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Edição botequim.pt de 25 de Abril a 30 de Abril de 2026, com actualizações diárias
Poesia, Liberdade e Democracia,
a receita de Alegre
Alegre pôs o dedo na ferida, precisamos de poesia para vencer os ditadores de hoje. Em vez de armas, eles usam a sedução das palavras demagógicas para minar a liberdade por dentro.
O 25 de Abril foi o começo dessa liberdade, coisa igual a qualquer país da Europa ocidental. Pode ter sido mais, mas a mudança para um sistema do Estado Democrático de Direito foi, por si, muito importante.
Em 1974 já não era possível criar mais desenvolvimento económico, Portugal estava isolado mesmo nas relações comerciais. E a guerra nas colónias foi feita à custa de 10 mil jovens mortos, forçados a serem soldados em terras de África.
Morria-se para defender os interesses dos grupos económicos portugueses, que já tinham sido negreiros. Só viver nas colónias com "carta de chamada". Não existiam "redes", nem canais de TV a cores, nem auto-estradas e muitas vezes nem sequer frigorifico.
As únicas falas permitidas eram sobre futebol. Mas o Benfica tinha de ser encarnado, porque dizer vermelho dava direito a noite passada nos calabouços da PIDE, polícia política. Manuel Alegre veio alertar para a perversão da linguagem, onde a mentira e o ódio contaminam a palavra até a tornar estéril.
Restaurar a poesia é descontaminar a imaginação e impedir que nos voltem a ditar o que podemos ou não escrever. Alegre reivindica a palavra como instrumento único, para resistir à mentira e ao novo autoritarismo que teme o poder da criação livre. jrr


A desilusão com o regresso dos caciques e dos predadores

Eu estava lá. No dia em que nos libertámos do pesadelo e sonhámos. Deitámo-nos com um País que mal sabia ler, que trabalhava de sol a sol. Um País pelintra, excluído, longe de tudo. Com fome. Com mordaça e vestido de luto.
Que possuía um Império com meias rotas e roupagens de vagabundo. E presos e exilados. Que partia para a beterraba em França ou na Suíça. Vestido de xailes negros e lágrimas de quem partia para a guerra.Acordámos, nesse dia, sobressaltados com o rugido do sonho. Um sonho vivo, feito de chaimites, de soldadinhos e capitães, um povo em brasa que gritava por um destino. Um sonho que garantia o fim da guerra, a chegada dos livros, a multiplicação dos pães e das escolas, da alegria trocada pelo velho cansaço.
Um sonho que nos empurrava para a Liberdade.Foi de tal modo grande que, meio século depois, ainda ressoa na memória daqueles que o viveram. Agora celebra—se um indiscutível paradoxo. Recordamos o sonho, que em boa parte se realizou, mas o tempo indomável foi corroendo o próprio tempo.
Como sempre – foi sempre assim! – devagarinho, usando as palavras sagradas desse tempo, os caciques recomeçaram a instalar-se. Esgravatando os trigais da esperança, oferecendo joio por pão. A mediocridade tornou a vencer. Agora com vestes de democratas.
Ilustres e luzidios ignorantes que tomaram o lugar dos sonhos mais generosos. A revolução que obrigava a trabalho e estudo, substituída pelo vazio das palavras apressadas e sem sentido.Evocamos o 25 de Abril, esse sonho demasiado generoso, entorpecidos pela rotina, essa arma fabulosa que derrota qualquer caminhada de utopias.
Embora habitados pela enorme desilusão com o regresso dos caciques e dos predadores, os cravos dessa madrugada terão murchado, mas não morreram. Porque os sonhos não morrem.Eu estava lá. E sei. Naqueles dias construímos o maior legado que poderemos deixar aos nossos filhos e netos: o caminho doce da Liberdade!



Trump ganha World Press 2026

A vencedora da World Press Photo of the Year de 2026 é a fotógrafa norte-americana Carol Guzy, com a imagem intitulada Separated By ICE, captada a 26 de agosto de 2025 no edifício federal Jacob K. Javits, em Nova Iorque. A fotografia regista o momento angustiante em que Luis, um migrante equatoriano, é detido por agentes da imigração após uma audiência em tribunal, enquanto as suas filhas se agarram a ele desesperadas. Entre os vencedores e finalistas deste ano, que contou com mais de 57 mil fotografias de 141 países, destacam-se também Saber Nuraldin, que captou palestinianos a cercarem um camião de ajuda em Gaza, e Victor J. Blue, que retratou as mulheres indígenas Maya Achi na Guatemala após vencerem uma batalha legal de 40 anos. O prémio reforça a importância do testemunho visual em zonas onde a história acontece, muitas vezes, sem outras testemunhas, premiando imagens que denunciam políticas sistémicas e celebram a resiliência humana.
Carol Guzy já ganhou 4 Pulitzers

