BOtEQUIM.pt

Agregar Opiniões, Artes, Letras, Jornalismo, tudo com assinatura

Edição de botequim.pt, 08 de Junho a 12 de Junho de 2026, sujeita a alterações diárias


França chora menina de 12 anos


Os poderosos da Justiça têm os dias contados?

O Povo pode eleger os juízes? 


António Costa, presidente do Conselho Europeu, há dois anos sob suspeita



Porque razão os tribunais comuns têm uma composição diferente do Tribunal Constitucional? Pergunta: a Constituição pode secundarizar o que representa: o interesse dos portugueses? Os juízes devem ser remetidos ao papel mais técnico e assim mais longe da tentação de deuses? Porque razão os juízes não são eleitos pelo Povo com base no seu currículo? 

A discussão está lançada em França e o jornal francês Le Parisien, está a dar eco a esta nova (antiga, segundo Fernão Lopes) de ver a Justiça. 

Em Portugal a Justiça tem sido muito controversa. Como exemplos máximos temos o arrastar de 16 anos do Processo de Sócrates ou a manutenção de António Costa, presidente do Conselho Europeu, sobre suspeição judicial (há já 2 anos), por simples menção ao seu nome em conversa telefónica de terceiros.

Estas serão as portas abertas por Bruno Retailleau,


presidente dos Republicanos e candidato à eleição presidencial de 2027, propõe medidas radicais na sequência do "fiasco judiciário" do caso Lyhanna.

Os povos europeus, Portugal incluído, estão a aderir à proposta da criação de um tribunal disciplinar da judicatura integrado por jurados do povo, destinada a contrariar o corporativismo do Conselho Superior da Magistratura. Esta é a proposta de um francês que está a ganhar cada vez mais adeptos.

O modelo do CSM, embora aplique sanções, é apontado tanto pela proteção excessiva de magistrados como pela perseguição de carreiras, atuando prioritariamente na salvaguarda do próprio sistema e dos interesses instalados. A proposta apresentada por Retailleau merecerá debate alargado e projeta impactos futuros na estrutura judicial nacional.

A reforma visa alinhar a judicatura — que ainda preserva práticas herdadas do Estado Novo — com os parâmetros institucionais exigidos pela Democracia Parlamentar e pelos compromissos internacionais do Estado. ABJ

"A Liberdade guiando o Povo" Eugène Delacroix Museu do Louvre 

Fernão Lopes: defesa da Justiça Popular

O papel de Fernão Lopes é revolucionário na época da crise de 1383–1385 - onde Portugal correu o risco de ser anexado por Castela, ele coloca o povo no centro da história.

Até então, as crónicas medievais focavam-se  nos feitos dos reis e dos nobres. Fernão Lopes inova ao legitimar a ação e a "justiça" da população comum.

A "Arraia-Miúda" como Motor da História

Fernão Lopes cunhou o termo "arraia-miúda" para descrever a população mais baixa - artesãos, mesteirais, camponeses. Nas suas crónicas, este grupo não é uma massa passiva, mas sim o verdadeiro motor da resistência nacional e da defesa do reino.

Legitimação da Revolta Popular: Quando a rainha D. Leonor Teles e a alta nobreza tentam entregar o trono ao rei de Castela, Fernão Lopes descreve a fúria e o levantamento do povo de Lisboa como um ato de justiça legítima. Para o cronista, o povo agiu em legítima defesa da pátria, contra a traição das elites corporativas e aristocráticas.

O Povo como Juiz da Causa Nacional

Na sua Crónica de D. João I, o povo funciona como uma espécie de tribunal coletivo. É a vontade popular, expressa nas ruas e depois institucionalizada nas Cortes de Coimbra de 1385, que decide quem tem a legitimidade para governar e aplicar a justiça no país, elegendo o Mestre de Avis como rei.

Fernão Lopes foi o primeiro a documentar que a base do poder e da justiça de uma nação reside na vontade do seu povo, e não nos privilégios de sangue da corte ou da nobreza.


França zangada 

com a Justiça



Quando a Justiça falha muitas vezes


O Caso da menina Lyhanna

A emoção consecutiva à morte de Lyhanna, de 11 anos, confirmada após a descoberta do seu corpo na véspera num silo de grãos na comuna de Puycasquier (Gers), ainda não acalmou e já se caminha para a busca de eventuais responsabilidades. 

O líder do partido Os Republicanos e candidato à presidência, Bruno Retailleau, denuncia um fiasco judiciário e apela a que se suba na cadeia de responsabilidades, propondo algumas medidas radicais, nomeadamente a reformulação do Conselho Superior da Magistratura ou a independência do Ministério Público.

