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Edição de botequim.pt  31 Agosto  a 07 Setembro de 2026

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A despudorada  

infantilização dos portugueses


Está a tornar-se despudorada a maneira como os poderes nos tratam, isto é nos manipulam, nos infantilizam, nos exploram. De todo o tipo de poderes: políticos, religiosos, culturais, económicos, informáticos, desportivos, amorosos, burocráticos, etc.

Sob o alibi de modernizarem serviços, retiram suportes existentes pondo os cidadãos a executar tarefas que lhes pertenciam o que, objectivo pretendido, aumenta os seus lucros reduzindo as suas obrigações


A substituição de pessoas por máquinas, a transferência de funções para os utentes (sem compensações para estes, pelo contrário), a retirada de contactos humanos (para esquivarem justificações), os engodos da publicidade (com a colaboração de nomes públicos), as seduções do marketing (sem estremecimentos de verdade) revelam crescente menosprezo pelas populações a iludir, a extorquir.

Imposições de uso de internet, ausência de cadeiras de descanso (dadas as esperas no atendimento) em farmácias, hospitais, aeroportos, bancos, repartições, estações, o acesso (apenas) por marcação a balcões públicos, a inexistência em restaurantes, cafés, snacks de serviço às mesas, os supermercados sem atendimento (humano) nas caixas de pagamento, o mesmo nas bombas de combustíveis, as empresas e instituições com telefonistas substituídas por gravações e músicas insuportáveis, as autarquias a pressionarem os moradores a separar o lixo em sacos de cores diferentes (para metais, papeis, indiferenciados, etc.) apesar de cobrarem exorbitantes taxas e IMIs, tudo isso ante o colaboracionismo de governantes eleitos pelas vítimas para as defender.

Operadoras de televisão (internet, alarmes e afins) refinam engodos ao telefonarem a clientes propondo-lhes (ínfimas) reduções nos tarifários e ofertas de (novas) tralhas sem 

mencionarem que o seu intuito visa a renovação de fidelizações (dois anos!) dos contractos – inaceitáveis em sociedades democráticas.

Cidadãos há a anunciarem já protestos contra os aludidos supermercados, incentivando a não utilizar, se não houver empregados, as maquinetas de pagamentos, e a abandonar os cestos das compras junto às referidas maquinetas. Boa oportunidade para retomarmos o comércio de bairro.

Cereja no bolo: os governos não entregaram, nas últimas décadas, os descontos feitos aos funcionários para a respectiva Caixa Geral de Aposentações, tendo-os desviado (os descontos)para despesas correntes

o que é ilegal e imoral. Se fossem patrões (privados) a faze-lo teriam processos judiciais e arresto de bens.

Para resolverem a situação, essa dívida (milhões de euros) foi transferida para o orçamento do Estado (para todos os contribuintes) e para a Segurança Social (que lhes era alheia), fazendo perigar as prestações resultantes dos descontos dos trabalhadores em vida – os seus actuais e futuros reformados.

Ao mesmo tempo propala-se que as pensões dos aposentados pela Segurança Social estão a ser pagas pelos descontos dos (actuais) activos, insinuando que os primeiros são sustentados pelos segundos, não se cuidando de dizer que as referidas pensões são originárias dos descontos que eles, aposentados, fizeram, juntamente com as empresas onde estiveram, durante a vida. O rendimento desse dinheiro, avisadamente aplicado, seria superior ao das prestações da Segurança Social.

Razão tinha Jorge de Sena quando repetia que o fascismo em Portugal era manhoso e impune, porque aninhado na burocracia e na sacristia - burocracia e sacristia de executivos, de partidos, de empresas, de instituições, de corrupções.

Judeus alemães alarmados com vitória da extrema-direita

A vitória eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxónia-Anhalt gerou fortes reações de alarme na sociedade civil e na comunidade judaica. Com cerca de 44% dos votos e 39 deputados, o partido de extrema-direita ficou a apenas três lugares da maioria absoluta regional, muito à frente da CDU (17,5%) e dos restantes partidos tradicionais.

