
BOtEQUIM.pt
Agregar Opiniões, Artes, Letras, Jornalismo, tudo com assinatura
botequim.pt 03 a 10 de Novembro de 2026, com alterações diárias
Violência à portuguesa
Ciclicamente a violência surge-nos à superfície. Agredimos, matamos os que se encontram mais próximos, os que nos são mais disponíveis — forma de nos agredirmos, matarmos a nós próprios.
Somos bárbaros por afectividade, imoladores por fé. Continuamos incansavelmente emotivos e, ao contrário do que se diz, temos necessidade de amar o que gera, ao não o conseguir, o aumento do amor roxo (designação do amor trágico).

Conciliamos com toda a naturalidade a grande violência, a do ódio, a da paixão (explosiva), e a pequena violência, a do cinzentismo normalizador. Não somos feitos para viver sem utopia, sem espaço - e hoje encontramo-nos apaticamente sem sonho, sem delírio. Sem futuro?
Portugal nasceu, aliás, de um acto violento: a rebelião de um filho contra a mãe, derrotando esta - mais o seu notável projecto de independência galaico-lusitana - pelas armas. A República nasceu de uma emboscada brutal, a do assassínio de um Rei e do seu primogénito por revolucionários radicais - a que se seguiriam o abate de um presidente da República, de um primeiro ministro. No século anterior, guerrilhas civis dizimaram mais de 300 mil pessoas. Só por ironia se pode falar em brandos costumes entre nós.
Os dois maiores mitos nacionais, o de Pedro e Inês e o do Sebastianismo brotaram de actos de desvario: um apunhalamento e um massacre. Alguns dos vultos cimeiros das letras, do pensamento, das artes, suicidaram-se, deixaram-se (continuam a faze-lo) suicidar-se.
As Descobertas, a Inquisição, a História Trágico-Marítima, as guerras coloniais, os totalitarismos (ideológicos, mercantilistas) são-nos elos de violências contínuas ao longo dos séculos, mais subterrâneas que ostentadas, mais difusas que definidas.
É difícil, aliás, ouvir confissões aos que matam: "Esses crimes são cometidos por pessoas com muita melancolia, pessoas que têm ideias de culpabilidade muito acentuada", anota Pedro Luces, psicanalista.
Oposta à violência passional temos a violência institucional que se liga a quase todas as outras, disparando quase todas as outras através da humilhação, da manha, da impunidade, da perversidade.
Ora despóticos, ora subservientes por fora (veja-se a violência do Estado), revelamo-nos cruéis e enquistados por dentro. O deleite com que assistimos aos autos do Santo Ofício no Rossio, a inveja com que apoucamos os que se evidenciam, a brejeirice com que tratamos os que se encontram em posições anómalas são características da manha que nos adia.
Não conseguiremos fazer nada como povo se continuarmos com a hipocrisia de, por um lado pregar a paz, a esperança, o bem-estar, a solidariedade e, por outro, manter a contradição das injustiças provocando clivagens entre o que as pessoas querem acreditar e a realidade que defrontam. Aqueles que matam são, por vezes, apenas a engrenagem última de uma cadeia que nos liga a todos, cumplicia a todos.
«A nossa ânsia é libertarmo-nos de nós, todo o gesto de autodestruição, toda a atitude mística, o visa. O suicídio é um acto religioso», exclama Pascoaes, «uma oração em lágrimas de sangue: quando me livrarei deste corpo de morte?"
Os que mais provocam a violência "são os que mais sentem a vida", exclamava Natália Correia. "Essa é a característica da violência à portuguesa. Não presto para as suas revoluções!",.

Acabou a bastonada
manifestantes optam por fazer RGA
.
A acampada no Rossio está a desmobilizar e a praça esvazia-se, deixando a polícia quase sem ninguém a quem bater. Foi assim nesta noite. Agora discute-se quem tem direito a falar ou pontos de ordem à mesa. Tal como numa Reunião Geral de Alunos.
Os manifestantes nem montaram as tendas com a tristeza e frustração de quem vê o problema da habitação rigorosamente na mesma, sem soluções à vista para o custo de vida esmagador.
Por outro lado os agentes do corpo de intervenção vão ficar sentados de bastão na mão, à espera de nova oportunidade para distribuir mais bordoada a torto e a direito. jrr

Trump... a um passo do fim?
Trump pode estar em apuros, o reinado está próximo do fim por causa da guerra do Irão, do ICE e outras coisas como tais, e agora mesmo a pressão atinge o pico com a realização das eleições intercalares para os 435 lugares da Câmara dos Representantes e 35 lugares do Senado.

O descontentamento popular contra as rusgas e a atuação do ICE afastou o eleitorado e gerou um forte desgaste social e económico.
Em simultâneo, o aumento contínuo da inflação e do custo de vida sufoca as famílias, que culpam a atual administração pela perda de poder de compra.