Carol Guzy é uma das fotojornalistas mais respeitadas do mundo, sendo a primeira profissional a conquistar quatro Prémios Pulitzer. Antiga enfermeira, transpôs essa sensibilidade humanitária para a lente, focando-se no sofrimento e na resiliência em cenários de crise ao serviço do The Miami Herald e do The Washington Post. Os seus Pulitzers, atribuídos entre 1986 e 2011, documentam eventos históricos como a erupção do vulcão Nevado del Ruiz, a crise no Kosovo e o sismo devastador no Haiti. Atualmente a trabalhar para a ZUMA Press, Carol continua a ser uma voz visual indispensável na denúncia de injustiças sociais.
Em 2026, o seu legado foi novamente consagrado ao vencer o World Press Photo of the Year com a imagem Separated By ICE. A fotografia regista a detenção de um pai migrante perante o desespero das filhas em Nova Iorque, servindo de testemunho cru sobre a dureza das políticas de imigração. A sua carreira é marcada por uma empatia profunda, provando que o fotojornalismo é uma ferramenta vital para dar visibilidade aos esquecidos da história.

América contra a América
.Ruy de Carvalho, o actor mais idoso do mundo, 99 anos
aguenta 'ratoeira' de 3 horas


Foi um acontecimento extraordinário! Ruy de Carvalho, aos 99 anos, subiu aos palcos com a peça "A Ratoeira" no Coliseu Porto, que foi muito longa.
O encenador Paulo Sousa Costa não teve em conta que 3 horas de espectáculo é um excesso para o público, uma tormenta para os actores e foi um risco enorme para a saúde de Ruy de Carvalho Este regresso acontece após um período de recuperação do ator, que sofreu um AVC em dezembro de 2025.
A Ratoeira é um clássico de Agatha Christie.
Ruy de Carvalho interpretou o papel de Major Metcalf. A escolha desta peça permitiu ao ator estar presente em momentos-chave sem grande exigência física. Houve, no entanto, 2 extensos momentos em que Ruy de Carvalho permaneceu isolado e calado do lado direito do palco. Ruy de Carvalho deveria ter ficado sempre no centro do palco.
O alvo não era A Ratoeira, mas Ruy de Carvalho. Em vez de se moldar a peça ao actor mais velho do mundo, imitou-se o que acontece há 73 anos todas as noites em Londres. É importante frisar, Ruy de Carvalho tem 99 anos de vida e 79 de actor. O Coliseu do Porto esgotou, mas em rigor foi para vermos este homem extraordinário. Os olhos de todos os espectadores estavam nele. E só nele. jrr
O ator nasceu a 1 de março de 1927, em Lisboa, e fez 99 anos em março deste ano. É oficialmente o ator mais idoso do mundo ainda em atividade.
Batota à vista na América
Apostar em Trump
na empresa de apostas de... Trump!


O filho de Trump lançou a rede de apostas Truth Predict, para lucrar com os atos do próprio pai. É o auge da política dos sem-vergonha. Enquanto esta elite transforma o Estado num casino, a América mantém 25 milhões de pessoas sem casa, abandonadas à própria sorte.
Esta promiscuidade ganhou rosto com Gannon Ken Van Dyke, libertado na Carolina do Norte. Dyke é acusado de usar segredos sobre o rapto de Maduro para lucrar no Polymarket. Os ganhos foram tão precisos que chamaram a atenção pública logo após o raid à Venezuela.
O Congresso investiga agora apostas "proféticas" sobre a guerra com o Irão e decisões de Trump. O governo apoia este mercado enquanto o filho do presidente é conselheiro e acionista das plataformas.
Com a Truth Social a lançar o seu próprio sítio de apostas, o ciclo fecha-se: a política externa virou ficha de jogo numa mesa onde a família Trump dá as cartas e recolhe o lucro.


Quando Portugal entrou na Grande Guerra, esta já não era o conflito bélico com que todos os rapazes sonhavam, convencidos de que "estariam de volta a casa pelo Natal, cobertos de poeira e de glória." Era também a guerra do senhor Afonso Costa, travada em França para, assegurava ele, defender as colónias de África. Caso Portugal não participasse no conflito, poderia ver o seu império ultramarino repartido pelas potências vencedoras.
A guerra não declarada, em África, tinha absorvido milhares de soldados que agora era necessário substituir rapidamente para enviar para França. Com a sua preparação, o Governo gastou o vultuoso empréstimo de dois milhões de libras concedido pela Grã-Bretanha para compra de trigo, como contrapartida para o aprisionamento dos setenta e dois navios alemães ancorados no Tejo.

