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Edição de botequim.pt  abrange semana de 15 a 21 de Agosto de 2026


A valentia do Fisco português

A nomeação de um novo líder para a Autoridade Tributária e Aduaneira - a instituição mais poderosa e odiada do país - veio chamar a atenção para o comportamento do Fisco no Portugal de hoje



Refinando a cultura (secular entre nós, em ditadura e em liberdade, em inquisição e em democracia) do despotismo com os desprotegidos e subserviência com os poderosos, a AT precisa de mudar a maneira, ora implacável, ora submissa, com que trata os contribuintes.

Surpreende, na verdade, os critérios que utiliza, pouco próprios numa democracia por arrogantes, por brutais nuns casos, por coniventes, por obscuros noutros.

A um infeliz incumpridor de classe média, logo bloqueia o ordenado, a conta bancária, sem aviso, sem decência, atirando-o, e à família, para situações desesperantes por, quase sempre, insignificâncias em atrasos; a certos poderosos (indivíduos, empresas, associações) amocha, servil, não cobrando milhões, não penalizando ardis e, com todo o desplante, informar não ter capacidade de buscar, só no ano passado, 28,9 mil milhões de impostos devidos, ou seja 47 por cento da receita fiscal.

Economistas revelam, entretanto, que cerca de 40 por cento do equivalente ao PIB nacional encontra-se desviado em paraísos fiscais.

Daí o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos ver-se na necessidade de justificar-se dizendo que "há muito o combate à fraude fiscal está comprometido". E funcionários da própria AT reconhecerem haver "um colapso silencioso da investigação tributária"..

Graças à valentia do nosso Fisco (a extorquir aos que não podem fugir-lhe mais de 40 por cento dos rendimentos), a economia paralela ultrapassa entre nós 30 por cento - e Portugal torna-se o país mais pobre da Comunidade Europeia

Jason Arday, desapareceu o mais jovem professor negro de Cambridge

Quando a pressão pública mata

A dúvida e a pressa no julgamento público podem ter precipitado o fim trágico de Jason Arday, encontrado sem vida a 14 de agosto na sua residência em Battersea, em Londres, na sequência de uma vaga implacável de acusações de plágio e fraude curricular

O caso do sociólogo que se tornou o catedrático negro mais jovem de sempre em Cambridge expôs a velocidade com que a aclamação pública se pode transformar num linchamento mediático e digital destruidor, levantando sérias questões éticas sobre a falta de presunção de inocência, o cancelamento sumário e o impacto devastador de campanhas públicas de descrédito sobre a saúde mental.

A família de Arday expressou profundo choque, declarando que o sociólogo sucumbiu ao peso de uma campanha contínua de desinformação e abuso. O caso gerou uma comoção internacional e reabriu um aceso debate no Reino Unido sobre a pressão no meio  académico, o impacto do escrutínio mediático implacável na saúde mental e as tensões em torno das políticas de diversidade 


e representatividade racial no ensino superior.

Pouco antes da sua morte, Arday acabou por apresentar a sua demissão da Universidade de Cambridge a 5 de agosto de 2026, na sequência do anúncio de abertura de um inquérito formal às suas qualificações, afirmando ter atingido o limite humano perante o ataque sistemático e linchamento público, apesar de rejeitar veementemente qualquer conduta imprópria intencional. 

O académico tinha-se tornado alvo de um intenso escrutínio público e mediático após surgirem denúncias que apontavam para passagens idênticas e falta de referenciação na sua tese de doutoramento, concluída na Liverpool John Moores University, e noutros trabalhos académicos, a par de questionamentos sobre o seu currículo e narrativas pessoais de conquistas desportivas e de angariação de fundos.

Jason Arday (1985–2026) foi um sociólogo britânico que alcançou notoriedade mundial em 2023 ao tornar-se, aos 37 anos, o professor catedrático negro mais jovem da história da Universidade de Cambridge. A sua trajetória era celebrada como um símbolo inspirador de superação, pois, diagnosticado na infância com autismo e atraso global do desenvolvimento, só aprendeu a falar aos 11 anos e a ler e escrever aos 18, tendo chegado ao topo da academia britânica como especialista em sociologia da educação, desigualdade e relações raciais.

Judeus fomentaram as invasões do Norte de África

A recente invasão de Ceuta por povos magrebinos conduz-nos às sangrentas invasões de Portugal às cidades do norte de África, em 1415, incentivadas por 5 judeus extremamente ricos e influentes de Lisboa.