Diante desta crise acumulada, o eleitorado mobiliza-se em força para estas eleições intercalares, ameaçando retirar a maioria legislativa aos republicanos e paralisar a governação no Congresso. Com a popularidade no nível mais baixo e uma fiscalização agressiva no horizonte, o futuro político da sua liderança parece cada vez mais incerto e rodeado de instabilidade institucional.

Os principais indicadores de pressão e os números de endividamento da economia norte-americana organizam-se da seguinte forma:
Rácio Dívida/PIB: A dívida pública situa-se em cerca de 128% do PIB, o valor mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial.
Custo dos Juros da Dívida: Com as taxas de juro elevadas, o pagamento anual de juros da dívida pública ronda os 1 bilião de dólares por ano, superando orçamentos de áreas críticas como a Defesa.

Inflação e Custo de Vida
Subida da Inflação: A taxa de inflação ronda os 3,7% a 4,0% ao ano, mantendo-se acima da meta de 2% fixada pela Reserva Federal e pressionando o preço de bens essenciais (alimentação, energia e habitação).
Perda de Poder de Compra: O aumento acumulado do custo de vida continua a corroer os rendimentos das famílias e o consumo das famílias.
Endividamento Famílias e Consumidores
Dívida das Famílias: O endividamento privado (cartões de crédito, empréstimos automóveis e crédito à habitação) atingiu níveis recorde.
Incumprimento em Risco: As taxas de mora e incumprimento no crédito ao consumo (especialmente cartões de crédito e financiamento automóvel) registam uma tendência de subida contínua.

Desequilíbrios do Mercado de Trabalho
Escassez de Mão de Obra e Custos: Ações de fiscalização e restrições na imigração têm provocado escassez de mão de obra em setores como a agricultura, construção e serviços, elevando os custos de produção e contribuindo para a pressão inflacionista.
Sentimento do Consumidor: Apesar de o PIB registar algum crescimento genérico, a confiança dos consumidores e o sentimento económico situam-se em patamares muito baixos devido à combinação de juros altos e inflação persistente. jbl


Urbano Tavares Rodrigues
" Há um fervilhar de explosões
que podem tornar-se revolucionárias"
"Estive sempre do lado dos que levam pancada. E estarei até ao fim da vida, ao lado dos fracos contra os fortes. O capitalismo humanizado, a social-democracia estão a ser varridos.
As democracias europeias mais avançadas, onde o sistema tinha uma boa base distributiva das riquezas, estão em vias de regressão.

por Fernando Dacosta
Ora é preciso lutar contra isso, transformar a Europa das multinacionais numa Europa dos cidadãos. " Sempre senti uma grande necessidade de testemunhar a realidade que me envolvia, como quando estive mais ligado à resistência. Sem terem uma mensagem e uma estrutura neo- realista, os meus livros foram afirmando uma subjectividade pessoal, uma estética diferente, mas convergente, com a daquela escola.
"Comecei a escrever para me encontrar, procurar a mim próprio, e aos outros, e à vida, e ao destino. Fi-lo por inquietação, que tinha tanto a ver com a literatura como com a metafísica e com o social. Tomei, desde muito cedo, consciência da injustiça social que via à minha volta no Alentejo, para onde fui viver em criança, e depois no País.
"A literatura actual é uma literatura de alienação, de mercado, de mediocridade, de moda. Às vezes fico enojado, outras desato a rir, a rir de desgosto. Há, porém, em muitos jovens um sentimento anti-sistema muito positivo.
Eles não se sentem bem com o modelo que lhes é proposto e começam a reagir. Ao contrário do que se diz, as ideologias estão vivas. Muitos poderão ter, impelidos por sentimentos de fraternidade, um papel decisivo no combate a esta sociedade.
"Julguei, sobretudo quando estava preso em Caxias, que podia estar a contribuir, à minha escala, para o avanço da humanidade, acreditei profundamente no mito do homem novo... afinal o homem novo foi modelado por uma das
sociedades mais horrorosas de sempre, que é a do capitalismo neoliberal, a da cupidez, a do egoísmo, a do autoritarismo, a do NEE esclavagismo.