Mas o tão propalado "milagre de Tancos" limitara-se a enviar os homens para a frente de combate carenciados de tudo: de fardamento apropriado para o frio insuportável das trincheiras, geladas e enlameadas, com temperaturas que chegavam aos vinte graus negativos; de calçado adaptado à lama e ao frio insuportável, tendo chegado ao ponto de cada um remendar as suas botas; de armamento moderno; mesmo, de instrução, tiveram de ser os ingleses a enquadrá-los, a treiná-los, a armá-los e a alimentá-los com a carne enlatada que os estômagos dos soldados portugueses toleravam a custo.

Face à derrota do CEP – por falta de meios para a sua preparação e para a sua manutenção na linha da frente, que o Estado lhe não forneceu, como, mais tarde, aconteceria também em África, e à grave crise social e económica que graçava no país provocada pela guerra onde Portugal não tinha necessidade de entrar e que dividira os portugueses, que apoiavam a guerra em África, mas eram contra a intervenção de Portugal em França –, deu-se início à mitificação da batalha de La Lys para fazer esquecer o desastre militar, coroado como uma segunda Alcácer Quibir envolta em glória.
La Lys encerrou o ciclo de derrotas portuguesas na Grande Guerra iniciado em Naulila, em 1914, num inóspito lugarejo do Sul de Angola, onde ocorreu
"Muita porrada, muita porrada, muita porrada," segundo o testemunho do Soba da Douga, que se deveu à pouca gente e ao pouco armamento de que dispunha o tenete-coronel Roçadas, não obstante os seus insistentes pedidos para que lhe fossem disponibilizados mais meios, que o ministro da guerra, general Pereira d'Eça, recusou enviar-lhos.
Os mesmos pedidos, também desatendidos por Salazar, viriam a ocorrer na queda de Timor e da Índia.A participação de Portugal na Grande Guerra não passou, pois, de uma batalha da longa Guerra Colonial, travada na Europa, longe do território de qualquer das suas colónias.
A Guerra Civil espanhola foi um conflito em que o Estado Novo se viu envolvido, também na defesa do seu império colonial africano.

A vitória da Falange, além de ter garantido a continuidade do Estado Novo e de ter salvado Portugal de um regime comunista, foi igualmente fundamental para assegurar a manutenção do Império colonial português em África, como corrobora Maria José Tiscar: "Sem o auxílio do regime de Franco, Portugal teria tido maiores dificuldades em manter durante tantos anos a sua presença nos teatros de operações africanos."
O apoio de Franco a Salazar, concedido no maior secretismo, revestiu, igualmente, a vertente diplomática, em especial a defesa de Portugal nas Nações Unidas, não obstante o Caudilho adotar uma posição pública de apoio à autodeterminação das colónias portuguesas para satisfazer as pretensões do mundo árabe e dos países latino-americanos; na vertente propriamente militar da Guerra Colonial, foi essencial através do fornecimento de armamento espanhol e da intermediação da Espanha na aquisição de material bélico em países terceiros que se recusavam a vendê-lo diretamente a Portugal.

A Guerra Civil espanhola foi igualmente uma batalha da Guerra Colonial travada na Península Ibérica, fora do território de qualquer das colónias africanas e asiáticas, tal como o Corpo Expedicionário Português combateu em França em defesa de Angola e de Moçambique para frustrar a sua partilha pelas potências beligerantes, na sequência do tratado secreto celebrado entre a Inglaterra e a Alemanha.
O Estado Novo e o Império acabaram, finalmente, por escorar-se um no outro: Salazar conservava as colónias, estas asseguravam a sua manutenção no poder.
Se a Grande Guerra havia de ditar a queda da Primeira República, a Guerra Colonial, quarenta anos depois, ditaria igualmente a queda do Estado Novo.
Edição botequim.pt de 17 de Abril a 22 de Abril de 2026, com actualizações diárias
Editorial
Conservar a sardinha
A relação com o passado tem-nos sido uma obsessão ao longo de séculos, ora exultando-o, ora denegrindo-o, o que bloqueia a criação,