Como funciona 

o Tribunal Constitucional português ... "eleito" pelo Assembleia da República

O Tribunal Constitucional (TC) português é composto por um colégio de 13 juízes, e o seu método de escolha combina a intervenção do Parlamento com a autonomia dos próprios magistrados, psrs garantir o equilíbrio de sensibilidades e a independência política.

A Divisão dos 13 Juízes

Os 13 juízes que integram o Tribunal Constitucional são escolhidos através de duas vias distintas:

10 Juízes eleitos pela Assembleia da República: São votados diretamente pelos deputados no Parlamento. Para serem eleitos, necessitam de uma maioria qualificada de dois terços dos votos dos deputados presentes. Esta exigência obriga a que os dois maiores partidos (PS e PSD) tenham de negociar e consensualizar os nomes, evitando que um partido no governo escolha juízes sozinho.

3 Juízes cooptados: Estes três magistrados são escolhidos e votados secretamente pelos 10 juízes que já foram eleitos pelo Parlamento. É um mecanismo interno que reforça a independência do tribunal.

O Papel dos Partidos Políticos

Os partidos políticos com assento parlamentar não "nomeiam" juízes diretamente, mas têm o poder de indicar os candidatos que vão a votos na Assembleia da República.

Na prática, existe um escrutínio político e partidário na escolha dos perfis, mas a necessidade de uma maioria de dois terços garante que os nomes indicados sejam figuras de consenso ou com currículos académicos e jurídicos de relevo.

Quem pode ser Juiz do Tribunal Constitucional?

A lei impõe regras estritas sobre quem pode ocupar estes cargos, dividindo as vagas obrigatoriamente por duas origens profissionais:

Juízes de carreira: Pelo menos 6 dos 13 juízes têm de ser obrigatoriamente magistrados provenientes dos restantes tribunais (Tribunais Judiciais, Administrativos ou Fiscais).

Juristas e Académicos: As restantes vagas (no máximo 7) são preenchidas por juristas de mérito reconhecido, habitualmente professores universitários de Direito, advogados ou procuradores.

Duração do Mandato e Incompatibilidades

Mandato de 9 anos: O mandato dos juízes do TC é de 9 anos e não é renovável. Isto garante que um juiz não decida em função de agradar a um partido para ser reeleito. Presidente do TC: O Presidente e o Vice-Presidente do Tribunal Constitucional são eleitos pelos próprios 13 juízes, de entre os seus pares. Exclusividade: Enquanto estão em funções, os juízes não podem exercer qualquer outra atividade pública ou privada (exceto a docência universitária se autorizada) nem desempenhar cargos em partidos políticos.

Ditadura de canudo


Num dos seus estimulantes programas televisivos, Ricardo Araújo Pereira, picando os líderes da CIP e da UGT antes de os reconciliar através do futebol, questionou o representante dos patrões por eles (patrões) serem, segundo as estatísticas, menos escolarizados do que os seus empregados.



Num dos seus estimulantes programas televisivos, Ricardo Araújo Pereira, picando os líderes da CIP e da UGT antes de os reconciliar através do futebol, questionou o representante dos patrões por eles (patrões) serem, segundo as estatísticas, menos escolarizados do que os seus empregados.

Com ironia, o visado lembrou que a competência das pessoas não vem só da instrução, vem também da experiência de vida, da sensibilidade, da imaginação, do bom senso, da perseverança.

RAP utilizou, provocando, um preconceito muito arreigado entre nós, o da superioridade do canudo universitário; preconceito que tem sido excessivamente redutor e, acima de tudo, injusto.

Até porque, e curiosamente, nomes cimeiros da nossa cultura não precisaram de licenciaturas nem de doutoramentos para se excepcionalizarem, nos excepcionalizarem. Fernando Pessoa, Raúl Brandão, Teixeira Gomes (que foi presidente da República), Almada  Negreiros, Natália Correia, José Saramago, Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner, Herberto Hélder, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, Amélia Rey Colaço, entre muitos, muitíssimos outros, não completaram cursos superiores - alguns nem frequentaram sequer universidades o que os esquivou, no dizer de Cesariny, à formatação delas..

Agostinho da Silva, que co-fundou no Brasil algumas universidades (caso da de Brasília) desconcertaria, a propósito,

a Assembleia da República portuguesa numas comemoraçõesdo 25 de Abril - onde fora o orador convidado - ao sublinhar que a pessoa mais sábia que conheci na vida foi uma camponesa analfabeta de Barca Alva, e as mais burras certos professores catedráticos.