A democracia está em retrocesso, mais de 85 por cento da humanidade vive na pobreza. É um tempo horrível este, do qual temos de sair. Espero que ele caia de repente, como caiu a União Soviética, essas coisas são possíveis... para tal bastava que a opinião pública norte-americana pusesse em causa a falsidade democrática do seu regime.
Regime que só se mantem porque é usurário, porque vive dos juros dos empréstimos aos países que explora. Por isso há actualmente um fervilhar de explosões que podem tornar-se revolucionárias."
BIOGRAFIA
Nascido em Lisboa a 6 de Dezembro de 1923, Urbano Augusto Tavares Rodrigues destacou-se como escritor, jornalista e professor universitário, sendo autor de romances como Bastardos do Sol, Os Insubmissos, Os Campos da Promessa, Desta Água Beberei, de ensaios, críticas, novelas – e como interventor político contra a ditadura
Notável esteta da língua portuguesa, não escrevia com imagens mas com palavras - restituindo-lhes a grandiosidade que elas têm na nossa literatura. É dos poucos a defender "a escrita como última trincheira da liberdade - daí a subalternidade a que foi votada".
UTR faleceu a 9 de Agosto, em Lisboa, aos 89 anos.
( "ESPÓLIO" - Reflexões de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta)

O relatório do Clube dos Ricos
sobre Portugal
Portugal tem cerca de 730 mil casas vazias ou devolutas, o que coloca o país entre os líderes da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) em stock habitacional subutilizado e rácio de habitações por habitante.

Principais pontos dos relatórios da OCDE
Dimensão do problema: Os dados apontam para cerca de 12% a 14% de alojamentos vagos ou sem utilização em território nacional (com cerca de 19% em casas de férias ou uso sazonal).
Recomendações fiscais: A OCDE defende um "aperto fiscal" e uma reforma dos impostos sobre a habitação, nomeadamente: Agravamento do IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis) para imóveis devolutos ou subutilizados.

Redução do IMT (Imposto Municipal oneroso de Transmissões) acompanhada de uma atualização realista do valor patrimonial das casas. Aplicação de limites às isenções de mais-valias na venda de habitação própria e permanente.
Simplificação burocrática: O organismo aponta a necessidade de acelerar os licenciamentos urbanísticos e combater os atrasos na construção para aumentar a oferta real de casas no mercado (tanto para venda como para arrendamento).

Exemplos internacionais: A OCDE sugere medidas semelhantes às aplicadas noutras geografias (como a taxa sobre casas vazias em Vancouver) para forçar a entrada destes imóveis no mercado.
Habitação Social: O relatório aponta para a necessidade de reforçar o peso da habitação social no país, que continua a ser reduzido face às necessidades

O que é a OCDE
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) é um fórum internacional composto por 38 países — maioritariamente de economias desenvolvidas e democráticas — apelidado habitualmente de "clube dos países ricos".
O que faz: Funciona como um centro de estudos e cooperação onde os governos comparam experiências, analisam dados e definem boas práticas para promover o crescimento económico, o emprego e a estabilidade financeira. O seu objetivo: Desenvolver políticas públicas e recomendações para melhorar o bem-estar económico e social a nível global ("melhores políticas para vidas melhores").
fotos de Lisboa e Dafundo de jrr


Anne Carson (Autobiography of Red)
a poetisa canadiana do Nobel da Literatura
O Prémio Nobel da Literatura de 2026 foi atribuído à escritora, poeta, ensaísta e tradutora canadiana Anne Carson, "pela sua obra ousada e inventiva que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea".

Anne Patricia Carson nasceu a 21 de junho de 1950, em Toronto, Canadá.
Perfil Académico: É uma consagrada classicista e professora universitária, tendo doutorado em Estudos Clássicos. Lecionou em várias universidades prestigiadas no Canadá e nos Estados Unidos (como Princeton, Michigan e Berkeley).
Estilo e Abordagem: O seu trabalho destaca-se por desafiar as fronteiras tradicionais entre géneros literários, misturando poesia, ensaio, crítica literária, tradução de textos gregos antigos e elementos visuais.
Distinções Anteriores: Ao longo da carreira, recebeu prémios de relevo internacional, como o T. S. Eliot Prize (sendo a primeira mulher a conquistá-lo), o Prémio Princesa das Astúrias das Letras, o PEN/Nabokov Award e bolsas prestigiadas como a da Fundação MacArthur ("Genius Grant").
Principais Livros
Eros the Bittersweet (1986), Glass, Irony, and God (1995), Autobiography of Red (1998), Men in the Off Hours
(2000), The Beauty of the Husband (2001), Nox (2010), Red Doc> (2013), Wrong Norma (2024)
O Livro Mais Importante: Autobiography of Red (Autobiografia de Vermelho)
Considerada por muitos críticos a obra-prima e o marco definidor da sua carreira, Autobiography of Red: A Novel in Verse (publicada em 1998) redefine a forma de contar histórias através da poesia narrativa.
Resumo: O livro baseia-se num fragmento sobrevivente da obra do poeta grego antigo Estesícoro, que relata o mito do monstro alado Geryon e o seu confronto com Hércules, que o mata para roubar o seu rebanho de gado vermelho. Anne Carson subverte radicalmente o mito ao transportá-lo para um cenário contemporâneo e urbano. Na sua versão, Geryon é transformado num jovem sensível, gay e dotado de asas vermelhas que vive à margem.
A narrativa acompanha a sua descoberta do mundo, a paixão avassaladora e dolorosa por um jovem rebelde chamado Hércules, e a posterior separação. Misturando a psicologia moderna, a solidão e a estética visual com a herança dos mitos clássicos, a obra tornou-se um clássico moderno instantâneo da literatura queer e da poesia narrativa.
László Krasznahorkai, Prémio Nobel da Literatura 2025 explicita a vitalidade e a diversidade recente do panorama literário internacional galardoado pela Academia Sueca.
Há mais de 60 anos nas prateleiras das livrarias
Ninguém leu Italo Calvino
"A Especulação Imobiliária"