Ao ser, um dia, abordado por jovens em campanha contra o colonialismo e o racismo, os descobrimentos e as obras que os glorificam, Agostinho da Silva, não disfarçando a ironia, atalhou não lhes subscrever os propósitos pois nunca quis deitar abaixo os Jerónimos, a Torre de Belém, o Padrão dos Descobrimentos, nem censurar Camões, Padre António Vieira,
Fernando Pessoa. Era, aliás, "um conservador da nossa história", só que "conservava a sardinha, não a lata. A lata é para vocês". E desandou.As estratégias de infantilização e auto-flagelação em curso, insufladas pelo correcto nos comportamentos, fomentam preconceitos contra a idade, o passado, a memória, profundamente nefastos à nossa afirmação.
A sociedade portuguesa está a ser, com efeito, fatiada em ricos e pobres, esquerdas e direitas, jovens e velhos, empregados e desempregados, públicos e privados, internacionalistas e nacionalistas, fenómeno acentuado a partir da década de oitenta do século XX, pelo cair das utopias revolucionárias, o subir da ostentação do dinheiro e do poder, a marginalização da cultura (especialmente da literatura, apesar do Nobel de Saramago), o menosprezo pela lisura, pelo trabalho, pela competência.
Quase sem motivos disparam-se hostilidades , os outros são tornados inimigos, sobretudo se diferentes, o egoísmo faz-se intransigência, a insegurança violência, os poderes perdem ética, as corrupções legalizam-se, a demagogia institucionaliza-se.Ao provocar-se a desmemória, ou a culpa por ela, ao cobrarem-se vinganças por feitos de outros (de que as gerações
posteriores não são responsáveis) abrem-se energias desagregadoras do futuro.
A relação com o passado tem-nos sido uma obsessão ao longo de séculos, ora exultando-o, ora denegrindo-o, o que bloqueia a criação, por exemplo, de um museu celebrante, não tanto dos Descobrimentos como pretendem alguns, mas sim das Navegações como defendem outros, entre os quais Agostinho da Silva, Natália Correia, Jorge de Sena, António José Saraiva, António Quadros, Miguel Torga.
Foram, na verdade, elas, navegações - como acto superior de cultura (de ciência, de engenho, de coragem, de tecnologia) - que universalizaram para sempre Portugal. Um pequeno país de milhão e meio de habitantes, a maioria analfabeta e pobre, ousou meter-se ao desconhecido e, desatando os fios do futuro, mudar o mundo.
Ao perceberem que os romanos, depois de haverem colonizado a Ibéria, de terem construído estradas, imposto leis, alterado quotidianos, eram incapazes de avançar pelo Atlântico, os habitantes desse pequeno país lançaram estradas, outras, sobre a água, ou seja naus e caravelas que os levaram para lá do conhecido inventando, supremo prodígio!, a navegação contra o vento (à bolina, com ajuda dos árabes que a praticavam nos seus rios), maneira de percorrer todas as distâncias marítimas, o que fizeram em poucas décadas, num dos feitos mais notáveis da humanidade.
As navegações não devem ser fundidas nos colonialismos, esclavagismos, pilhagens, matanças, conversões religiosas. A história não é só a dos vencedores e vencidos, dos maus e bons, é também, e acima de tudo, a dos retirados dela, por ela, sem notícia, os que, colonizadores, subiram a civilizadores. Por isso tantos dos outrora submetidos por Portugal procuram agora refúgio nele.
Se queremos caminhar para o futuro temos, advertia Natália Correia, de atravessar o passado e compreende-lo antes de julgá-lo.
Volta a trás Lei da autodeterminação da sua identidade de género
Políticos transformam opções sexuais em tema... político
Não se percebe por que razão pilas e coisas assim hão-de ser preocupação para os políticos do CDS, PSD e Chega, que agora se empenham em revogar a Lei da Autodeterminação da Identidade de Género. É uma náusea que se instala: a fixação de homens públicos pelos órgãos biológicos alheios, como se a existência fosse uma propriedade da carne que se pudesse arrumar em gavetas administrativas. Eles olham para o corpo como uma pedra fria, ignorando que o ser humano é uma liberdade que se constrói a cada instante.
É insuportável ver a lei tentar tocar na consciência. Estes projetos do Chega, PSD e CDS são como objetos mortos que pretendem ditar o pulsar da vida, reduzindo a dignidade a uma explicação ideológica. O mundo das razões que eles invocam não é o da existência. A existência é gratuita; cada um é responsável pelo seu próprio rosto.
Quando a política se transforma numa inspeção de genitais em vez de uma garantia de liberdade, tudo começa a flutuar no absurdo. É a náusea total: a Política a querer ser o dona da alma, enquanto se perde no labirinto de uma biologia que já não serve para explicar a grandeza de estar vivo. Jorge L. Santos
Os defensores da revogação da Lei da Autodeterminação da Identidade de Género centram os seus argumentos na proteção de menores, defendendo que decisões irreversíveis não devem ser tomadas sem diagnósticos clínicos prévios e acompanhamento médico rigoroso. Alegam que a despatologização total pode precipitar transições precoces e defendem o reforço do papel e autoridade dos pais nestes processos escolares e sociais.
Em oposição, quem apoia a manutenção da lei argumenta que esta garante a dignidade e os direitos humanos fundamentais das pessoas trans e não-binárias, combatendo o estigma e a marginalização. Para estes, a autodeterminação é essencial para a saúde mental e bem-estar, evitando processos burocráticos humilhantes e assegurando que as escolas sejam espaços seguros e inclusivos, onde a identidade de cada um é respeitada.
A Lei n.º 38/2018 estabelece o direito de cada pessoa à autodeterminação da sua identidade de género e expressão de género, bem como à proteção das suas características sexuais.
Como é a actual lei
O ponto mais importante é permitir que qualquer cidadão maior de idade possa alterar o seu nome e sexo no registo civil através de um procedimento administrativo simples, baseado apenas na vontade do indivíduo, eliminando a necessidade de diagnósticos médicos ou relatórios de patologia mental.
Além disso, a lei proíbe intervenções cirúrgicas ou tratamentos em crianças intersexo até que estas tenham idade para decidir sobre a sua própria identidade.
Ventura mente
o que diz a lei
A Lei da Autodeterminação da Identidade de Género em Portugal gera confusão porque as regras mudam conforme a idade.
No Registo Civil (Mudança de nome e sexo no cartão de cidadão)
Menores de 16 anos: Não podem mudar o sexo no registo civil. A lei atual só permite esta alteração a partir dos 16 anos.
Entre os 16 e os 18 anos: Já podem solicitar a mudança, mas não decidem sozinhos. Precisam obrigatoriamente do consentimento dos pais (ou representantes legais) e de um relatório médico que confirme a sua capacidade de decisão, sem qualquer diagnóstico de doença mental.
No cinema City
A 30 de Abril estreia DAMAS de Cláudia Alves

