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Edição de botequim.pt abrange semana de 03 a 12 de Agosto de 2026

Quando os portugueses conquistaram Ceuta
A invasão migratória de Ceuta surpreendeu a opinião pública, desconhecedora da sua história - que enraíza no passado português.
A conquista de Ceuta foi decidida por D. João I, apoiado pela pequena nobreza e pelos filhos segundos dela, que desejaram obter terras e cargos fora do território nacional, a que se juntou a necessidade de libertar as rotas comerciais do Mediterrâneo controladas por Castela e por corsários norte-africanos que as saqueavam constantemente

Nesse sentido, o príncipe D. Pedro partiu em 1412 para a zona a fim de recolher informações sobre a defesa de Ceuta. Em 1414, em Torres Vedras, na presença dos representantes das Ordens Militares, resolve conquistá-la.
D. João I, o príncipe herdeiro D. Duarte e os infantes D. Henrique e D. Pedro levantam o luto pela morte da Rainha D. Filipa de Lancastre e, a 25 de Julho de 1415, partem para o Mediterrâneo numa frota composta por 18 mil homens e duas centenas de embarcações. O monarca capitaneava as galés e o infante D. Pedro as naus. Seguiam ainda com eles D. Henrique e D. Nuno Álvares Pereira. A viagem, curta mas fustigada pelo mar, prossegue até à baia de Ceuta.

A operação organiza-se com dificuldade. A moral dos embarcados ressente-se. Muitos pensam desistir. Os muçulmanos tentam atacar a frota mas esta encontra-se longe do seu alcance. Alguns portugueses vão a terra travando diversas escaramuças.
D. João resolve atacar a cidade por mar. D. Henrique avança sobre Almira, enquanto o monarca se posta com os seus navios ao largo. Na manhã de 21 de Agosto dá-se o desembarque, algo desordenado.
Após reencontros na praia, D. Henrique e D. Duarte, com cerca de meio milhar de homens, avançam sobre Ceuta aproveitando a fraqueza do inimigo. Dão-se duros combates nas ruas de Ceuta. Ao fim do dia a cidade estava dominada e conquistada.
D. João desembarca-lhe e recolhe-se a uma mesquita. Os infantes D. Pedro e D. Henrique reúnem-se com os membros do Conselho
e decidem conquistar na madrugada seguinte, o castelo que havia sido abandonado por Salh ben Salah, o governador. Os invasores tomam-no e hasteiam a bandeira de São Vicente. Durante a noite as tropas saqueiam a cidade, actos que Zurara atribui aos militares de mais baixa condição.
D. João I manda emissários a Castela e Aragão a fim de revelarem que os portugueses a haviam "conquistado para a cristandade".

A mesquita-maior é transformada em igreja onde o monarca arma os seus filhos cavaleiros. Discute-se se se deve manter ou não Ceuta. Alguns dizem que ela está muito longe do reino, o que tornava especialmente dispendiosa a sua manutenção. A maioria da nobreza, apoiada pelo clero, apoia, no entanto, a sua manutenção.
A escolha do governador revelou-se caótica. O condestável D. Nuno Alvares Pereira recusou sê-lo argumentando a idade avançada; o marechal Gonçalo Vasques Coutinho teve a mesma atitude; Martim Afonso de Mello achou o lugar mais perigoso que proveitoso. Finalmente D. Pedro de Meneses aceitou o cargo, o que dilatou o prestígio da sua linhagem. O regresso da família- real e da maior parte dos combatentes dá-se a 2 de Setembro.