Este é o livro que a Europa não leu nos últimos 60 anos: A Especulação Imobiliária, de Italo Calvino.
Este livro reflete o grave dilema entre a modernidade e a manutenção da ética e da estética, uma modernidade que está afetada pelo lucro desenfreado e muitas vezes pela fraude. A Europa ignorou este livro escrito em 1957 e publicado poucos anos depois. Até agora não aprendemos nada com um dos maiores escritores europeus.
Ao escancarar a transformação brutal das paisagens em ativos de betão e a subjugação do bem comum ao valor de mercado, Calvino não escreveu apenas sobre a Riviera Lígure do pós-guerra — traçou o retrato antecipado das cidades europeias de hoje. A incapacidade de conter a voracidade imobiliária em prol da dignidade humana e do equilíbrio urbano demonstra que a lição de Calvino continua tão urgente quanto tristemente atual.

Milhares de pessoas manifestaram-se em Madrid contra a crise habitacional em Espanha e para exigir medidas de proteção para os inquilinos, regras contra a fraude e a proibição de despejos sem que seja disponibilizada uma habitação alternativa.

No Porto e em Lisboa é onde existe maior número de casas vazias, fenómeno que atinge todas as capitais de distritoRui Duarte silva
Portugal conta com 14% de casas vazias, sem ocupação, sem locatários e sem função, quando regista carências habitacionais que já ultrapassam as 30 mil famílias. Reabilitação, posse administrativa ou mesmo a expropriação poderão ser soluções a explorar (in jornal EXPRESSO)

A Especulação Imobiliária (La speculazione edilizia), publicado originalmente por Italo Calvino em 1957 (e reunido em livro em 1963), é uma novela realista e satírica sobre o boom económico e a transformação urbanística da Itália no pós-guerra.
Enredo e personagens principais
A história decorre numa pequena cidade da Riviera Lígure que está a sofrer uma rápida e desenfreada expansão turística e imobiliária. Quinto Anfossi é o personagem principal, um homem das artes, proprietário arruinado. Caisotti, representa a nova classe de empreiteiros oportunistas que enriquecem ao betonar a paisagem.
Procurando rentabilizar o património familiar, Quinto convence a mãe a vender uma parte do terreno do jardim da casa da família para a construção de um edifício de apartamentos.
Para executar a obra, Quinto associa-se a Caisotti. A partir desse momento, Quinto entra num pesadelo burocrático, legal e financeiro. Caisotti adia pagamentos, descumpre prazos, altera especificações da obra, recorre a esquemas duvidosos e manipula os contratos a seu favor.
Quinto tenta agir como um "homem de negócios" moderno e astuto, mas percebe rapidamente que é incapaz de competir com a falta de ética e a esperteza brutal de Caisotti. O projeto transforma-se num verdadeiro fracasso moral e financeiro.
O lucro rápido contra a ética e a estética
O fracasso do intelectual, Calvino retrata a impotência da classe intelectual perante a força cega do capitalismo de mercado. Quinto abdica dos seus valores para se render ao dinheiro, mas falha redondamente.
A Destruição do Território: O livro antecipa a desfiguração da paisagem costeira italiana (e europeia) pela especulação imobiliária e betonização desenfreada.
O Boom Económico e a Perda de Valores: A transição de uma Itália rural e idílica para uma sociedade consumista, onde o lucro rápido sobrepõe-se à ética, à estética e ao bem comum.
Manifs pela habitação
Porto versus Madrid
num lado trolitada da polícia, noutro calma e diálogo
O direito à habitação existe?
Irene Montero sobre Maricarmem desalojada aos 87 anos:
"Não é uma morte é um assassinato"
A morte de María del Carmen Abascal (Maricarmen), aos 87 anos, em Madrid, vai marcar ainda mais o debate sobre a crise habitacional em Espanha e na Europa e terá consequências nas eleições antecipadas decretadas por Pedro Sanchez.
Espanha irá a votos, com Maricarmen na ponta das canetas
Quem era Maricarmen e o que aconteceu?
Maricarmen tornou-se num símbolo nacional da resistência contra a especulação imobiliária após ter sido despejada da sua casa no bairro do Retiro, em Madrid, onde vivia há mais de sete décadas.
O imóvel foi comprado por um fundo de investimento (fundo abutre) que tentou impor um aumento drástico na renda — pretendendo subi-la de cerca de 500 euros para um valor incomportável de mais de 1.600 euros, superior à própria pensão de Maricarmen.