Damas acompanha um grupo de mulheres que se reúne diariamente num jardim de Lisboa para jogar damas, transformando o tabuleiro num espaço de resistência e partilha. Através dos seus gestos e conversas, o filme revela as histórias de vida, as solidões e as alegrias de uma geração que encontra no jogo um antídoto para a invisibilidade.
Cláudia Alves é uma realizadora de olhar atento à identidade e memória coletiva. No filme Damas, captura a essência da amizade e da resistência feminina através de um grupo de mulheres que partilha a vida em torno de um jogo de cartas.
A sua abordagem é humanista e despretensiosa. Dá voz a gerações muitas vezes invisibilizadas. O seu trabalho destaca-se por uma estética que honra a tradição oral portuguesa. É uma cineasta que utiliza o cinema como uma ferramenta de empatia e preservação cultural. A sua direção em Damas prova que o grande cinema pode nascer da simplicidade dos gestos.

Aljubarrota
Mais fácil vencer Castela
do que Kristina

A zona da batalha de Aljubarrota, referência histórica, identitária do País – nela foi, ao serem derrotadas as hostes castelhanas, reconquistada a nossa independência – não resistiu aos recentes temporais, sendo uma das áreas mais atingidas por eles.
O município que a integra, Porto de Mós, reportou prejuízos de mais de 15 milhões de euros, 11 dos quais no seu precioso património, caso do Centro de Interpretação da Batalha, tendo o Governo declarado o local como situação de calamidade.Dizem que outrora, além do vento, também o mar chegava a Porto de Mós, daí terem-lhe posto o nome de Porto a que juntaram a palavra Mós, por se fabricarem na zona mós de excepcional qualidade para moinhos de vento e água.

Foi no seu território que se encontraram nas vésperas da batalha de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1385, D. João I e D. Nuno Álvares Pereira.Numa ala do castelo, o Rei e o Condestável ultimaram tácticas de combate a usar contra o invasor que, entrado pelo nordeste, descia para sul, rumo a Lisboa, com o objectivo de tomar a coroa portuguesa. Nuno Álvares escolheu para passar, com as suas hostes, os dois últimos dias, sábado e domingo, na vila. Gostava dela, da sua ondulação, da sua suavidade.
Orou longamente mas não descansou. Com um grupo de cavaleiros percorreu as redondezas a fim de localizar o local para o confronto. Situou-o em São
Jorge, a 10 quilómetros da vila e a 12 da povoação de Aljubarrota. Entre colinas, o terreno estreitava-se aí, inclinado, o que ajudaria a jugular a passagem dos agressores.