Ceuta, que marcou o início da expansão portuguesa, tornar-se-ia uma fonte de prejuízos para o nosso País. Na sequência do movimento de 1640 (recuperação da independência), Lisboa entregou, depois de 225 anos de permanência, Ceuta a Espanha.
Em 1553 nela morreu o jovem D. António de Noronha a quem Camões dedicaria os sonetos amorosos mais sublimes da poesia portuguesa. A cidade manteve sempre na sua bandeira o escudo de armas de Portugal.
CEUTA voltará a acontecer
Se não houver desenvolvimento económico periférico à Europa, em benefício também da economia europeia
O fluxo migratório repentino de Ceuta está carregado de suspeitas e revelou graves fracturas sobre os caminhos para o futuro da Europa. Neste cenário apenas com os patriotas a acirrem ódios, Ceuta poderá voltar a acontecer em breve.
No passado, os portugueses conquistaram e assassinaram milhares de pessoas em Ceuta, a 17 de Agosto de 1415. Íamos à procura de riquezas. Desta vez, foram marroquinos a lançarem-se sobre a sua cidade. Supostamente à procura de uma vida melhor, mas não mataram ninguém. Morreram eles, sim, 88.
As populações à volta da Europa não têm trabalho, são muito jovens. e não vislubram futuro aos pés de um continente rico e arrogante.
Os patriotas europeus têm defendido muros mais altos na Europa e a utilização de armas para travar as ondas migratórias, que as teorias da conspiração dizem ser geradas por interesses americanos em corroer a coesão europeia, para aprisionar economicamente os europeus.
Convém lembrar que a génese da actual Europa recua aos longos séculos do Império Romano, construído à volta do mar Mediterrâneo, com o vibrante apoio da cidade de Cartago, no norte de África.
Mas Europa de hoje está mais a Norte e a Ocidente e empapada em ondas de ódio propagadas pelo Facebook, Instagram, Whatsapp e Google. Estas empresas são controladas por 3 grandes grupos norte -americanos transversais a toda a economia mundial, com exclusão da China: a BlackRock, a Vanguard Group e a State Street. Os rostos
destes terríveis cavalos de Tróia são Mark Zuckerberg e Elan Musk, apontados como financiadores da AdF alemã, do Reform na Grã-Bretanha e do Vox espanhol.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os americanos têm ensaiado vários "Planos Marshall" em benefício da sua própria sustentabilidade económica, baseada na indústria das armas. E são apontados como "a mão por trás de arbustos", como a Guerra nos Balcãs ou a desastrosa Primavera Árabe.

A Europa tem de construir com urgência o seu Facebook, Google, Hollywood, Iphone, IA e mais, à semelhança do que fez com a criação da Airbus para nos livrarmos dos cowboys que dizimaram milhões de indíos e ameaçam a existência de uma Europa federal de nações livres, esclarecidas, democratas (em rigor) e solidárias.
Se a Europa não trabalhar no desenvolvimento das zonas periféricas, dando sentido de vida e bem-estar aos povos (que já matou milhares), Ceuta voltará a acontecer. E em breve. JLB

O negócio de empatar as guerras
Mais do que vitórias ou derrotas, as guerras actuais ambicionam, como se observa, empates, isto é prolongamentos indefinidos

Os seus deves e haveres - como os das políticas, das ideologias, das subculturas que as sustentam (às guerras) - sobrepõem-se sem pudores a patriotismos e causas afins, desprezando solidariedades, dignidades, decências.Economistas dizem que as suas traficâncias se tornaram mais lucrativas do que as da droga, as da saúde, as da migração, as do futebol, etc.

Cada vez mais desvalorizado, o ser humano foi feito pelos donos do mundo um produto coisificado, sem vida própria, sem afirmação individual, que o extraordinário desenvolvimento tecnológico tem refinado.
A visão da guerra e dos militares, aprimorada pela mecanização dela (drones, robôs, artefactos nucleares) e despersonalização deles (carne barata para canhões e
imolações) arrazou códigos, desrespeitou acordos, frustou entendimentos sob, como é habitual, mantos de terrores, de chantagens, de caos.
A sobrevivência da humanidade é posta em causa insinuando-se que quem disparar o primeiro engenho atómico não viverá cinco minutos mais, nem a humanidade com ele.

Projecções de apocalipses intensificam-se, as fugas ao controle pelas agências reguladoras tornam-se preocupantes, atmosferas de pré-fim rolam, pressionam trocas de bem estar por bem matar - bem enriquecer os que mandam matar.
"O objectivo é a guerra sem fim, não a guerra bem sucedida", adverte o martirizado Julian Assange, "é desviar dinheiro dos contribuintes e canalizá-lo de volta para mãos de uma elite transaccional".
O verdadeiro campo de batalha não está no território onde se desenrola, mas nos mercados financeiros onde se expande.
Há quem lembre terem sido as guerras sempre, sempre grandes e desavergonhados negócios!
Oiça neste Verão