Apesar dos problemas de saúde, Maricarmen mobilizou centenas de pessoas e coletivos de inquilinos à porta do prédio, mas o despejo acabou por ser executado judicialmente. Poucos dias depois, fragilizada por todo o processo, Maricarmen acabou por falecer no hospital.
A febre dos fundos abutre e o abismo político
O caso de Maricarmen escancarou a fratura social gerada pela financialização da habitação. Em Espanha, tal como em Portugal, os fundos de investimento compram edifícios inteiros, expulsam os inquilinos tradicionais e transformam as frações em ativos financeiros altamente rentáveis, seja para turismo, alojamento de luxo ou especulação pura.
A pressão política: O governo de Pedro Sánchez tem tentado implementar medidas e travões legais para conter a escalada dos preços e proteger os arrendatários, enfrentando forte resistência política dos partidos de Direita e o bloqueio de governos regionais (como na Comunidade de Madrid).
A alternativa autonómica
Regiões como a Catalunha tentaram avançar com tetos máximos para as rendas e restrições à exploração especulativa, mas o problema continua a alastrar-se pelas grandes cidades ibéricas.
O reflexo ibérico
O cenário vividos em Espanha espelha-se diretamente em Portugal, onde as famílias enfrentam custos históricos na habitação, falta de casas acessíveis no mercado de arrendamento e o mesmo avanço de capitais especulativos sobre os centros urbanos de Lisboa e Porto.
A exigência social
Ecoa nas ruas de ambos os países e é clara: a habitação tem de ser encarada como um direito humano fundamental para habitar, e não como um mero ativo financeiro de luxo.
Que se dividam os apartamentos em sociais, destinados à habitação, e em turísticos ou de luxo, destinados a negócio.
Não Pagamos - Dario Fo
O escritor de extrema-esquerda
que arrebatou um Nobel
Dario Fo viveu e interveio numa das eras mais turbulentas e politicamente polarizadas da história europeia contemporânea: a Itália do pós-guerra, a Guerra Fria e a agitação social do final do século XX. ´E autor de "Não Pagamos" um livro muito polémico, como o próprio nome indica. Ganhou o Nobel da Literatura em 1997
Politicamente, Dario Fo foi uma figura central da esquerda radical e anticapitalista em Itália, profundamente marcado por um percurso de ativismo político independente e iconoclasta
O seu percurso intelectual e satírico moldou-se e reagiu diretamente aos seguintes marcos históricos:
Esquerda independente e antiautoritária

Embora tenha começado ligado a alas progressistas e ao Partido Comunista Italiano (PCI), a quem depois criticou por considerar demasiado moderado ou "revisionista", Fo aproximou-se sempre de movimentos sociais revolucionários e da extrema-esquerda extraparlamentar nas décadas de 1960 e 1970.

Teatro de intervenção (Agitprop): Utilizou a sua arte e o teatro satírico como uma arma política direta ao serviço dos trabalhadores, dos operários e dos movimentos de contestação social, fundando coletivos teatrais alternativos (como o Nuova Scena e La Comune).
Crítica implacável ao poder: A sua sátira visava o capitalismo, a corrupção institucional, a hipocrisia do Estado italiano, a censura e o conservadorismo da Igreja Católica.
A vida de Dario Fo (1926–2016) — dramaturgo, ator, encenador e Prémio Nobel da Literatura em 1997 — foi profundamente marcada pela controvérsia, censura e confronto direto com o poder.
Denúncia dos abusos do poder
As suas peças satíricas utilizavam o humor para denunciar abusos de poder de governos e da Igreja Católica, valendo-lhe fortes críticas e boicotes. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi conscrito no exército da República de Salò, conseguindo escapar e esconder-se nos últimos meses do conflito.
Consagração Artística: Nos anos 1960 e 1970, afirmou-se como um dos dramaturgos europeus mais encenados do mundo, destacando-se em obras de sátira política e social como Mistero Buffo e A Morte Acidental de um Anarquista.
Reconhecimento Global: Em 1997, recebeu o Prémio Nobel da Literatura, consagrando uma carreira dedicada a usar o riso como arma de intervenção cívica e política contra a corrupção e a opressão.
Últimos anos: Já na velhice, manteve o seu espírito inconformista e de forte intervenção cívica, tendo demonstrado simpatia e apoio público a movimentos de cidadãos antissistema e de protesto cívico em Itália, como o Movimento 5 Stelle (na sua fase inicial).
Em suma, era um intelectual de esquerda heterodoxo, comunista libertário no espírito, que usava o humor cáustico para combater o poder estabelecido.
Bancos roubam a vida dos Italianos
Quando Dario Fo deixou de estar
Matteo Renzi declarou publicamente que não seria hipócrita ao prestar falsas homenagens, afirmando que nunca gostou de Dario Fo.
Silvio Berlusconi nunca escondeu o alívio perante o afastamento daquele que considerava um agitador político radical travestido de artista.
Junger, alemão, e Marras, francês
A Extrema Direita salvadora na literatura europeia
Ernst Jünger (Alemanha)
Intelectual e escritor de Direita alemão ligado à chamada Revolução Conservadora da República de Weimar.

