a marxista, a atómica e a demográfica, é a demográfica que vai alterar toda a nossa vida. A Europa será, dentro de escassos anos, dominada pelo quarto mundo, um mundo composto por três gigantescas maiorias: a dos séniores activos, a dos desempregados compulsivos e a dos imigrantes de África e Ásia.
A união delas constituirá o maior fenómeno sociológico, cultural, político, económico de sempre. As pressões que exercerão mudarão profundamente as estruturas existentes de trabalho, lazer, produtividade, saúde, convívio, transporte, urbanismo, previdência, assistência.
"O controlo da natalidade tornou-se, consequentemente, um problema cada vez mais premente. Só se pode, porém, lutar contra ele alimentando eficazmente as pessoas. Daí dizer-se que qunto mais comemos menos filhos fazemos. Quando há falta de determinadas proteínas, as hormonas sexuais não são queimadas pelo fígado o que provoca grande excitação ... um dos processos de aumentar, por exemplo, a fecundidade dos porcos e das galinhas é pô-los em regime de sub-nutrição.
"Dar comida, agasalho, habitação, trabalho, assistência a todos os que existem, e aos que não param de nascer, implica sacrifício da natureza, das águas, das árvores, da atmosfera, do clima. As florestas precedem as pessoas, os desertos acompanham–nas, avisava Chateaubriand.
"O homem é um poluidor por condição. As hecatombes ocorridas são consequência da sua natalidade incontrolável. A natalidade baixou entre nós porque subimos socialmente (a pílula ajudou), ao evoluir-se evita-se procriar. Os descendentes dos imigrantes que nos procuram hoje vão passar, amanhã, pelo mesmo, até pelas dificuldades, pela insegurança que crescerão. As pessoas não se sentem dignificadas, não vêem reconhecida a sua experiência de vida, preciosíssima licenciatura que em vez de ser utilizada é depreciada.
"Os responsáveis não mostram, porém, disponibilidade para estes problemas, limitados como estão nos seus cargos, nas suas redomas, nas suas filosofias mercantilistas e imediatistas. Julgam que tudo se resolve com dinheiro, com produtividade. Ora o nosso maior problema não é esse, é o da desumanização, o do desequilíbrio da ecologia, como a do envelhecimento. É incompreensível que não tenhamos uma ecologia do envelhecimento".
Biografia
Nascido no Porto a 31 de Agosto de 1909, doutorado em Medicina naquela cidade e em Ciências de Gerontologia na Universidade de Toulouse, Almerindo Lessa tornou-se um especialista de projecção internacional, pelo seu pioneirismo, nas áreas a que a que se dedicou, com ligações especiais às universidades de Évora e de Brasília.
Entre as suas obras, destacam-se os ensaios "O Homem Cabo-Verdeano", "Um Médico, o seu Mundo e os seus Fantasmas" e "Anthroposociologie de Macau".
Faleceu em Lisboa a 11 de Abril de 1995.
Oiça neste Verão



foto e cartoons publicados por Carlos Fino no Face


ESTOU PRENHO: Quando começo a escrever um romance é sempre assim.
As ideias empanturram-me a cabeça. Tenho a sorte da minha fúria para escrever, chegar tranquila às minhas mãos.
Enquanto pesquiso e faço o plano do livro estou calmo com a curiosidade a motivar-me. Porém, quando começo a escrever, estoira dentro de mim um vulcão expelindo ideias como se fossem magma, atropelo-me, e escrevo com tal intensidade que passo dez a dozes horas por dia a trabalhar, a emendar, a jogar fora páginas, recomeçando letras e palavras em turbilhão, como se fosse um furacão.
Chego à noite com dores nas costas. Como é próprio das grávidas.
Enigma persiste:
Amadeo Souza-Cardoso
em sotãos americanos
O Salto do Coelho era um dos quadros mais procurados de Amadeo Souza-Cardoso e foi comprado pelo Art Institute of Chicago de Chicago. Mais de cem anos após a morte do pintor circulam rumores sobre paradeiros desconhecidos dos seus quadros.
Variações e estudos menores enviados para a digressão de Boston e Chicago mantêm lacunas completas de proveniência, alimentando até hoje o mito das telas perdidas em sótãos e coleções anónimas americanas.
A história de Amadeo Souza-Cardoso na América começa no Armory Show de 1913 (a mítica International Exhibition of Modern Art em Nova Iorque, Chicago e Boston) que foi a grande montra internacional de Amadeo de Souza-Cardoso.

O Salto do Coelho foi pintado em 1911, mede 50 cm de altura por 61,3 cm de largura.A pintura pertence ao Art Institute of Chicago de Chicago
Amadeo foi um dos artistas mais bem-sucedidos do evento, vendendo sete das oito pinturas que levou aos Estados Unidos. No entanto, essa consagração deu início a um dos maiores mistérios da arte moderna portuguesa: o rasto perdido de várias dessas obras.
O Sucesso e a Dispersão Imediata
Amadeo participou a convite de Walter Pach com oito obras modernistas (incluindo composições com lebres, caçadores e naturezas-mortas cúbicas/futuristas).
Entre os compradores encontravam-se grandes pioneiros do colecionismo moderno americano, como Arthur Jerome Eddy e John Quinn. Com a morte precoce de Amadeo (1918) e o falecimento posterior destes primeiros compradores
nos anos 1920, as suas coleções foram a leilão e dispersaram-se pelo mercado privado norte-americano sem registos fotográficos detalhados da época.
O Enigma do "Saut du Lapin"
A Tela Mais Cobiçada: A pintura a óleo "Saut du Lapin" (O Salto do Coelho, c. 1912-1913) e outras composições cubistas de caça estiveram dadas como paradeiro desconhecido durante quase um século.

Durante décadas, historiadores de arte portugueses (como José-Augusto França) e equipas da Fundação Calouste Gulbenkian tentaram cruzar os números de catálogo do Armory Show com leilões em Nova Iorque, Chicago e Filadélfia.
A obra Saut du Lapin e o óleo Château-Fort acabaram por ser localizados décadas depois em coleções privadas nos EUA (como no Art Institute of Chicago e coleções particulares), sendo mais tarde exibidos em retrospetivas internacionais.
Menina pede ajuda na estrada
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
Trump nos holofotes dos cartoonistas





Planeta em emergência climática
Natália Correia: à vida breve não perguntes

De Amor nada Mais Resta que um Outubro
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia, in "Poesia Completa"
O Espírito
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.
Natália Correia, in "Poesia Completa"


0 mundo lisboeta de Natália Correia
Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias. Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.