Devidamente armadilhado (com fossos e covas) permitir-lhe-ia, através da técnica do semiquadrado, que adoptara e adaptara, lançar ondas sucessivas de ataque, de perturbação (a luta chegou a desdobrar-se por dois planos) aos inimigos, três vezes superiores que os seus.
A astúcia resultou em pleno. Cerca de meia hora foi suficiente para decidir o resultado que, pela segunda vez na nossa História, rubricou a independência de Portugal face a Castela - a única das nações hispanas a consegui-lo até hoje.
Tanto D. João II como Nuno Álvares Pereira quiseram assinalar no local o acontecimento. O primeiro edificou o grandioso Mosteiro da Batalha, o segundo a modesta ermida de São Jorge.
Grupos escultóricos de lanças apontadas obliquamente para cima (as forças espanholas assentavam na acção dos cavaleiros, as portuguesas na dos peões) levantam-se na área da mítica refrega, que eternizam ante o passar do tempo e da memória.
Será que vencer (agora) o Kristina é mais difícil do que vencer (outrora) os espanhóis? perguntam, ironizando, locais agastados com a demora na reconstrução das suas vidas. E questionam: Seriam os portugueses de então mais expeditos do que os actuais?

Zuckerberg quer destruir as Democracias
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Henrique Prior: médicos e jornalistas mortos em Gaza


Workers of world

300.000 pessoas nas ruas de Roma, contra o genocídio na Palestina e a guerra no Irã. No meio da cidade, na rodovia da cidade. Jovens e velhos juntos, animados, barulhentos e determinados.Um protesto também contra o governo Meloni e todos os governos que estão saqueando o mundo com guerras para impor os interesses do capital global.Obrigada Roma, te amo muito
Educação. Já saiu um número especial da Workers of the World sobre educação, que coordenei, tem artigos de Roberto Leher Roberto Valdés Puentes, entre outros. Esta revista académica é editada pela Associação Internacional de estudos das greves e dos conflitos sociais. A edição é do João Carlos. E a tradução da entrevista que realizámos a Carlos Fernandez Liria em inglês pelo António Simões Do Paço.

A informação é poder. Sempre foi. Foi por o perceberem que os sumérios desenvolveram a escrita, para codificar o que era importante. E é por isso que durante séculos os saberes da leitura estiveram reservados a uma elite reduzida em quase todas as partes do mundo.


Ainda assim, talvez nunca tenha existido um momento na História da Humanidade em que a concentração de riqueza e poder tecnológico estivesse nas mãos de um número tão reduzido de pessoas. Segundo a Oxfam, em 2026 os 12 mais ricos do mundo, com Elon Musk à cabeça, têm mais riqueza do que metade da Humanidade junta.E é por isso que tenho a certeza de que a verdadeira revolução será analógica.
Não a do deslumbramento acéfalo da tecnologia, mas também não a do ludismo em luta contra as máquinas. A revolução de que falo é aquela que nascerá da resistência do saber e do pensamento.
Aquela que virá da consciência profunda do que é ser humano e da urgência absoluta de lutar por isso, da resistência ao poder de poucos e da construção de um mundo mais justo e melhor, que, sim, ainda é possível. O analógico é o novo punk.

Conheci-o, um dia, no Palácio de Belém, onde estive a convite do presidente Mário Soares, por ocasião de um evento celebratório não sei de quê. Um acaso feliz juntou-nos aos dois na varanda do salão, e aí estivemos brevemente à conversa. Maia já então era para mim um ser único, que eu considerava como o grande herói contemporâneo do país.
Heróis houve outros, não muitos nem iguais a ele. Maia foi o único que não teve, ou não quis ter, consciência disso. Os heróis não se fazem por medida nossa. Desprendido de glórias, simples como nós, nunca fez por chamar a si as luzes nem os louros com que outros se pavoneiam.
Pessoalmente, tal e qual a ideia que eu dele fazia. O físico sólido, a voz, os olhos, as mãos nos bolsos, os ombros fortes, o corpo mais para o baixo. Queixou-se de estar a ser rebaixado no quartel – onde, disse-me, já só faltava mandarem-no varrer a parada e recolher o lixo.
Às tantas, Soares chegou-se a nós, e ele voltou à carga: «Falta prenderem-me, tudo o resto já eles fizeram de mim.» E então o presidente levantou para ele um dedo avisado e sério. «Alto aí, meu amigo! Antes de o prenderem a si, terão de me prender a mim primeiro, ouviu?» (in «Novas Fases da Lua", 2025, pág. 129, Publicações Dom Quixote)

Salgueiro Maia de braços abertos, entre entre tanques prontos a disparar,. pede rendição da força militar da contra revolução. Coragem!