O anticapitalismo: Em obras fundamentais como O Trabalhador (Der Arbeiter), Jünger rejeita visceralmente o capitalismo liberal burguês, a economia de mercado e a mercantilização do mundo.
Para ele, o capitalismo e o comunismo soviético eram faces da mesma moeda: o triunfo da técnica moderna e do economicismo burguês sobre a alma humana. Propunha uma ordem hierárquica onde o "trabalhador-soldado" substituísse o burguês capitalista.

Charles Maurras (França)
Escritor, poeta de Direita e principal ideólogo da Action Française, o movimento monárquico, nacionalista integral e antiliberal mais influente da França do século XX. (autor de O Declínio do Ocidente): Filósofo e historiador alemão que misturava um pessimismo cultural profundamente conservador com ataques severos ao capitalismo financeiro e ao dinheiro, que considerava o grande coveiro da civilização ocidental. (França):
O principal rosto da Nova Direita europeia contemporânea, cujos escritos criticam implacavelmente o "capitalismo liberal globalizado", o mercado total e a mercantilização de todas as esferas da vida, alinhando-se muitas vezes com teses anticapitalistas de matriz antiliberal.
Em suma, Ernst Jünger ou ainda Oswald Spengler representam o cume deste "anticapitalismo de direita" na literatura europeia: rejeitavam a esquerda marxista pelo seu materialismo e ateísmo, mas odiavam o capitalismo liberal por destruir a tradição, a pátria e o espírito.

O estudo da indumentária quotidiana do povo português é ainda um tema relativamente pouco estudado a nível etnográfico e científico.

As chamadas roupas populares são hoje usadas sobretudo pelos ranchos folclóricos que têm o mérito de as preservar e revelar, embora por vezes de maneira algo desnivelada.
O vestuário tradicional apenas costuma ser já usado por pessoas idosas, que acabam por lhe introduzir linhas e tecidos estranhos, adquiridos normalmente em feiras e em lojas tradicionais. Das roupas antigas, usam o chapéu, o lenço de cabeça, ou de ombros, o xaile, a blusa, o avental, a jaleca e o capote.
A tradição secular de produção de tecidos e confecção das roupas ficou, com o tempo, perdida. O seu declínio iniciou-se após a industrialização (oitocentista) e agravou-se quando da emigração massificada do campo para as cidades e para o estrangeiro, a partir dos anos 60 do século XX.
Esses factores, aliados a uma melhoria das condições de vida e à expansão do pronto-a-vestir, levaram, no último meio século, ao declínio do uso do traje popular. Os esforços do Estado-Novo para que se mantivesse a sua genuinidade não resultaram. Ao fundar o Verde Gaio, um grupo de bailado, o seu regime vestiu frequentemente os bailarinos com roupas baseadas na indumentária ancestral do nosso povo, tendo a Mocidade Portuguesa recolhido, por sua vez, pormenorizadas colecções de trajes típicos.
Paralelamente, os museus de etnografia têm feito, neste campo, preservações importantes. Nas últimas três décadas o traje popular começou a ser analisado à luz da moderna ciência etnográfica. Diversos museus, como o do Traje de Viana do Castelo, o de Santiago do Cacém, o do Nacional do Traje, o
da Terra de Miranda do Douro preservam já núcleos valiosos de têxteis populares.
A fragilidade dos tecidos não permite, porém, exposições alongadas dado o risco da luz alterar cores e fragilizar texturas. A única biblioteca especializada no seu sector é a do Museu Nacional do Traje, em Lisboa, que guarda núcleos expressivos de trajes populares As roupas das classes elevadas (o maior núcleo do Museu Nacional do Traje) são as que se encontram melhor condicionadas, por os seus tecidos serem de qualidade superior.
O célebre loudel de D. João I, envergado pelo monarca na Batalha de Aljubarrota, é a mais antiga peça de traje existente entre nós; em lã, seda e linho encontra-se exposta no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.
Portugal pode orgulhar-se de ser um dos territórios europeus com maior riqueza de trajes populares, "da gente vil" – que eram os moiros, os judeus e as barregãs – exprimindo o seu meio geográfico, humano, cultural, identitário.
Neles destacam-se os cordões, as arrecadas, os brincos e os berloques usados pelas mulheres do norte como é o caso das "mordomas" do concelho de Viana. Aliás, a mulher afirmou-se sempre mais agarrada à terra e às tradições do que o homem, contribuindo assim para manter um património precioso na identificação da nossa cultura da nossa postura.
Miguel Esteves Cardoso
"se não fosse o Serviço Nacional de Saúde
Eu seria coxo ou já estava morto"
"Se não fosse o NHS - o sistema de saúde do Reino Unido, onde nasceram, muito prematuramente, as minhas filhas - elas não teriam sobrevivido.
Elas devem a vida ao NHS. E eu devo-lhe o amor e a alegria de conhecer a Sara e a Tristana, para não falar no meu neto, António, igualmente devedor,