Ele reivindicava, aliás, para o evitar, a alteração do nosso ensino, batendo-se pela gratuitidade do universitário para todos, maneira de fazer evoluir o País. Enquanto não o fizermos Portugal não sairá da situação em que se encontra.

O que se assiste é, porém, o contrário disso: propinas caras, abandono dos cursos pelos estudantes, falta de condições de estudo, perda de prestígio, de remunerações condignas (empregos) dos licenciados, deploravelmente empurrados, findos os cursos, para emigrações e caixas de supermercados, sob o pomposo rótulo da geração melhor preparada de sempre (?)

A cultura não serve para mobilar espíritos, serve para os ajudar a pensar, sabe-se. Ao ser um dia entrevistada por uma repórter que, untuosa, insistia em chamar-lhe doutora, Natália Correia explodiu: "Mas a menina ainda não percebeu que eu sou muito, muito mais que doutora? Por favor, não me diminua, basta de ditadura de canudos!

Nova ópera de Luís Tinoco 


libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas, 

Luís Tinoco Relicário Perpétuo
Libreto Luísa Costa Gomes Lisboa | Teatro Camões 10 JUN | 18H00 11 JUN | 20H00 Loulé | Cineteatro Louletano 13 JUN | 21H00 Com André Baleiro, André Henriques, Rodrigo Carreto, Mariana Fabião, Camila Mandillo e Andrea Conangla Direção musical Joana Carneiro Encenação e figurinos Nuno Carinhas Orquestra Sinfónica Portuguesa


Relicário perpétuo

A nova ópera de Luís Tinoco, com libreto de Luísa Costa Gomes e encenação de Nuno Carinhas, propõe um olhar inesperado sobre Camões, afastando-se da solenidade e do peso institucional, para revelar um poeta que, para Luísa Costa Gomes, [...] está vivo porque é lido e não porque está morto e ressequido e é visitado em romagem de saudade. Se ele está vivo, não há saudade nenhuma.

Partindo da descoberta de um Camões lírico, dramático, irónico e até brejeiro, Relicário perpétuo encontra-se entre a ópera bufa e o teatro, combinando humor, reflexão e uma grande pluralidade de influências musicais. Segundo o compositor, Tem momentos em que andei a recuperar desde Flamenco, a Vicente Lusitano, Damião de Góis, Vilancicos anónimos, Samba do Brasil, música tradicional portuguesa, folclore.

A MENINA DOS CINCO OLHOS


Num dos canais televisivos da nossa praça mediática, foi exibido, com pompa, o horrível artefacto com que se puniam os indígenas do nosso Império Colonial.

Não, não era o potro, não era o garrote, não era a vetusta G3: tratava-se de uma palmatória talhada em sólida madeira, instrumento punitivo em tudo semelhante ao que, na metrópole profunda, a regente escolar punia a miudagem "branquela" nas nossas escolas, ditas, à época, de primárias. 

O interior das paredes da sala de aula forradas com os cartazes "A Lição de Salazar, onde se ministrava a literacia do Estado Novo, "ler, escrever e contar." Aos sábados, de manhã, era o dia de a regente, com a sua voz levemente esganiçada, cantar o Hino da Mocidade, seguida de imediato pelo coro desafinado e estridente da miudagem: "Lá vamos, cantando e rindo..."

A regente escolar, que também mais não tinha como habilitações que a quarta classe ou "segundo grau," sem vencimento, remunerada apenas com uma pequena retribuição do Estado, emparceirava com a catequista, que distribuía o correio na porta entreaberta da sua casa, pegada à escola. Sentada num mocho de madeira, grossos óculos pretos encavalitados na ponta do nariz, fitava demoradamente, um a um, os que se iam abeirando, vagarosos e inquietos, na esperança de receber a ansiada carta da África, do Brasil, da França, a reformazita da Caixa.

À medida que distribuía as cartas, recomendava-lhes que não se esquecessem de guardar os selos dos envelopes. Eram para ajudar as Missões na sua nobre tarefa de levar a fé de Cristo e a nossa civilização para a África. E por detrás do altar-mor, guardava, ciosa, não uma palmatória, mas uma caveira para ameaçar a miudagem com as penas do inferno quando se enganava a titubear as orações.

A canalha era, assim, dominada por estas duas mulheres: solteiras; empedernidas; buço negro e espesso do lábio superior a impor o respeito do bigode de um homem; casacos escuros de ombros direitos como um dólman; disciplina como a militar, a que só faltava a ordem unida com toques de clarim; direito ao tratamento de "senhora." Eram o longo braço autoritário do Estado Novo, de Salazar, e da Igreja, de Cerejeira.