Qual era o benefício imediato? A comunidade judaica, pretendia evitar a todo o custo a cooperação entre cristãos e Islâmicos, que acabou, aliás, por ser inevitável para completar o Caminho Marítimo para a Índia (na parte final do Oceano Índico). 

São eles Judah Abravanel, Moisés Rava, David Negro, Joseph Abarbanel e Jehua Cresques. 

Gavura de Judah Abravane  

Os judeus, ou melhor os hebreus, tinham já menorizado os cristãos, envolvendo a sua doutrina numa chamada Bíblia - que agregou os seus livros mais fanáticos com cartas, epístolas e 4 evangelhos escolhidos (dos 14) do cristianismo primitivo, no Concílio de Niceia (Turquia) no ano de 315.

A grande oposição aos hebreus continuava a ser o islamismo, fundado por Maomé, casado com uma rica comerciante, para combater o domínio judaico das rotas comerciais do Levante e da Península Arábica  - desde o ano de 610 dc.

Os judeus temiam a qualquer momento uma aliança já tentada pelos Templários (com um fim trágico). Jacques Molay, grão-mestre da Ordem do Templo teria percebido que a verdadeira ameaça aos cristãos seriam os judeus - que se auto-proclamavam o único povo escolhido por Deus (até hoje!) para ser salvo no final dos tempos.

Entre os primeiros proprietários, conhecidos, do termo de Almada está o Almoxarife das Alfândegas, do rei D. Fernando, David Negro (David ibn Yaḥya Negro ben Gedaliah (ha-Rab shel Sefarad)




Brasão da família Abravanel (em hebraico: אברבנאל)

Quem eram esses judeus?

Judah Abravane

era membro de uma das famílias judaicas mais ricas e distintas da Península Ibérica. Judah foi tesoureiro real e conselheiro financeiro direto de D. João I.


A sua enorme fortuna pessoal permitiu-lhe financiar operações militares da Coroa e fornecer o capital necessário para os preparativos da expedição à conquista de Ceuta em 1415.

Moisés Rava 

era físico-mor (médico pessoal) do rei D. João I e homem de grande confiança na corte.

Além da medicina, atuava como embaixador e diplomata. Pela sua posição privilegiada junto do monarca, intercedia frequentemente em favor da comunidade judaica e geria importantes negócios e propriedades na capital.

David Negro

Havia sido Rabi-Mór e tesoureiro de D. Fernando I. Embora tenha tido uma posição ambígua durante a crise de 1383-1385, a família Negro continuou a ser uma das mais prósperas e influentes em Lisboa durante o início do reinado de D. João I, detendo grandes propriedades na Judiaria Grande de Lisboa.

Joseph Abarbanel

Grande comerciante e banqueiro radicado em Lisboa. Dominava as redes de comércio internacional e de câmbios entre Portugal, a Flandres e a Itália, financiando grandes mercadores portugueses e a própria casa real.

Jehuda Cresques 

Cartógrafo e cosmógrafo de renome. Embora tenha chegado a Portugal já na fase final da vida de D. João I (contratado pelo Infante D. Henrique), era uma figura de enorme prestígio e recursos, fundamental para o planeamento científico das navegações.

Estátua do famoso cartógrafo judeu nascido em Maiorca. Ele é célebre pela coautoria do Atlas Catalão de 1375 com seu pai Abraham Cresques e que terá coordenado os primórdios da expansão marítima portuguesa

Como exerciam o seu poder em Lisboa?

Estes homens residiam maioritariamente na Judiaria Grande de Lisboa (na zona da atual Rua da Judiaria e Bairro Alto/Baixa). O seu poder advinha de três fatores principais:

Arrendamento de Impostos (Rendas da Coroa): Eram eles que adiantavam dinheiro vivo ao Rei e, em troca, cobravam as taxas sobre o comércio e produtos em Lisboa.

Medicina e Diplomacia: O acesso direto aos aposentos reais como médicos garantia-lhes uma influência política que nenhum outro súbdito comum possuía.

Financiamento da Expansão: A conquista de Ceuta em 1415 só foi financeiramente viável graças aos empréstimos e à gestão de crédito concedida por estes grandes financeiros judeus de Lisboa.

Esta influência conjugada da comunidade judaica (ignorada pelo corte portuguesa com total ingenuidade) conduziu-nos ao desastre de Alcácer Quibir. 