foto e cartoons publicados por Carlos Fino no Face
NATÁLIA CORREIA
"Uma nova inquisição enegrecerá o século XXI"
"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta
"Os contentinhos desta democracia estão a destrui-la. Democratas de aviário tomaram conta do país e não perceberam que ela, democracia, é um ponto de partida, não de chegada, uma fase para novos saltos em frente. Não um pretexto para corrupções, ambições, impunidades, sob a protecção dos partidos do centrão que dominam o País como outrora o dominou a União Nacional.
"Vêm aí tempos tenebrosos, de recuo civilizacional. Uma nova inquisição enegrecerá as primeiras décadas do século XXI, e eu não quero assistir-lhe, já não estarei cá! Por pressão dos mercados iremos ser dominados pelo gosto mais rasteiro do público, futebol, telenovelas, literatura light, música pop, passagens de modas, tudo açucarado, tudo servido como cultura, como modernidade. Os gostos da burguesia, do proletariado e de uma certa intelectualidade confundem-se cada vez mais num plebeísmo degradante rumo a precipícios em que vão, vamos cair todos juntos.

"Nunca ninguém me controlou! Nem antes nem depois do 25 de Abril, que totalitaristas existem em todos os regimes, e opositores a eles também. Mas não sou nenhuma dessas vítimas profissionais do fascismo e da PIDE...repugna-me, aliás, que se cobre pelas opções feitas, fazem-se, assumem-se, pronto! A longa noite do fascismo não foi para mim nenhuma longa noite porque não deixei que o fosse, pessoalmente até me diverti bastante nela... As pessoas que pertencem ao mundo da cultura resistem a deixar-se deformar, por isso é que ela (cultura) é tão combatida, tão iludida por todos os poderes.
"Repugna-me a violência dos opressores e a resignação dos oprimidos, não suporto a maneira como mães e educadoras inculcam nas filhas a aceitação do seu papel de parideiras de proles e de serventias de lares, afincadas formatadoras de gloriosos filhos machistas.

"Um dos grandes fenómenos do futuro vai ser o do cansaço do homem e a perda do desejo sexual. Disfunções crescentes crispam-no levando-o a agredir em vez de amar; a violência doméstica, o bulling, o assédio, a impotência, a híper-musculação tornam-se expressões de masculinidades apavoradas. O homem, cansado de fingir que é homem, caminha para sagitário: metade pessoa, metade máquina.
"Produto desvalorizado pelo excesso, o homem só deixará de ser um desperdício, uma coisa, se escassear. A maioria dos nascidos hoje não encontrará amanhã emprego decente, nem independência, nem habitação, nem comida, nem família, nem cultura, nem lazer". Metade dos jovens não conseguirá emprego digno, não será financiadora da segurança social, como se apregoa, mas financiada por ela, o que se escamoteia. Aliás é imoral querer que a segurança social seja sustentada pelos impostos dos trabalhadores, quando tem de ser pelos orçamentos dos estados.
"Quem lucra com o excesso populacional são os grupos dominadores das sociedades, não são as sociedades. A produtividade depende cada vez mais da sofisticação tecnológica e cada vez menos do esforço humano. Portugal foi

grande quando tinha 3 milhões de habitantes. Como não tem capacidade para mais de seis milhões entrou, durante séculos, de exportá-los como mercadoria, através de vergonhosas emigrações.
"A fecundidade de uma pessoa, de um povo não está já no reproduzir-se, está no que melhora nos outros, no que faz evoluir nos outros – e isso so se consegue pelo amor seja ele de que natureza for. Daí a urgência em impormos a sua libertação, em tirá-lo do jugo das igrejas, dos estados, das seitas, das instituições que arvoram o direito de meter-se na cama das pessoas.

"Tenho perdido o melhor do meu tempo com seres que execram o que os liberta e exaltam o que os enche de imundície. Há cada vez mais pessoas a viver bem no mal e mal no bem. Quase nada vale a pena mesmo que a alma não seja pequena. Só a alma grande é capaz de escolher o muito pouco que vale ainda a pena, o amor, a liberdade, a criatividade. Prefiro desaparecer a submeter-me".
Fernando Dacosta
Biografia
Nascida em Ponta Delgada, nos Açores, em 1923, Natália Correia é, pela ousadia das suas ideias, um dos maiores pensadores do século XX português.