E, como se isto não bastasse, havia o frio cortante das manhãs de inverno! Campos esbranquiçados da geada! Árvores rendilhadas com o sincelo! Água gelada nos cântaros!

As brasas, levadas nas escalfetas, cedidas pelo forno comunitário quando havia cozedura do pão, não conseguiam atenuar o torpor doloroso do frio nos pés. 

Só as "sopas de cavalo cansado," feitas de bocados de pão misturados com vinho e uma pitada de açúcar, ou de sal quando não havia o precioso adoçante, inundavam o corpito com alguma réstia de calor. O vinho era o leite das crianças pobres, espremido do xisto. Crianças que iam para a escola de pés descalços, acomodadas em casas cobertas de colmo, de chão de terra batida, enlameada, onde coabitavam com os animais domésticos, que lhes davam alguma réstia de calor. Lá se amontoavam corpos e almas. Não, isto não se passava na África profunda, mas no interior profundo da metrópole.

Pousada na secretária, ameaçadora, a palmatória, a "menina dos cinco olhos:" um longo cabo de madeira rematado por uma roda com cinco orifícios dispostos segundo a ordem das 

cinco quinas da bandeira nacional, habilmente manejada pela regente escolar. Era o terror da miudagem, que, conformada, aguardava, com as mãozitas estendidas, a aplicação das palmatoadas, "os bolos." E ai de quem ousasse subtrair a mão ao certeiro castigo.

O número de "bolos" aplicável em cada mão obedecia a um código bem definido: um por cada erro de ortografia dado no ditado; dois, por quem se enganasse a cantar a tabuada; três a quem se atrevesse a cochichar com o parceiro da carteira ou soltasse algum risinho inoportuno; finalmente, suma gravidade, quatro "bolos" a quem deixasse escapar certos odores que empestavam o ar da sala, que tinha de ser prontamente denunciado pelo companheiro da carteira, sujeito à mesma punição caso não denunciasse o infractor. Como no país, a delação, na sala de aula, estava instituída como uma virtude! E era recompensada!

"Menina dos cinco olhos," que, não obstante as gerações por ela corrigidas ao longo dos tempos, contrariamente à sua congénere africana nunca mereceu uns escassos segundos de exibição nas nossas televisões.

(Albano Dias da Costa é licenciado em Direito e em Filologia Românica, com uma pós-graduação. É autor de obras sobre Linguística Aplicada e sobre a Guerra Colonial, tendo sido agraciado duas vezes com o primeiro Prémio Literário AntigosCombatentes – Memórias Militares instituído pelo Ministério da Defesa Nacional)

A história de Aesha Ash merece o topo do botequim.pt, porque é o contrário feliz da vida dos construtores ordinários de condomínios ; que semeiam guerras em todos os cantos, fazendo subir - de forma deliberada - os preços dos combustiveis, comida e habitação. 

A vida de Aesha Ash testemunho poderoso de resiliência, graça e do uso da arte como ferramenta de transformação social. Ela não só conquistou o seu espaço como bailarina profissional, mas transformou a sua carreira numa missão de representatividade.

Entrar para o prestigiado New York City Ballet (NYCB) é um feito extraordinário para qualquer 

bailarina, mas para Aesha Ash teve um significado duplo. Como uma das poucas mulheres negras na companhia durante os anos 1990 e início dos anos 2000, ela teve de quebrar barreiras invisíveis e combater o preconceito enraizado de que os corpos

negros não possuíam a "linearidade" ou a "delicadeza" exigidas para o balé clássico. A sua técnica irrepreensível provou o contrário nos palcos mais exigentes do mundo.


 O Projeto Sonhos de Cisne

Após reformar-se dos palcos das grandes companhias, Aesha canalizou a sua paixão para o ativismo visual através do The Swan Dreams Project. O objetivo central é desmistificar e democratizar a imagem do balé, mudando a perceção pública sobre as mulheres afro-americanas.

O Impacto Visual: Aesha começou a fotografar-se a si mesma vestida com o clássico tutu e sapatilhas de ponta em cenários urbanos e bairros desfavorecidos da sua cidade natal, Rochester. O contraste visual é intencional e poético.

Mensagem para a Infância: Ao levar a alta cultura para as ruas, ela permite que crianças negras se vejam refletidas num papel de extrema elegância, suavidade e dignidade. O projeto transmite a mensagem de que a beleza e a graça são universais e pertencem a qualquer comunidade, independentemente do contexto socioeconómico.