O melhor que sei fazer.. é sonhar
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer



"Dói-te alguma coisa?-Dói-me a vida, doutor.(...) -E o que fazes quando te assaltam essas dores?-O melhor que sei fazer, excelência.-E o que é?-É sonhar."

o caríssimo antónio espírito santo foi desencantar nos arquivos da RTP uma mão cheia de minutos mudos sobre a ruidosa estreia da fita 'Bonança & Ca.', no esplendor do Odeon em 1969.
o filme diz-se perdido. ou melhor, ainda consegui traçar-lhe o enredo por um cinematógrafo ambulante que teve as bobines envoltas numa tela branco-sujo e deu a ver o portento país fora.
depois perdi o rasto da bonança, da companhia e do feirante. andamos de cavalo para burro à procura do filme vai para 60 anos. pessoalmente não tenho muitas, mas dou alvíssaras a quem lhe saiba do paradeiro. e deixo a foto do nosso momento de passadeira vermelha, eu e o irmão fernandinho, ele já dado ao petisco...
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https://arquivos.rtp.pt/cont.../estreia-do-filme-bonanca-ca/

Cartoonistas americanos 'olho' em Trump






Santuário para Rafeiros
no Alentejo

O Tango já está num santuário, para passar os seus últimos tempos neste mundo em liberdade, junto de pessoas e com outros amigos. O Tango é um cão com bastante idade, viveu muito tempo em canil, connosco apesar de ter algumas saídas diárias vivia preso a maior parte do dia.
E o Tango é um cão de planícies a perder de vista, não merecia morrer num canil. Já algum tempo estava previsto ele ir fazer parte do Monte dos Vagabundos - Santuário Animal e o Tango adaptou-se muito bem aos novos amigos. O Tango serás agora super feliz Tango. E já tem o seu buraquinho reservado, tanto que ele gosta de fazer buracos e deitar-se neles
link facebook.com/rafeiritosdoalentejo/posts/há-2-semanas-fomos-levar-o-nosso-querido-tango-para-um-santuário-para-passar-os-/1330348399130736/
Barco-Atelier de Monet volta a Quai d'Órsay
Entrei no Museu d'Orsay para ver a "novidade", o "Barco-Atelier" de Claude Monet. Os objetos deveriam ser úteis, arrumados na sua função de "arte". Mas este Monet toca-me. É insuportável. Sinto as pinceladas da água como se fossem bichos vivos que me fitam do centro da sala.
Olho para a massa de tinta de Monet, para aquele empastamento que esteve escondido décadas, e sinto o mesmo enjoo doce que me invadiu à beira-mar. É uma náusea nas mãos. A existência do "Barco-Atelier" desvendou-se de repente, perdeu o seu aspeto inofensivo de "impressionismo" ou de "categoria histórica": era a própria massa das coisas, uma abundância obscena de azuis e verdes que não pede licença para ser.
Os críticos falam de luz e de reflexos; mas esse é o mundo das explicações, e ele nada tem a ver com a existência bruta daquela tela de Monet.

O museu é gratuito. Paris, lá fora, é gratuita. E eu próprio, parado perante aquela existência pesada, sinto o coração revirar-se. Tudo começa a flutuar na consciência de que nada, nem mesmo aquele barco pintado, tem uma razão para me balancear. . João P. Saragoça
Santo Agostinho preciosidade em Lisboa
No Museu das Janelas Verdes repousa o Santo Agostinho de Piero della Francesca, figura de uma solenidade tão geométrica que parece talhada por um compasso divino. Esta têmpera sobre madeira de choupo, nascida entre 1454 e 1469, é o vestígio de um mundo onde a beleza se media pela exatidão e a luz era uma forma de inteligência.
Piero, o mestre de SanSepolcro que via o universo como um conjunto de volumes perfeitos, trouxe para este painel a calma das manhãs da Toscânia. Ele, que foi tanto pintor como matemático, autor do tratado De Prospectiva Pingendi, não pintava apenas santos; organizava o espaço com o rigor de um arquiteto e a alma de um místico.
Na mitra e no pluvial, o detalhe das joias não é um mero adorno de luxo, mas uma celebração da luz que incide sobre a matéria, revelando a mão de quem dominava a ciência da perspetiva como nenhum outro no seu século.João S. Lima
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O humor não tem preço




A nova VISÃO
Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários.