Corajosa lutadora péla liberdade, antes e depois do 25 de Abril, foi péla poesia, pelo romance, pelo teatro, pelo ensaio, pelo jornalismo, pela pintura, pela intervenção cívica que afirmou uma presença única entre nós. Entre as suas obras de referência destacam-se "Não percas a rosa", "O Encoberto", "O Vinho e a Lira", "Armistício", "Sonetos Românticos". Defendendo uma cultura vivenciada, liderou o Botequim, histórico bar onde se decidiu muito do Portugal democrático. Morreu em Lisboa, em 1993.
"ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta
Recordar a actriz Laura Alves
Ó Rosa Arredonda a Saia
Os últimos anos de Laura Alves são marcados pela solidão. Enclausura-se em casa entre retratos a óleo, velhas fotos e muitos prémios. Após a demolição do Teatro Monumental é encontrada - por diversas vezes, nos primeiros meses de 1984 - a deambular de madrugada, recitado partes das suas peças nos escombros do palco... que pisou com grande glória

A maior actriz portuguesa de comédia e de teatro de revista do século XX morria, há quarenta anos, em Lisboa. Na última noite, acamada e delirante, canta "Oh Rosa Arredonda a Saia". No velório e funeral comparecem dezenas de milhares de pessoas. O público jamais a esqueceu: Laura Alves.
Ao longo da vida ela tornara-se uma referência no imaginário popular. Pequena e luminosa, clássica e moderna, serena e angustiada. Nascida em 1922, em Lisboa, no seio de uma família de fracos recursos, teve desde cedo interesse pelo teatro que descobriu em récitas escolares e logo tomou para si, fascinando o público.
Um dia o pintor Armando Lucena convidou o encenador Luís Ferreira para assistir a uma dessas récitas. Dois dias depois era chamada para prestar provas no Teatro Politeama.
Estreou-se com grande êxito, já como profissional, em 1934, aos 12 anos, na peça "As Duas Garotas de Paris", ao lado de João Villaret, Álvaro Benamor e Fernanda Coimbra.
Ingressada na Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro participou em dois espectáculos, um deles, "Riquezas de sua Avó", ao lado de Palmira Bastos, Maria Clementina e Maria Lalande. O espectáculo foi ensaiado por Palmira Bastos. A sua interpretação foi tão brilhante que era constantemente interrompida por aplausos. Amélia Rey Colaço recordava-a dizendo que "foi um dos maiores talentos que passaram pela minha companhia".
Em 1941 integra a revista "Lisboa 1900" onde interpreta o papel de uma exuberante empregada doméstica. A sua comunicabilidade e talento afirmam-na definitivamente no
teatro de revista. A crítica compara-a a grandes actrizes – como Pepa Ruiz, Ângela Pinto e Adelina Abranches.As salas enchem-se, Laura Alves acumula triunfos, caso do "Zé do Telhado", o "Jogo do Diabo", a "Patuscada" e "Estás na Luta", ao lado de Amália Rodrigues, então em início de carreira.
Aos 25 anos, Laura Alves afirma-se em absoluto na revista "Tá Bem ou Não Tá". Passa a ter os seus próprios e fiéis espectadores que, aliás, não param de crescer. Enche salas. Os êxitos sucedem-se. No cinema marca "O Pai Tirano".
Entre 1952 e 1982 torna-se o sustentáculo da Companhia Vasco Morgado, salvando a empresa da bancarrota. Laura Alves ganha milhões (é a mais bem paga actriz portuguesa de todos os tempos) mas tudo é investido no teatro. O público passa a trocar o Parque Mayer pelo Teatro Monumental.
No "Homem que veio para jantar", a actriz desempenha o papel de Bette Davis no cinema, o mesmo acontecendo em "A Rainha do Ferro-Velho", sendo as suas interpretações, segundo a crítica, "muito superiores" às da vedeta norte-americana.
Laura Alves vivia para o teatro, não do teatro. O seu dia-a-dia era discreto: orava perto do Largo de Saldanha, no primeiro andar de um prédio comum, casa acolhedora mas longe de ser residência de uma estrela. Recebe convites frequentes para ser cabeça de cartaz no Folies Bergéres de Paris. Desafiam-na a interpretar "My Fair Lady", "Mamme" e "Sweet Charity" - que recusa.
Nos anos 60 interpreta "Meu Amor é Traiçoeiro" de Vasco Mendonça Alves. O êxito é lendário: 24 meses em cena e tournées pelo Brasil, então raras, Espanha e colónias portuguesas de África.
Com "A Idiota", "O Comprador de Horas", "A Mulher do Roupão", Laura Alves impõe no acanhado meio lisboeta as grandes comédias europeias. Em "Um Zero à Esquerda", tem o seu último (e polémico) grande êxito.
Os últimos anos de Laura Alves são marcados pela solidão e pela doença. Enclausura-se em casa entre retratos a óleo, velhas fotos e muitos prémios. Resta-lhe como companhia Maria Cândida, antiga costureira de teatro.
O falecimento de Vasco Morgado, a destruição do Monumental, a crispação do pós 25 de Abril esmagam-na. Foi encontrada, por diversas vezes, a deambular sozinha, de madrugada, recitando extractos de peças, nos escombros do Monumental.