mais as netas e netos que aí vêm.Se não fosse o SNS (Serviço Nacional de Saúde) eu teria morrido em 2005, com uma hepatite alcoólica causada unicamente por culpa minha.
Seria também coxo, quando me deram uma prótese para anca. E, sobretudo, teria morrido, se o SNS não me tivesse dado o antibiótico caríssimo (Linozelid) que
me salvou do MRSA assassino que me infectou durante a operação.Se não fosse o SNS, a Maria João, o meu amor, estaria morta. Se não fossem o IPO e o Hospital de Santa Maria, pagos pelo SNS, ela não estaria viva, por duas vezes.Sem a NHS e o SNS, eu seria um morto, sem mulher, filhas ou netos. Estaríamos todos mortos ou condenados à inexistência.
Não é difícil chegar à conclusão, atingida desde os meus dezanove anos, de que as melhores ideias de todas são a social-democracia e o Estado-providência: não tanto no sentido ideológico, mas na prática.A nossa família e as nossas famílias só existem e podem existir se não tiverem morrido.
Damos graças aos serviços nacionais de saúde - a esse empenho ideológico e caríssimo - que nos tratam como se fizéssemos parte deles.Devemos as nossas vidas a decisões políticas tomadas por outros."



Santo António em exibição nos cinemas
A chegada às salas de cinema de Santo António, a nova aposta assinada por Ruben Alves, traz de volta ao grande ecrã o olhar afetuoso e popular de um realizador que sabe, como poucos, dialogar com a identidade luso-francesa e com o imaginário cultural português.


Contando com a presença magnética de Joaquim de Almeida à frente do elenco, o filme assume-se como um dos lançamentos mais aguardados do circuito comercial recente.
Longe de ser uma biografia estritamente religiosa de época, a narrativa ancora-se na Lisboa dos nossos dias, onde o peso da tradição, as festas populares e a figura de Santo António — o casamenteiro, o procurador das coisas perdidas e o protetor da cidade — servem de bússola para os encontros
e desencontros das personagens. A trama acompanha laços familiares fraturados, paixões improváveis e pequenas buscas pessoais, nas quais Joaquim de Almeida encarna uma figura central de patriarca carismático, cuja vida se cruza com a dinâmica caótica, luminosa e calorosa dos bairros lisboetas.
A Assinatura de Ruben Alves: Do Fenómeno de A Gaiola Dourada a Este Regresso
Ruben Alves já provou a sua mestria na comédia humana com "A Gaiola Dourada" (La Cage Dorée, 2013),