Menina carrega irmã em busca de auxilio
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
Gaza prisão a céu aberto
China tem o maior porto do mundo
https://youtu.be/qdlEqd30MYM?si=LIlQS5xZDiNbnjxX
Mimicat de volta

Natália Coreia
o medo espreita no fundo das escadas
Queixa das Almas Juntas
Diz-me que me amas. Diz-me que me amas se as chamas do dia são cinza e as horas dão frio. Diz-me que me amas quando a solidão tem dentes e a noite nos olha.
Diz-me que me amas quando o medo espreita no fundo das escadas e no oco das portas. Diz-me que me amas quando a vida nos cansa e a alma nos dói.
Diz-me que me amas. Se o mundo nos esquece e a morte nos chama. Diz-me que me amas porque o amor é o fogo que o nada não apaga.
Sobre o poema
Este poema, embora pareça uma súplica amorosa, é na verdade um manifesto sobre a resistência do espírito contra o vazio e o medo.
A Solidão e o Medo: Nota como ela usa imagens físicas ("dentes", "oco das portas") para descrever sentimentos abstratos. É o existencialismo na poesia.
O Amor como Arma: Para Natália, o amor não era apenas um sentimento romântico, mas uma força metafísica, a única capaz de enfrentar o "nada".
Para Natália, a liberdade era o próprio ar, uma exigência do corpo antes de o ser do espírito. O regime de outrora era o lodo, uma poeira cinzenta que caía sobre as almas e as asfixiava no silêncio das sacristias. Ela sentia um nojo físico por aquela "pátria de mortos-vivos", onde o pensamento era vigiado e a alegria parecia um pecado contra o Estado.
Erguia-se como uma torre de fogo contra o gelo da ditadura. O seu ódio não vinha de cartilhas, mas de uma náusea profunda perante a pequenez de um país que se queria triste, mudo e curvado. Via nos censores uns coveiros da luz, homens de negro que guardavam a chave de uma cela onde Portugal definhava.
Raul B. Gomes
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Este é o País que a dor inventa
Este é o país que a dor inventa. / Onde a luz é um punhal de mansidão. / E o povo que em silêncio se alimenta. / Do pão que amassa com a solidão. / Ó pátria de naufrágios e de lendas. / Onde o mar é o limite do desejo. / Abre as janelas, tira as tuas vendas. / E vê o sol no último bocejo. / Porque a vida é um fogo que se acende. / No peito de quem nunca se rende.

Em 1982, durante um debate sobre o aborto, o deputado João Morgado afirmou que "o ato sexual é para fazer filhos". Natália pediu a palavra e, de improviso, declamou:
"Já que o coito — diz Morgado — tem como fim cristalino, preciso e imaculado fazer menina ou menino;e cada vez que o varão sexual petisco manduca, temos na procriação prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento, lógica é a conclusão de que o viril instrumento só usou — parca ração! —uma vez.
E se a função
faz o órgão — diz o ditado —,
consumada essa exceção,
ficou capado o Morgado."
Este episódio ficou para a história como um dos momentos de maior irreverência e inteligência na resposta ao conservadorismo da época.
Este poema foi escrito num contexto de profunda indignação e tornou-se um hino à resistência intelectual e à força da mulher e do cidadão contra a mediocridade e a opressão.
Cântico do País Emerso
Pátria de heróis a mofar nos armários pátria de santos em nichos de poeira onde o sol é um selo de funcionários e a lua uma hóstia de brincadeira.
Pátria de poetas que vendem o verso pátria de sábios que ignoram o mundo onde o génio é um monstro disperso e o silêncio um pântano profundo.
Pátria de gente que espera o milagre pátria de mortos que fingem viver onde o vinho da alma se torna vinagre e o medo é a única forma de ser.
Ergue-te, pátria, do lodo e do nada desperta o vulcão que trazes no peito faz da tua voz a tua própria espada e conquista, enfim, o teu próprio direito!
Este poema é uma verdadeira "chicotada" na consciência nacional. Natália usa palavras como lodo, vinagre, vulcão e espada para criar um contraste violento entre o estado de apatia e a necessidade de ação.
A Crítica à Burocracia: Quando ela diz que o sol é um "selo de funcionários", critica a forma como a vida e a liberdade são aprisionadas por papéis e decretos.
O Apelo à Voz: O último verso é um grito de autodeterminação. Natália não pede licença; ela ordena que a pátria (e o indivíduo) conquiste o seu próprio direito.
Vigor Político: Este é o tom que ela levava para o Parlamento — uma mistura de erudição clássica com uma coragem quase física de enfrentar quem tentava diminuir a dignidade humana.
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