Ali morreram os 3 reis da batalha :  D. Sebastião – morto em combate. Abu Abdallah (Sultão deposto de Marrocos)  afogou-se no rio Mocazim ao tentar fugir do campo de batalha. Abu Marwane Abd al-Malik (Sultão de Marrocos em título)  morreu no início da batalha devido a uma doença grave que já sofria . Uma tragédia para Portugal e para o Magrebe. jrr

Existem 2 Espanhas  o outro lado da invasão magrebina


Almerindo Lessa

"Quanto mais comemos menos filhos fazemos"


"A idade cronológica de uma pessoa não tem nada a ver com a sua idade biológica. Ninguém soma os anos do bilhete de identidade. Não possuímos a mesma idade em todo o corpo, as minhas mãos, o meu baço, as minhas pernas não têm a mesma duração.

"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta



"Fomos programados para viver 120 anos, nascemos com uma estrutura genética que o afirma. A partir do momento em que um espermatozóide penetra num óvulo fica marcada a evolução do novo ser, a idade em que vai ter o primeiro cabelo branco, a primeira úlcera de estômago, a data em que vai morrer. 

É um verdadeiro programa de computador que só se altera porque os vírus o invadem. O limite dos 120 anos é dado pelo tempo em que as células se renovam. Algo nos impede, ainda, de o atingirmos ... um acidente, uma doença, um sofrimento, uma angústia, um desgosto de amor.

O corpo humano sofre transformações em cada 300 mil anos, foi assim que chegamos à forma actual. No futuro iremos conhecer novas alterações, não precisaremos de dois pulmões, dois rins, intestinos tão extensos, cores de pele tão marcantes, sexos tão definidos. Se não surgirem doenças, o envelhecer não desmotiva, só por si, o cérebro, apenas lhe retira rapidez.


"Os desgostos de amor continuam, ao contrário do que se diz, a matar-nos. Somos, aliás, um país sentimentalmente roxo, a cor do ciúme, um povo de desdobramento dos sentimentos. A maior parte de nós tem um amor a que se dedica sensualmente e outro a que se dedica espiritualmente, que quase nunca coincidem. Apesar de divididos, é-nos muito agudo o sentido da posse, tornamo-nos capazes de comer com beijos os objectos amados. Se, porém, não nos sentirmos retribuídos podemos falecer de angústia. A pior coisa para nós é a falta de felicidade. 


Por isso os idosos choram muito, emocionam-se muito, sofrem muitíssimo com a ausência de carinho e com o isolamento. Os quintos andares estão cheios de velhos esquecidos, Lisboa é um terceiro mundo ao domicílio. A sua solidão, o seu abandono são por vezes totais. Sentem-se seres despedidos, despedidos pela sociedade e pela família, sente-se inaproveitados, desarticulados, rejeitados, desintegrados economicamente, politicamente, eroticamente. Dizer que os idosos não amam, não necessitam de afagos é uma enormidade. O amor existe em todas as idades.


"Portugal, com cerca de l 4 por cento da população acima dos 65 anos, faz já parte do chamado clube dos velhos, o que podia ser um factor de riqueza se os encarassemos de maneira diferente, como fazem outras civilizações, até porque se envelhece-se mais devagar. A Terceira Idade principia aos 75 anos, ganhou-se já uma década.

"Das três grandes explosões ocorridas na humanidade, a marxista, a atómica e a demográfica, é a demográfica que vai alterar toda a nossa vida. A Europa será, dentro de escassos anos, dominada pelo quarto mundo, um mundo composto por três gigantescas maiorias: a dos séniores activos, a dos desempregados compulsivos e a dos imigrantes de África e Ásia. 

A união delas constituirá o maior fenómeno sociológico, cultural, político, económico de sempre. As pressões que exercerão mudarão profundamente as estruturas existentes de trabalho, lazer, produtividade, saúde, convívio, transporte, urbanismo, previdência, assistência.

"O controlo da natalidade tornou-se, consequentemente, um problema cada vez mais premente. Só se pode, porém, lutar contra ele alimentando eficazmente as pessoas. Daí dizer-se que qunto mais comemos menos filhos fazemos. Quando há falta de determinadas proteínas, as hormonas sexuais não são queimadas pelo fígado o que provoca grande excitação ... um dos processos de aumentar, por exemplo, a fecundidade dos porcos e das galinhas é pô-los em regime de sub-nutrição.