Sócrates: temos um homem
a caminho de ser mártir
O arrastamento do processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, há mais de uma década, deixou de ser um caso de aplicação da justiça para se transformar num espetáculo inaceitável.

Assiste-se a um cenário incompreensível: jornalistas a exiberem o acesso direto a documentos trancados a sete chaves num cofre-forte da justiça
Estas fugas de informação cirúrgicas e sistemáticas revelam uma conivência perigosa entre elementos do aparelho judicial e a comunicação social, transformando o segredo de justiça numa comédia.
Ao ser alvo desta máquina de trituração, José Sócrates começa, inevitavelmente, a erguer-se como um mártir da justiça portuguesa.
A forma como têm sido atropelado ao longo dos anos, faz de José Sócrates, símbolo dos injustiçados. Um espelho desconfortável do sistema judicial.
Para quem ainda acredita na história dos 35 milhões, vale lembrar que um Berardo (nos seus 990 milhões de dívida confessada da Fundação na Assembleia da República) seria o equivalente a 28 Sócrates. Se algum dia forem provadas as acusações contra o "menino de ouro" do PS. jrr
Receber para casar
em Agosto
Os portugueses são o povo europeu que mais casa no mês de Agosto, devido ao subsídio de férias que então recebe. Cerca de noventa por cento fá-lo em regime de comunhão de adquiridos.
António Brás
Por idênticas razões (o décimo terceiro mês) Dezembro fica em segundo lugar. Em último costuma pertencer a Novembro.
O ritual do casamento continua a ser entre nós uma afirmação, para os que o protagonizam, de estatuto (público) de virilidade ou feminilidade, manto para todo o tipo de infidelidades, violências domésticas e posteriores divórcios, divórcios em explosão crescente – tem havido anos em que se separam mais pessoas do que se juntam.
A maioria dos ex-conjuges considera-o (ao divórcio), que costuma suceder ao quinto ano de comunhão, como "a verdadeira libertação" da sua vida. A idade da boda subiu, por seu lado, fixando-se actualmente nos 26 anos para os homens e nos 24 para as mulheres. Portugal continua, aliás, a ser um país onde o casamento é tardio e o celibato elevado.
As mulheres solteiras e as viúvas predominam no território sobre os homens em idêntica situação.Em termos de custos um casamento sofrível é umbicho de obra. Desde a saída dos editais até à entrada na lua de mel, a sua concretização implica um sorvedouro de dinheiro, de solicitações, de exigências, de rituais. Complexas máquinas de negócios
funcionam à sua volta, vorazes, irresistíveis,, a que todos se submetem e, frequentemente, se empenham.
O que que se agrava para jovens sem recursos familiares, a viverem de contratos a prazo, em sub-tarefas com vencimentos miseráveis e pós formações ludibriadoras. O elevador social é um engodo, um fracasso, como os cursos tirados, as especializações conseguidas, as promessas de velhacaria e manipulação
Para muitos, o casamento tornou-se, em termos pessoais, o único acto de referência que protagonizam na vida.
Para ser digno, não linear, ambicionam-no único, grandioso, sagrado. Daí encherem-no de festejos, de exoberâncias, de ilusões – de frustrações.
A felicidade amorosa é tão subtil que é preciso acreditá-la, garanti-la pela presença de sacerdotes, de padrinhos, de testemunhas, de notários, de alianças, de juras. Sem esses resguardos a distância entre paixões e ódios torna-se, frequentemente, mínima, abrindo violências, desistências, fugas, suicídios.
Nenhuma imagem mostra tudo
Num presente marcado pela circulação incessante de imagens e pela ilusão de que tudo pode ser tornado imediatamente visível, importa recuperar o enquadramento como operação crítica.Ver não é aceder ao todo: é entrar num campo delimitado por escolhas; o que se mostra, o que se omite, o que se aproxima, o que se afasta. É nesse território que percebemos que o visível não existe sem o invisível que o sustém, o limita e lhe dá forma.