Principais reações:

Josef Schuster (Conselho Central dos Judeus): Declarou consternação com a hipótese de um partido de extrema-direita liderar um estado alemão e responsabilizou diretamente os eleitores pela escolha.

Charlotte Knobloch (Comunidade Judaica de Munique): Manifestou receio pelo estado da democracia no país, sublinhando que a elevada afluência às urnas (80%) torna a vitória da extrema-direita ainda mais preocupante.

Eva Umlauf (Comité Internacional de Auschwitz): Comparou o momento à ascensão nazi nos anos 1930 e apelou à defesa contínua da memória e dos valores democráticos.

foto Josef Schuster

Alemanha vitória histórica na Saxónia-Anhalt

Extrema-direita  pró-rússia com 43% na Alemanha

O fim do apoio militar e financeiro à Ucránia e aproximação imediata à Rússia são as duas grandes metas  do partido AfD (Alternativa para a Alemanha)  que ganhou as eleições no estado federado da Saxónia, na Alemanha, com 43,8 por cento dos votos. O AfD tem sido acusado com frequência de ser financiado pelo bilionário americano Elon Musk da X, Tesla e SpaceX

Quais são os pontos principais do programa do ADF

Imigração zero e remigração: Defesa do encerramento de fronteiras com controlo físico rigoroso, suspensão total de novos pedidos de asilo e aplicação de programas de repatriação em larga escala de cidadãos estrangeiros sem direito de residência ou condenados por crimes.

Euroceticismo radical e "Dexit": Oposição contínua às diretrizes da União Europeia, propondo o regresso de competências nacionais, a rejeição das dívidas mútuas europeias e, em último caso, a realização de um referendo sobre a saída da Alemanha da UE ou o abandono do Euro.


Reversão total da transição ecológica (Klimawahn): Fim imediato dos subsídios estatais a energias renováveis, cessação das proibições de veículos a combustão e reativação plena das centrais nucleares e a carvão, rejeitando as metas climáticas do Acordo de Paris.

Geopolítica pró-Moscovo e fim de sanções: Fim do apoio militar e financeiro à Ucrânia, normalização total das relações comerciais e energéticas com a Rússia (incluindo o regresso do gás russo barato) e desconfiança face à influência dos EUA e da NATO.

Defesa da identidade cultural tradicional: Rejeição veemente do multiculturalismo e das políticas de identidade de género e promoção do modelo familiar tradicional através de incentivos à natalidade exclusivos para cidadãos de nacionalidade alemã.

A História repete-se e poderá ser copiada por outros?


A Ascensão de Adolf Hitler

Da manipulação da Democracia 

à Ditadura Absoluta

O surgimento e a radicalização (1919–21) 

O Partido Nacional Socialista de Hitler

Após a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, Hitler juntou-se ao insignificante Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP), em Munique. Graças à sua oratória agressiva e populista, assumiu rapidamente o controlo do grupo, transformando-o no Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, ou Partido Nazi). Criou também as SA (Sturmabteilung), forças paramilitares responsáveis por intimidar opositores nas ruas.

A tentativa de golpe e nova  estratégia (1923–25)

Em novembro de 1923, tentou derrubar o governo da Baviera no chamado Putsch da Cervejaria. O golpe fracassou e Hitler foi condenado a prisão, onde redigiu o primeiro volume de Mein Kampf ("A Minha Luta"). Libertado ao fim de apenas nove meses, percebeu que a conquista do poder não seria feita pelas armas, mas sim através dos mecanismos legais da democracia de Weimar.

A Grande Depressão e o sucesso eleitoral 

(1929–32)

O colapso económico global de 1929 mergulhou a Alemanha no desemprego em massa e na miséria. O Partido Nazi explorou o ressentimento popular contra o Tratado de Versalhes, a instabilidade política e o receio da expansão comunista. Com a ajuda da propaganda liderada por Joseph Goebbels, o partido passou de força marginal à maior bancada no parlamento (Reichstag) em 1932.