O Legado de Aesha ASH

Hoje, o trabalho de Aesha Ash vai muito além da fotografia. Ela tornou-se a primeira mulher negra a integrar o corpo docente a tempo inteiro da School of American Ballet (SAB) — a escola oficial do NYCB —, o que lhe permite moldar diretamente o futuro do balé clássico, garantindo que as próximas gerações entrem num ambiente muito mais inclusivo e diverso do que aquele que ela encontrou.


Literatura chinesa em destaque

"Sogro Vermelho" Mo Yan 


a luta da China contra o exército invasor japonês


"Sorgo Vermelho" (Hong Gaoliang Jiazu), publicado em 1986 pelo escritor chinês Mo Yan é uma das obras mais importantes da literatura contemporânea chinesa.

O livro é um romance histórico e uma saga familiar que se passa na província de Shandong (na vila fictícia de Northeast Gaoliang) e estende-se ao longo de várias décadas, concentrando-se principalmente nos anos 1930, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

.

Um livro na primeira pessoa

A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:

Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Um livro na primeira pessoa

A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:

Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Urso de Ouro em Berlim

O livro quebrou os moldes da literatura na China, ao mostrar heróis que eram imperfeitos, violentos e motivados por paixões pessoais. A obra ganhou ainda maior projeção internacional com a icónica adaptação ao cinema em 1987, realizada por Zhang Yimou e protagonizada por Gong Li, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

O realismo mágico

Violência e Crueldade: Mo Yan utiliza um realismo visceral. O livro descreve com detalhe a brutalidade da guerra, execuções, tortura (como o famoso episódio do homem esfolado vivo pelos japoneses) e a fome. Não há romantização da guerra. Apesar da opressão e da tragédia, as personagens transbordam uma paixão primitiva pela vida, pelo sexo, pela terra e pela liberdade.

Mo Yan mistura a crueza histórica com elementos míticos e superstições locais. Os cães da vila tornam-se selvagens e lutam pelos corpos dos mortos; o vinho de sorgo parece ter propriedades de cura e coragem.


O cenário e o simbolismo do sorgo

O sorgo vermelho (um cereal muito comum na China) não é apenas o cenário onde a história se passa; é o elemento central e simbólico de todo o livro. Ele representa a própria essência do povo chinês daquela região: rústico, resistente, violento e indomável. É no meio dos campos de sorgo que as personagens amam, lutam, escondem-se e morrem. O sorgo também é a matéria-prima para o famoso vinho local, que ganha contornos misticos na história.

.

A invasão japonesa

A trama começa com o casamento arranjado de Dai Fenglian com o filho leproso do dono de uma destilaria de sorgo. Durante a procissão do casamento através dos campos de sorgo, ela conhece Yu Zhan'ao, um dos carregadores da sua liteira. Há uma atração imediata.

Pouco tempo depois, o marido leproso e o sogro de Dai Fenglian são misteriosamente assassinados (subentendendo-se que o autor foi Yu Zhan'ao). Dai Fenglian assume o controlo da destilaria. Yu Zhan'ao junta-se a ela, e os dois tornam-se os patriarcas da família, gerando o pai do narrador.

A vida de crime e a gestão da destilaria são brutalmente interrompidas pela invasão do exército imperial japonês. A partir daí, o livro transforma-se numa crónica de guerra sangrenta. Yu Zhan'ao organiza uma milícia local de camponeses e bandidos para combater os invasores japoneses através de táticas de guerrilha nos campos de sorgo.


 O que o silêncio torna legível


Sobre o espaço, a atenção e o valor expressivo da ausência

Num presente saturado de imagens e marcado pela solicitação incessante da atenção, o silêncio adquire urgência crítica.Numa cultura visual orientada para o impacto, importa voltar a pensar aquilo que abranda, depura e torna legível. 


É nesse quadro que se torna necessário reconhecer o silêncio como matéria expressiva. Tal como a vírgula, na poesia, não é apenas um sinal de pontuação, mas um elemento de ritmo e de pensamento, também o branco, no desenho, não é um "fundo" neutro: é campo ativo, orientação do olhar, lugar onde a forma se evidencia. O silêncio, nesses termos, não é ausência; é uma escolha refletida que organiza hierarquias, cria expectativas e torna possível a clareza.


Pensar o silêncio implica reconhecê-lo como uma realidade simultaneamente material e conceptual. Aquilo que não se apresenta como enunciado ou forma explícita pode, ainda assim, operar como condição de inteligibilidade: um intervalo que estrutura o sentido e convoca a interpretação.