Nenhuma imagem mostra tudo. Toda a imagem é um recorte. Enquadrar é escolher, e escolher é já interpretar. O invisível não é o que nada significa, mas aquilo que a imagem deixa de fora para construir a sua própria clareza. A tradição renascentista fixou esta ideia ao pensar a pintura como uma "janela": não a duplicação integral do mundo, mas uma forma enquadrada de o tornar visível.

Las Meninas, 1659. Diego Velázquez. (Museu do Prado, Madrid)
A pintura organiza um campo de visão complexo em que o espelho, ao refletir as majestades, introduz no interior da imagem aquilo que está, simultaneamente, fora dela
Por isso, o enquadramento não deve ser entendido como simples moldura exterior ou detalhe técnico. É uma operação de autoria e de mediação. Define um dentro e um fora, estabelece relações, produz hierarquias e atribui centralidade. O enquadramento não limita apenas a imagem: organiza a sua inteligibilidade. Ao isolar elementos, cria relação; ao interromper formas familiares, transforma-as em fragmento; ao fixar um limite, começa a desenhar a geometria do sentido.
A história da arte mostra-o com clareza. Um fragmento retirado de um conjunto maior pode passar a ser lido como obra autónoma; uma borda visível pode denunciar cortes, perdas ou deslocações de contexto. O enquadramento nunca é inocente: pode preservar, mas também reenquadrar; pode proteger, mas também alterar a forma como a obra passa a ser entendida. O que fica de fora não desaparece sem resto — permanece como contexto suprimido, memória latente ou ausência ativa.

Rua Parisiense - Dia Chuvoso, 1877. Gustave Caillebotte. (Instituto de Arte de Chicago)
O corte das margens e a colocação das personagens fazem-nos sentir que o campo visível é apenas uma parcela de uma realidade mais ampla, que funde com o espectador
Na fotografia, esta condição torna-se particularmente evidente. Enquadrar é selecionar uma fatia do mundo através de um limite. O que entra no campo determina a leitura; o que fica para lá da margem continua, muitas vezes, a atuar por inferência.
Um corpo cortado, um objeto interrompido ou um fundo reduzido não impedem a compreensão — podem até intensificá-la, concentrando a atenção e tornando a afirmação visual mais concisa. O essencial é isto: a imagem não reproduz simplesmente o visível; constrói um regime de leitura.
Mas esta lógica não pertence apenas à fotografia. Também no design o enquadramento é uma forma de pensamento. A página, o cartaz, a capa ou a composição tipográfica não são superfícies neutras: são campos de seleção, de corte e de orientação do olhar. Uma letra fragmentada pode continuar legível; uma forma interrompida pode ativar reconhecimento; uma palavra encostada à margem pode ganhar tensão. O que não se mostra por inteiro deixa de ser falta e torna-se recurso expressivo. A exclusão participa, assim, na construção do sentido.
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Mãe Migrante, 1936. Dorothea Lange
Mostra que o enquadramento dispensa a acumulação de sinais de pobreza, porque o rosto da mãe concentra a dureza da condição vivida
Ver bem é mais do que identificar o que está diante dos olhos. É reconhecer que toda a imagem resulta de uma escolha. A literacia visual começa quando deixamos de perguntar apenas "o que vejo?" e passamos a interrogar "porque vejo isto assim?", "que recorte tornou esta forma possível?", "o que foi necessário excluir para que estes elementos ganhassem evidência?". O visível não se esgota no que aparece: organiza-se também a partir do que foi omitido, subtraído ou deixado para lá da margem.
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Nazaré, Portugal, 1955. Henri Cartier-2Bresson.
Cartier-Bresson faz do enquadramento uma forma de condensação visual: a praia é naturalmente vasta, mas o olhar recebe-a como espaço saturado
Na cultura visual, enquadrar é sempre mais do que delimitar. É decidir. É ordenar. É atribuir relevância. E essa operação não pertence apenas às imagens. Também na vida escolhemos, recortamos, aproximamos, afastamos, deixamos entrar e deixamos de fora. Num tempo marcado pela exposição contínua, pela urgência da resposta e pela pressão para tornar tudo imediatamente visível, talvez importe lembrar que nenhuma clareza nasce sem limite e que nenhum sentido se organiza sem escolha.
O que parece apenas delimitar é o que verdadeiramente permite ver, compreender e habitar o mundo.