A chegada a chanceler (30 de janeiro de 1933)

Políticos conservadores e industriais convenceram o envelhecido Presidente Paul von Hindenburg a nomear Hitler chanceler, acreditando ingenuamente que poderiam controlá-lo e conter a ameaça de esquerda.


 O Incêndio do Reichstag

e a suspensão de liberdades (fevereiro de 1933)

Quatro semanas após tomar posse, a 27 de fevereiro de 1933, o edifício do parlamento alemão foi consumido pelas chamas. O regime culpou imediatamente uma conspiração comunista e aproveitou o incidente para aprovar o Decreto do Incêndio do Reichstag. Este decreto suspendeu as liberdades civis básicas (liberdade de imprensa, de reunião e inviolabilidade da correspondência) e autorizou prisões arbitrárias em massa de deputados e ativistas de esquerda.

A Lei de Plenos Poderes e o fim da democracia (março–julho de 1933)

Sob um clima de ameaça e com muitos opositores já encarcerados, o parlamento aprovou a Lei de Plenos Poderes (Ermächtigungsgesetz). Esta lei retirava os poderes ao parlamento e permitia a Hitler governar por decreto, sem necessidade de aprovação legislativa ou constitucional. Nos meses seguintes, todos os outros partidos políticos e sindicatos foram dissolvidos e proibidos, restando apenas o Partido Nazi.

A Noite das Facas Longas e a fusão  (1934)

Entre junho e julho de 1934, Hitler ordenou uma purga sangrenta conhecida como a Noite das Facas Longas, assassinando rivais políticos e a liderança das próprias SA (incluindo Ernst Röhm), garantindo a fidelidade incondicional do exército regular. Pouco depois, com a morte de Hindenburg em agosto de 1934, Hitler aboliu o cargo de presidente e fundiu-o com o de chanceler, proclamando-se Führer (líder) e comandante supremo das forças armadas. O Estado de direito foi definitivamente desmantelado, instaurando-se o regime totalitário do Terceiro Reich.

Um aviso chamado Guernica

Guernica (1937) é o mais contundente manifesto contra a guerra da arte moderna e um aviso da brutalidade anunciada do que viria a ser a política de Hitler. 

Criado em resposta ao bombardeamento nazi da cidade basca homónima, o mural recusa representações literais de armas ou aviões para focar exclusivamente o horror imposto aos civis. Em tons estritos de preto, branco e cinzento, evoca o registo documental da imprensa da época num cenário de caos e claustrofobia.

O seu significado assenta em símbolos viscerais de dor e resistência: A mãe com o filho morto: encarna o luto absoluto e a perda da inocência. 

O cavalo agonizante: representa o povo desmembrado pela violência mecanizada. O touro: traduz a brutalidade cega do autoritarismo e da tirania.

O soldado caído e a flor: no chão desfeito, a espada partida e a flor débil lembram a derrota militar e a ténue esperança de renovação.A lâmpada e a vela: confrontam a tecnologia destrutiva com a luz frágil da verdade e da consciência.

Pablo Picasso Figura cimeira das vanguardas e cofundador do cubismo, Pablo Picasso (1881–1973) revolucionou a pintura ao romper com a perspetiva clássica e fragmentar o espaço. Com Guernica, colocou a sua genialidade formal ao serviço direto do compromisso político antifascista. Numa recusa firme da ditadura, estipulou que a tela só regressaria a Espanha após a restauração plena da democracia — o que se concretizou apenas em 1981, integrando hoje o acervo do Museu Reina Sofia, em Madrid.


Primo Levi: a culpa de ter sobrevivido a  Auschwitz


Primo Levi (1919–1987) é um dos mais conhecidos nomes de Auschwitz e sobreviveu. Era judeu. Primo Levi permanece como uma das vozes mais lúcidas, despidas de ódio e moralmente rigorosas do século XX. O seu legado transcende o mero relato testemunhal: Levi operou como um cientista da alma humana perante a aniquilação deliberada da dignidade.