No domínio artístico, o silêncio converte-se, assim, numa gramática transversal que organiza tempo, espaço e atenção. Na música, a pausa não é um interstício neutro: regula o ritmo, desenha o fraseado, cria expectativa e pode tornar-se proposição estética autónoma, como em 4'33'' (1952), de John Cage, onde a escuta se desloca do som intencional para a consciência do próprio ato de ouvir.

https://www.youtube.com/watch?v=AWVUp12XPpU ou

https://www.youtube.com/watch?v=JTEFKFiXSx4


Na poesia, o silêncio manifesta-se no não-dito, na elipse e no branco tipográfico, nesses intervalos que sustentam a ambiguidade e abrem uma clareira contemplativa. Em Sophia de Mello Breyner, o silêncio surge como limiar de atenção e de reconhecimento: lugar onde a consciência se afina e onde cada gesto ganha uma solenidade que é, ao mesmo tempo, lucidez.

Mesmo na literatura infantil, o silêncio pode constituir uma experiência formativa. Em O Vazio (2014), de Catarina Sobral, a lacuna narrada transforma-se em possibilidade, ensinando que a ausência pode ser habitada e convertida em criatividade. 

Noutro plano, O Ser e o Nada (1943), de Jean-Paul Sartre, oferece um enquadramento decisivo ao pensar o vazio não como inexistência, mas como estrutura da consciência: condição de liberdade, de escolha e de criação de sentido.

Nas artes visuais, este silêncio estrutural manifesta-se como economia formal e exigência de um olhar desacelerado. Em Suprematist Composition: White on White (1918), Kazimir Malevich reduz a pintura a diferenças quase impercetíveis 

entre figura e fundo; o branco deixa de ser neutro e passa a ser campo ativo de tensão, onde a forma só se revela a quem aceita demorar-se. (Imagem01).

Na escultura, Miguel Ângelo parte da pedra bruta e, pelo cinzel e pelo malhete, constrói por subtração. É do que retira, do que "não fica", da leitura da ausência, que, na Pietà (1499), emerge a forma triangular e o seu silêncio interno. O vazio entre os corpos, as concavidades do drapeado e a geometria contida da composição tornam a emoção plenamente legível. (Imagem02)

Por fim, no design, campo a que tenho dedicado os últimos trinta anos, compreendo o silêncio do espaço como matéria rigorosa: contenção, respiro visual, áreas livres que não "sobram", mas que sustentam.

 

O silêncio é, aqui, forma e recorte; não ausência, mas operação de estabilização do mundo sensível. Funciona como moldura que revela, não que adorna, permitindo que o sentido se organize não por acumulação, mas por depuração, como se observa da capa do livro Princípios da Arte Neoplástica, do artista Theo van Doesburg, 1919. 

(imagem 2)

Quando o silêncio se torna espaço, instala-se no centro da forma como respiração invisível que regula a distância entre os elementos e restitui ao olhar a sua capacidade de distinguir. Assim compreendido, o silêncio reconfigura a perceção, disciplina a atenção e faz do que não se diz, ou não se mostra, um princípio ativo de significado, abertura e criação.

"ESPÓLIO" 

Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta


António Gedeão

"Podemos soçobrar como País"

«Encontramo-nos num tempo de fuga à realidade, de alheamento dela. Podemos soçobrar como País. Sempre fomos sujeitos a grandes pressões do estrangeiro, sempre estivemos dependentes do exterior. Tivemos um grande papel na época dos Descobrimentos mas quem se aproveitou deles foram os outros, não soubemos tirar proveito do que descobrimos. 

Ficámos sempre pobrezinhos. Fomos sempre utilizados pelos outros, colonizados pelos outros. Tivemos o salazarismo porque lá fora havia o nazismo, o fascismo. Descolonizámos porque os outros descolonizaram, temos a democracia porque os outros a têm, construímos auto-estradas porque os outros as constróem.

«Se amanhã os outros mudarem nós também mudamos. Se evoluírem num outro sentido nós também evoluiremos nesse sentido. Com atraso. Não temos respeito por nós próprios. Desconsideramo-nos bastante. Inferiorizados pelos estrangeiros, passamos a reverenciá-los e a amesquinhar-nos. Basta ver o que sucede com a língua portuguesa. Está a ser cada vez mais dominada por expressões alheias. Nas paredes do meu bairro os rapazinhos escrevem António love Francisca, Manuel love Anita. É impressionante! No passado foi o francês, agora é o inglês a invadir-nos. É um provincianismo incrível.