AUMENTO DOS COMBUSTÍVEIS E A MINHA REVOLTA:A idade e a vida domesticaram o meu espírito revolucionário. Hoje, desiludido com aquilo que a política nos oferece, cansado de escutar medíocres e gente vulgar que são líderes de capelas partidárias, cansado da demagogia barata, do populismo sebosos, vivo em abstenção.
Não os vejo, não os escuto, numa manifestação militante de mudar de canal de televisão cada vez que um deles aparece. Porém, no fundo das minhas forças dei por mim a vibrar com um grito de revolta. Os combustíveis vão aumentar, outra vez, na abertura desta semana. AUMENTAR! Neste momento, o barril de petróleo está ao preço de antes da guerra de Trump contra o Irão. Em vez baixar, as empresas aumentam os preços com a cumplicidade do Governo e dos partidos da Oposição.
Silêncio absoluto. Compromisso com as grandes empresas petrolíferas, sem compaixão pelos consumidores. É infame! Um insulto a quem trabalha!
O Comando

Não, não se trata de um comando militar, de um qualquer poderoso comando político, empresarial, banqueiro ou dos media, em que pivots armados com um microfone e uma câmara, verdadeiras armas de arremesso, entram na nossa casa, acolitados por uma legião de apresentadores, moderadores, observadores, politólogos, analistas, comentadores,

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constitucionalistas, sempre os mesmos, ao longo dos anos, eficientes censores sem lápis azul, hábeis manipuladores, que, em vez da mordaça, criam à volta do telespetador um ruído e uma confusão tais de desinformação e de contrainformação, que acaba por não compreender nada do que se passa, a não ser futebol, peregrinações, telenovelas, reality shows, faits-divers de bairro, ad nauseam, para infantilizaçãodas mentes; manchetes inflamadas, descontextualizadas, sem haver lugar a desmentido ou
ao contraditório. A par de outras formas de censura, subtis, mas não menos eficazes: ignorar opiniões contrárias; institucionalizar o delito de opinião; impor o pensamento único do "politicamente correto;" criminalizar o uso de determinadas palavras ou expressões."Estamos em guerra, numa guerra entre sistemas de informação e manipulação dos
relatos, desinformação e propaganda," como adverte Rafael Dávila Álvarez. Vivemos num regime capturado
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pelos poderes político, académico, woke, religioso, económico, financeiro! E ai de quem não pactuar!
E, no entanto, contra tudo isto, dispõe o indefeso telespetador de uma arma poderosíssima, que não passa de um pequeno objeto, o comando do televisor, com o qual, ao mudar de canal, expulsa de sua casa reis, presidentes da república, papas, banqueiros e toda a casta de gente importante que se vem instalar no seu doce lar sem lhe pedir licença.
Com o seu comando, pode o telespetador determinar a vida ou a morte dos canais televisivos: é que, sem audiências, não há publicidade; sem publicidade, não há receitas; sem receitas, as televisões fecham as portas. Eis o seu enorme poder, que lhe é conferido por este pequeno objeto.

Miguel Sousa Tavares
"Ursula von der Leyen
apoia genocídio em Gaza"
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Menina carrega irmã
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
Líbano na mira de Isra3l
futebol no mundo dos cartoonistas





Natália Correia: o país das jotas mudas





0 mundo lisboeta de Natália Correia
Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa".
Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.


"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias.
Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.