A Sobrevivência em Auschwitz. Químico de formação e judeu italiano, Levi foi capturado em 1943 enquanto integrava a resistência antifascista e deportado para Auschwitz III (Monowitz) no início de 1944. 

A sua sobrevivência deveu-se a uma combinação improvável de fatores: a sua formação científica permitiu-lhe ser alocado a um laboratório da fábrica de borracha sintética da IG Farben nos meses mais frios de inverno.

A ajuda clandestina de um trabalhador civil italiano (Lorenzo Perrone) que lhe fornecia restos de sopa diários, é preciosa. 

A outra inesperada ajuda será ima crise de escarlatina no momento da evacuação alemã — o que o impediu de marchar nas letais "marchas da morte", acabando libertado pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945.


A Obra: O Olhar Analítico da Memória Levi escreveu não para vingar, mas para compreender. A sua prosa caracteriza-se pela precisão descritiva, despida de histeria retórica:

Se Isto É um Homem (1947): Uma autópsia da desumanização. Levi detalha o sistema concentracionário onde a fome, o trabalho forçado e o frio desmantelavam a identidade do indivíduo até ao limite moral e biológico.

A Trégua (1963): A errática odisseia de regresso à Itália através de uma Europa oriental em ruínas, marcada pelo contraste entre a sobrevivência física e o trauma latente.

Os Afogados e os Sobreviventes (1986): A sua obra teórica definitiva, onde formula o conceito da "zona cinzenta" — o espaço moral ambíguo em que opressores e oprimidos se cruzavam para sobreviver, recusando simplificações maniqueístas do mal absoluto.


A negação do Holocausto

O Fim de Vida e o Peso da Memória A ideia de que Levi morreu "abandonado" no sentido social não corresponde exatamente aos factos, mas reflete com precisão o seu isolamento existencial e intelectual. Em Turim, Levi vivia integrado na família e cuidava da mãe idosa e doente, mas carregava o estigma profundo da culpa do sobrevivente — a angústia de crer que "os melhores não regressaram".

Nos seus últimos anos, o isolamento agravou-se perante a ascensão de correntes negacionistas do Holocausto e a indiferença das novas gerações, que lhe pareciam esquecer a facilidade com que um regime civilizado tomba na barbárie. 

Em abril de 1987, caiu do vão de escadas do seu prédio em Turim, com a investigação a concluir tratar-se de suicídio (embora amigos e biógrafos continuem a debater se foi deliberado ou um acidente provocado por vertigens e medicação). 

Elie Wiesel resumiu o impacto dessa morte afirmando que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois".

A grandeza de Primo Levi reside em ter transformado a experiência do abismo humano num instrumento de conhecimento ético e racional, exigindo a cada leitor a responsabilidade permanente da lucidez.

World Press Cartoons

Quando o Teatro Nacional 

era Amélia Rey Colaço


A terceira inauguração, este mês, do Teatro Nacional, depois do incêndio que o destruiu na década de 60 e da renovação agora terminada, é um acontecimento que, marcante na nossa cultura, chama para primeiro plano o nome da personalidade mais importante dele (e do teatro portugês do século XX), Amélia Rey Colaço que, com o marido Robles Monteiro, o dirigiu durante décadas


Curiosamente a reabertura dá-se com a peça Macbeth, de Shaespeare, a mesma que, no século passado, o queimou. Teria sido, no entanto, mais apropriado faze-lo com um texto portugês dado que ele foi construido por Almeida Garret para "representar com dignidade" dramaturgos nacionais. Razão tinha Bernardo Santareno ao lamentar que "em Portugal representa-se teatro em portugês, não teatro português".