"Dar comida, agasalho, habitação, trabalho, assistência a todos os que existem, e aos que não param de nascer, implica sacrifício da natureza, das águas, das árvores, da atmosfera, do clima. As florestas precedem as pessoas, os desertos acompanham–nas, avisava Chateaubriand.

"O homem é um poluidor por condição. As hecatombes ocorridas são consequência da sua natalidade incontrolável. A natalidade baixou entre nós porque subimos socialmente (a pílula ajudou), ao evoluir-se evita-se procriar. Os descendentes dos imigrantes que nos procuram hoje vão passar, amanhã, pelo mesmo, até pelas dificuldades, pela insegurança que crescerão. As pessoas não se sentem dignificadas, não vêem reconhecida a sua experiência de vida, preciosíssima licenciatura que em vez de ser utilizada é depreciada.


"Os responsáveis não mostram, porém, disponibilidade para estes problemas, limitados como estão nos seus cargos, nas suas redomas, nas suas filosofias mercantilistas e imediatistas. Julgam que tudo se resolve com dinheiro, com produtividade. Ora o nosso maior problema não é esse, é o da desumanização, o do desequilíbrio da ecologia, como a do envelhecimento. É incompreensível que não tenhamos uma ecologia do envelhecimento".


Biografia

Nascido no Porto a 31 de Agosto de 1909, doutorado em Medicina naquela cidade e em Ciências de Gerontologia na Universidade de Toulouse, Almerindo Lessa tornou-se um especialista de projecção internacional, pelo seu pioneirismo, nas áreas a que a que se dedicou, com ligações especiais às universidades de Évora e de Brasília.

Ntre as suas obras, destacam-se os ensaios "O Homem Cabo-Verdeano", "Um Médico, o seu Mundo e os seus Fantasmas" e "Anthroposociologie de Macau".

Faleceu em Lisboa a 11 de Abril de 1995. 

Oiça neste Verão    


foto e cartoons publicados por Carlos Fino no Face

Sócrates: temos um homem 

a caminho de ser mártir

O arrastamento do processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, há mais de uma década, deixou de ser um caso de aplicação da justiça para se transformar num espetáculo inaceitável. 


Assiste-se a um cenário incompreensível: jornalistas a exiberem  o acesso direto a documentos trancados a sete chaves num cofre-forte da justiça

Estas fugas de informação cirúrgicas e sistemáticas revelam uma conivência perigosa entre elementos do aparelho judicial e a comunicação social, transformando o segredo de justiça numa comédia.

Ao ser alvo desta máquina de trituração, José Sócrates começa, inevitavelmente, a erguer-se como um mártir da justiça portuguesa. 

A forma como têm sido atropelado ao longo dos anos, faz de José Sócrates, símbolo dos injustiçados. Um espelho desconfortável do sistema judicial.

Para quem ainda acredita na história dos 35 milhões, vale lembrar que um Berardo (nos seus 990 milhões de dívida confessada da Fundação na Assembleia da República) seria o equivalente a 28 Sócrates. Se algum dia forem provadas as acusações contra o "menino de ouro" do PS. jrr

AUMENTO DOS COMBUSTÍVEIS E A MINHA REVOLTA:A idade e a vida domesticaram o meu espírito revolucionário. Hoje, desiludido com aquilo que a política nos oferece, cansado de escutar medíocres e gente vulgar que são líderes de capelas partidárias, cansado da demagogia barata, do populismo sebosos, vivo em abstenção. 

Não os vejo, não os escuto, numa manifestação militante de mudar de canal de televisão cada vez que um deles aparece. Porém, no fundo das minhas forças dei por mim a vibrar com um grito de revolta. Os combustíveis vão aumentar, outra vez, na abertura desta semana. AUMENTAR! Neste momento, o barril de petróleo está ao preço de antes da guerra de Trump contra o Irão. Em vez baixar, as empresas aumentam os preços com a cumplicidade do Governo e dos partidos da Oposição. 

Silêncio absoluto. Compromisso com as grandes empresas petrolíferas, sem compaixão pelos consumidores. É infame! Um insulto a quem trabalha! 

Miguel Sousa Tavares

Trump ordena... e nós cumprimos

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Menina carrega irmã 

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 


Cisjordânia na mira de Isra3l


Trump na belinda dos cartoonistas

Natália Correia: o país das jotas mudas

0 mundo lisboeta de  Natália Correia


Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.

Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).

Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.

Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa. 

Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos. 

"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".

O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.

Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor. 

Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.

Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.

O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.

A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.

Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".

Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".

A  autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos DiasNa noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.

Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.


Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.

Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.