«Há uma grande incultura, sobretudo a nível político, literário e histórico. Há dias ouvi na televisão um professor dizer que um aluno seu julgava que Salazar tinha sido o último rei de Portugal. As televisões são as maiores culpadas pela desordem das mentalidades existente. Para conseguirem publicidade descem a tudo. O que é preciso é dinheiro, dinheiro. Quanto mais canais houver, pior.

« Passam-se coisas inquietantes a que ninguém está a dar a devida atenção. É o caso da acumulação de riqueza por elites cada vez mais restritas e poderosas (de indivíduos, de empresas, de estados) gerando pobreza generalizada, isto é maiores fossos sociais, o que a regra dos vasos comuniantes explica, fossos agravados no pós 25 de Abril; é o caso da desregulação demográfica, tornada gravíssima. 

Enquanto houver excesso de população a poluição é imparável. E o desemprego. E a pobreza. O dramático é que os poderes instituídos não querem pôr em causa uma questão destas, pelo contrário, apelam a maiores natalidades mas não dão condições às pessoas para isso. Veja-se como a Igreja continua a opor-se à redução das populações, como o Vaticano prega aos miseráveis para se reproduzirem. Não tenho esperança no futuro desta sociedade. Estamos num beco sem saída.

«Escrevi a Pedra filosofal que o Manuel Freire divulgou numa altura em que pensei no suicídio. Deprimido, resolvi então reagir e inventar-me optimista. Fiz esse poema. Talvez por isso ele teve êxito».

( "ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta)


Biografia

António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906-1997) foi um dos grandes poetas e cientistas do século XX português, através de uma obra originalíssima onde se concilia o científico com o

 poético, o humanismo com o social, de maneira surpreendentemente inovadora e sedutora.

Professor de Física e Química no ensino secundário (a sua independência impediu de sê-lo no universitário, levando-o a pedir a demissão no Verão Quente de 75) viu mais tarde a data do seu nascimento, 24 de Novembro, ser instituída como o Dia Nacional da Cultura Científica entre nós.

Dos diversos títulos publicados destacam-se, entre outros, o Movimento Perpétuo e Poemas Póstumos (poesia), Teatro do Mundo e Máquina de Fogo (teatro), A Astronomia em Portugal e História da Biblioteca Nacional (ensaios); as suas obras de referência, pela popularidade e inovação, vão para Lágrima de Preta, Calçada de Carriche e A Pedra Filosofal, esta tornada um hino galvanizador: "Eles não sabem que o sonho/ é uma constante da vida/tão concreta e definida/como outra coisa qualquer (…) Sempre que um homem sonha/ a vida pula e avança/ como bola de cristal nos pés de uma criança…"

Fernando Dacosta

Aguarelas da Rainha Dona Amélia em exposição


É uma excelente notícia: algumas das mais belas aguarelas de Portugal, feitas pela Rainha Dona Amélia, estão agora patentes numa grande exposição neste Palácio de Vila Viçosa até Agosto. É a altura de serem vistas antes de serem de novo guardadas nas salas frias do palácio, rodeadas de silêncio.

Estas obras foram executadas em papel de excelente gramagem, utilizando aguarela luminosa e guache para os pormenores mais densos. Os formatos variam entre pequenos esboços de viagem e folhas médias de álbum, mas o traço é sempre firme. A rainha pintou a planície alentejana com traços limpos, capturando a luz dourada, as casas caiadas de branco, os olivais e a solidão dos montes. 

Entre estas imagens da planície, destaca-se uma aguarela invulgar e sombria, onde a rainha pintou um velho moinho de vento abandonado sob um céu carregado de tempestade; os tons cinzentos e violetas rompem com a habitual luminosidade alentejana, revelando uma densidade psicológica incomum e um traço carregado de melancolia. 

Fixou também no papel o património histórico e monumental do país, registando com rigor arqueológico capelas antigas, 

e a própria Custódia de Belém, detalhada joia a joia na transparência da tinta.

O seu marido, Dom Carlos, também pintava. Era um homem forte que conhecia o mar. Ela era uma mulher difícil para o seu 

tempo, dona do iate real que levava o seu nome. Este ano marcou os 165 anos do seu nascimento. Os interessados em coisas autênticas devem aproveitar este momento para poderem ver estas obras.

Nessa altura, fora do palácio, só poderão ser vistas algumas raras aguarelas da Rainha Dona Amélia no Museu Luciano de Castro, na Anadia. Este museu reúne um espólio muito particular ligado a figuras históricas da monarquia e do final do século XIX, conservando entre as suas relíquias algumas obras e registos artísticos da autoria da própria rainha.