Oriunda de famílias de aristocratas e artistas (o pai era o compositor Alexandre Rey Colaço, professor dos príncipes, a avó, a célebre Madame Reinhardt, com salão literário e musical em Berlim) Amélia recebeu, desde criança, uma formação invulgarmente requintada e diversificada

Ao ver na Alemanha, com 15 anos, os espectáculos de Max Reinhardt, fica fascinada pelo teatro. Em Lisboa tem aulas com Augusto Rosa e, a 17 de Novembro de 1917, estreia-se no teatro República na peça Marinela, escolhida para si. Para fazer a personagem, uma rude vagabunda, aprende, durante meses, a andar descalça e a usar farrapos, no interior do jardim do seu palacete.

Em Dezembro de 1920 casa com o actor Robles Monteiro, um ex-seminarista vindo da Beira Baixa para trocar, a conselho do bispo local (entusiasmado com as suas récitas religiosas), o altar pelo palco.

O casal funda uma companhia própria. Será a mais antiga (durou 53 anos) da Europa. Amélia imprime-lhe um cunho de elegância, de bom gosto, de invenção desconhecidos entre nós. Chama nomes prestigiados para colaborarem consigo, como Raul Lino, Almada Negreiros, Eduardo Malta.

Contrata actores que são ídolos do público (Ângela Pinto, Palmira Bastos, Nascimento Fernandes, Alves da Cunha, Lucília Simões, Estevão Amarante,Maria Matos, Vasco Santana) e revela novos, como Raúl de Carvalho, Álvaro Benamor, Maria Lalande, Assis Pacheco, João Villaret, Augusto de Figueiredo, Paiva Raposo, Pedro Lemos, Eunice, Carmen Dolores, Maria Barroso, João Perry, Madalena Sotto, Helena Felix, Rogério Paulo, José de Castro, Lurdes Norberto, Varela Silva, João Mota.

A sua concepção do que deveria ser uma companhia nacional (inspirada em Almeida Garrett) resultou em pleno. Actuando em vários planos, estruturou, primeiro, uma companhia coesa e disciplinada, metódica e exigente. A seguir, jogou na dignificação social do actor, conquistando para ele um estatuto de superioridade, de elitismo inovador entre nós.

Ao mesmo tempo, organizou um reportório ambicioso, diversificado, alternando contemporâneos com clássicos e abrindo (nisso foi única) as portas à dramaturgia portuguesa, fomentando-a, recompensado-a como ninguém mais fez depois dela.

O incentivo que deu aos nossos autores fe-los conhecer, apesar da Censura e do dirigismo cultural, uma época de oiro. As suas peças não eram representadas fora das épocas altas, dos horários principais, dos espaços nobres, como se tornou depois hábito. Eram representadas com a dignidade, o rigor, o empenho máximos da sua companhia.

Virgínia Vitorino, Armando Vieira Pinto, José Régio, Luis Francisco Rebelo, Bernardo Santareno, Romeu Correia, Miguel Franco são alguns dos que, então, se afirmaram."Nesse período admirável de ressurgimento da nossa dramaturgia são, por exemplo, levados à cena 116 peças de autores nacionais, 63 em estreia absoluta", anota Vitor Pavão dos Santos, para quem a Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro « é a espinha dorsal do teatro português de então» .

Com ousadia revela, por outro lado, o que de mais avançado surge no mundo: Jean Cocteau, Jean Anouih, Lorca, Valle Ínclan, Alejandro Casona, O´Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Pirandello, Eduardo De Filippo, Diego Fabri, Max Firisch, Ionesco, Durrenmatt, Albee, Pinter, Pirandello.

Apaixonada por Brecht, pede ao ministro da Educação (entidade que tutelava Nacional) uma audiência. Quando entra no seu gabinete, o governante diz-lhe: Se vem cá pedir para eu autorizar esses comunistas de que gosta, o Brecht, o Camus, o Sartre, pode meia volta. Amélia pára, dá meia volta e sai. Salazar (perspicaz encenador da política) gostava dela, do seu porte senhoril e grave, da sua firmeza e inteligência. Ficava-se a ouvi-la, quando se deslocava aos ensaios gerais (nunca ia a estreias) com curiosidade, com prazer. Entrava no teatro, sentava-se num camarote e seguia com deleite o espectáculo.