o estrondoso sucesso de bilheteira que levou mais de 750 mil espectadores aos cinemas em Portugal e conquistou mais de um milhão em França ao retratar com ternura e humor a comunidade de emigrantes portugueses em Paris.
Em Santo António, o realizador recupera essa mesma sensibilidade sociológica: Autenticidade e pertença: A capacidade de captar a alma das ruas e a hospitalidade sem cair na caricatura fácil.
Comédia com coração: O equilíbrio entre o humor genuíno e momentos de melancolia honesta sobre a passagem do tempo e as raízes. Elenco de peso: A mestria em tirar partido do talento e da autoridade cénica de Joaquim de Almeida, oferecendo-lhe um papel que conjuga gravidade dramática e cumplicidade com o público.
O Interesse do Filme
O verdadeiro apelo de Santo António reside na sua capacidade de celebrar a identidade coletiva sem cinismo. Numa cinematografia nacional frequentemente dividida entre o hermetismo de autor e a comédia ligeira sem substância, a obra de Ruben Alves posiciona-se naquele espaço nobre do cinema popular bem construído: fotografia cuidada, ritmo envolvente e um amor genuíno pelas pessoas e pelos lugares que retrata. É um filme feito para reencontrar o público e encher as salas com o pulsar de Lisboa.
Primo Levi
A culpa de ter sobrevivido a Auschwitz
Primo Levi (1919–1987) é um dos mais conhecidos nomes de Auschwitz e sobreviveu. Era judeu. Primo Levi permanece como uma das vozes mais lúcidas, despidas de ódio e moralmente rigorosas do século XX. O seu legado transcende o mero relato testemunhal: Levi operou como um cientista da alma humana perante a aniquilação deliberada da dignidade.
A Sobrevivência em Auschwitz. Químico de formação e judeu italiano, Levi foi capturado em 1943 enquanto integrava a resistência antifascista e deportado para Auschwitz III (Monowitz) no início de 1944.
A sua sobrevivência deveu-se a uma combinação improvável de fatores: a sua formação científica permitiu-lhe ser alocado a um laboratório da fábrica de borracha sintética da IG Farben nos meses mais frios de inverno.
A ajuda clandestina de um trabalhador civil italiano (Lorenzo Perrone) que lhe fornecia restos de sopa diários, é preciosa.
A outra inesperada ajuda será ima crise de escarlatina no momento da evacuação alemã — o que o impediu de marchar nas letais "marchas da morte", acabando libertado pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945.
A Obra: O Olhar Analítico da Memória Levi escreveu não para vingar, mas para compreender. A sua prosa caracteriza-se pela precisão descritiva, despida de histeria retórica:
Se Isto É um Homem (1947): Uma autópsia da desumanização. Levi detalha o sistema concentracionário onde a fome, o trabalho forçado e o frio desmantelavam a identidade do indivíduo até ao limite moral e biológico.
A Trégua (1963): A errática odisseia de regresso à Itália através de uma Europa oriental em ruínas, marcada pelo contraste entre a sobrevivência física e o trauma latente.
Os Afogados e os Sobreviventes (1986): A sua obra teórica definitiva, onde formula o conceito da "zona cinzenta" — o espaço moral ambíguo em que opressores e oprimidos se cruzavam para sobreviver, recusando simplificações maniqueístas do mal absoluto.
A negação do Holocausto
O Fim de Vida e o Peso da Memória A ideia de que Levi morreu "abandonado" no sentido social não corresponde exatamente aos factos, mas reflete com precisão o seu isolamento existencial e intelectual. Em Turim, Levi vivia integrado na família e cuidava da mãe idosa e doente, mas carregava o estigma profundo da culpa do sobrevivente — a angústia de crer que "os melhores não regressaram".
Nos seus últimos anos, o isolamento agravou-se perante a ascensão de correntes negacionistas do Holocausto e a indiferença das novas gerações, que lhe pareciam esquecer a facilidade com que um regime civilizado tomba na barbárie.
Em abril de 1987, caiu do vão de escadas do seu prédio em Turim, com a investigação a concluir tratar-se de suicídio (embora amigos e biógrafos continuem a debater se foi deliberado ou um acidente provocado por vertigens e medicação).
Elie Wiesel resumiu o impacto dessa morte afirmando que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois". A grandeza de Primo Levi reside em ter transformado a experiência do abismo humano num instrumento de conhecimento ético e racional, exigindo a cada leitor a responsabilidade permanente da lucidez.
World Press Cartoons









(o que escreve Carlos Fino no seu mural)
Putin receia ameaças digitais
Geopolítica
O presidente russo, Vladimir Putin, ordenou hoje o reforço imediato dos mecanismos de segurança digital do país, considerando que as ameaças informáticas contra a economia russa atingiram "um novo nível".

Durante uma reunião sobre cibersegurança no Kremlin, Putin relacionou o aumento das ameaças com a guerra na Ucrânia e o avanço da digitalização.Segundo o chefe de Estado, a combinação destes fatores representa um perigo para "a logística, os transportes, os serviços sociais, os sistemas de suporte vital e a administração pública".Putin exigiu melhorias em "todos os componentes do sistema nacional de segurança digital" e nas "ferramentas para uma resposta rápida aos ciberataques".O Presidente russo pediu ainda maior coordenação entre as forças de segurança, os serviços de informações, os operadores de telecomunicações, as instituições financeiras, as empresas de Internet e outras entidades.

A reunião ocorreu após uma série de ataques realizados pela Ucrânia nos últimos dias contra centros de dados da empresa tecnológica russa Yandex.O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, reconheceu na terça-feira que a empresa estava a atravessar "dificuldades", manifestando
confiança de que conseguiria resolvê-las pelos seus próprios meios.Na reunião participou também o presidente executivo do Sberbank, Herman Gref, numa altura em que o maior banco russo confirmou um novo ataque ucraniano contra um dos seus centros de dados na região de Saratov.O vice-presidente do conselho de administração do banco, Alexander Vediakhin, afirmou à agência Interfax que, apesar do ataque, todos os sistemas funcionam "normalmente" e não foram registadas vítimas



O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel.
Países do Levante, civilizações milenares
Trump na mira dos cartoonistas americanos






Natália Correia
Os acontecimentos são pedras

Num rio que não existe
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
O poema é o grilo
O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.
E o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.
Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.
E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.


0 mundo lisboeta de Natália Correia
Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias. Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.
