Como poucos, Amélia Rey Colaço sabia aproximar-se e distanciar-se, revelar-se e ocultar-se. O reverso dos aplausos, das benesses, chegar-lhe-ía penosamente à medida que a Companhia se decompunha por incêndios, por bloqueios, por incompreensões, em agonia lenta, densa. «O meio fechou-se", recorda, "os críticos estavam, no final, contra nós".

Em princípios de 1974 regressa ao S. Luis, depois do incêndio no teatro Avenida e de uma estadia (circunstancial) no Capitóleo. O ciclo encerra-se. Pouco depois dá-se o 25 de Abril. Percebendo que os revoltosos a vão encarar como um símbolo do Estado Novo, suspende a Companhia e sai de cena..

Assume, com grande dignidade e discrição, as feridas e imerge no outro lado da ribalta, o do silêncio, o do apagamento. Para trás ficam — o futuro comprovou-o — espectáculos que são ( a Castro, O Processo de Jesus, A Visita da Velha Senhora, Tango) patrimónios preciosos na nossa cultura, na nossa memória.

A sua companhia é oficialmente extinta em 1988, altura em que a actriz se vê obrigada a leiloar o recheio da casa do Dafundo (cedida pela Marquesa do Cadaval) e a abandoná-la. A 8 de Julho morre, em Lisboa, junto da filha, a actriz Mariana Rey Monteiro, que protagonizara a anterior (e trágica) versão de Macbeth.

«Relativamente independente no seio das dependências assumidas", definiu-a Jorge Listopad, "era uma técnica primorosa como artista, controlando com saber a sensibilidade para não transcender as normas do gosto do público da época. Com alguns riscos e rasgos cometidos tornou-se uma lenda já em vida".

Todo o ouro já extraído da crosta terrestre seria insuficiente para pagar a dívida norte-americana. Seriam necessárias sete Nvidias ou cada cidadão norte-americano doar 117 mil dólares.

New York Times "A vingança molda as prioridades do presidente, impulsiona suas ações e estrutura as decisões do seu governo", escreve nossa colunista Jamelle Bouie. "Nenhum lugar é mais aparente do que quando Trump desvia o peso do governo federal contra aqueles americanos que desafiam a sua vontade." https://nyti.ms/4xxjJuv

INACREDITÁVEIS OS ATRASOS NA CP  Fui à Gare do Oriente esperar dois amigos que regressavam de Braga. O comboio estava atrasado. Sentei-me no piso que funciona como sala de espera a tomar um café e foi, então, que despertei para a barafunda que se vive na linha férrea. 

Os altifalantes não se calaram um minuto que fosse anunciando comboios atrasados. Não sei se é epidemia. Não há um raio de um comboio que chegue a horas e o ambiente da sala de espera faz lembrar os sons de um grande arraial informando atrasos. 

É inacreditável.A CP vive em paz com esta barafunda, ou melhor, a administração da CP que deveria zelar pelo serviço que presta aos cidadãos, respira tranquila, ufana e alegre. 

É indigno de um país que quer mostrar-se desenvolvido. E pagamos todos os custos deste desleixo. Não é aceitável.

Lixo à deriva nos oceanos

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. 



Trump alvo preferido dos cartoonistas

Natália Correia

Quanto Mais Amada Mais Desisto


O Espírito

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;
E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.
Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:
Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Quanto Mais Amada Mais Desisto

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

0 mundo lisboeta de  Natália Correia


Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.

Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).

Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.

Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa. 

Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos. 

"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".

O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.

Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor. 

Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.

Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.

O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.

A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.

Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".

Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".

A  autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos DiasNa noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.

Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.


Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.

Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.