A China em português


Estes livros são fundamentais para entender a China do século XX e XXI. A China é hoje também uma fascinante  "potência" literária:

"Viver" (Yu Hua): Um dos livros mais emocionantes da literatura mundial. Acompanha a vida de um camponês através da guerra civil, da fome e da Revolução Cultural. Editora em PT: Relógio D'Água.

"Sorgo Vermelho" (Mo Yan): Obra do Prémio Nobel que mistura lendas familiares com a invasão japonesa. É uma escrita visual e poderosa. Editora em PT: Cavalo de Ferro / Porto Editora.

"A República do Vinho" (Mo Yan): Uma sátira bizarra e surreal sobre a corrupção e a obsessão pela comida na China.Editora em PT: Cavalo de Ferro.

"Servir o Povo" (Yan Lianke): Uma sátira proibida na China que mistura política e erotismo durante a era de Mao Zedong. Editora em PT: Sextante Editora.

"O Problema dos Três Corpos" (Liu Cixin): O primeiro volume de uma trilogia épica que começa na Revolução Cultural e termina no fim do universo. Editora em PT/BR: Relógio D'Água / Suma.

"A Floresta Sombria" e "O Fim da Morte" (Liu Cixin): As sequelas do livro acima, também publicadas em português.

"O Sonho da Câmara Vermelha" (Cao Xueqin): A maior obra-prima da literatura clássica chinesa. Existe uma edição monumental traduzida diretamente para português. Editora: Assírio & Alvim (Edição em dois volumes).

"Antologia da Poesia Chinesa": Existem várias seleções, mas a traduzida por Bento Itamar ou as edições da Assírio & Alvim são excelentes para conhecer poetas como Li Bai e Du Fu.

"Diário de um Louco" (Lu Xun): Contos curtos que mudaram a história da China no início do século XX. Editora em PT: Antígona.

"Desejo, Cuidado" (Eileen Chang): Contos sobre espionagem e amor na Xangai ocupada pelos japoneses. Editora em PT: Relógio D'Água.

"A Rapariga de Xangai" (Wei Hui): Um livro que causou escândalo na China pelo retrato da vida boémia, sexo e drogas da juventude moderna. Editora em PT: Presença.

Mo Yan: o camponês que se tornou Nobel


Mo Yan, pseudónimo de Guan Moye que significa "Não Fales", é o maior expoente do realismo alucinatório contemporâneo. Nascido numa zona rural da província de Shandong, a sua infância foi marcada pela fome e pela dureza da Revolução Cultural, 

experiências que moldaram a sua escrita crua e sensorial. Em 2012, tornou-se o primeiro cidadão chinês a receber o Prémio Nobel da Literatura,consagrando uma obra que funde a história da China com contos populares e o surreal.

O seu estilo é uma explosão de imagens, onde o passado e o presente se misturam em narrativasépicas. Em "Sorgo Vermelho", retrata a resistência à invasão japonesa com uma vivacidade visceral, enquanto em "As Baladas do Ajo" e "A República do Vinho" utiliza a sátira e o grotesco para criticar a corrupção e os traumas sociais. Mo Yan transforma o sofrimento da sua terra natal numa mitologia universal, onde a brutalidade e a beleza coexistem de forma inseparável.

Maria Ramalho "quer destruir a Segurança Social"

cartoon de Leart

.


cartoon Thiago Aguiar

Cartoonistas 'a bombardear' Trump

 O triste Código Laboral


.

O JUIZ IVO ROSA


Ivo Rosa, no @jornalexpresso "Tendo em conta todos os inquéritos que o MP abriu em relação à minha pessoa, pelo menos sete deles visavam a sindicância de atos de judicatura pela via criminal — e não pela via de recurso. Se o MP não fica satisfeito com uma decisão, não pode abrir um processo-crime ao juiz por este ter aplicado o direito num sentido com o qual não concorda. 

Se um juiz que está a decidir tem de ponderar se o MP vai gostar, sob pena de ser alvo de um processo-crime, então vai decidir no sentido contrário só para não ter problemas. Tudo o que vá para além do escrutínio normal por via de recurso é um atentado ao Estado de direito.

"Se Ivo Rosa dirigiu a carta que dirigiu ao PR e ao PAR, sendo evidente há muito, e agora de forma flagrante, que está em causa o Estado de direito, espera-se que o PR faça algo, que chame o PGR a Belém, que chame o PM para falar sobre o tema politico em causa, que se pronuncie, que o PAR distribua a carta aos grupos parlamentares para as medidas que cada um tenha por convenientes, espera-se que o PAR também se pronuncie.

Senhor Padre

— Sr. Padre! Sr. Padre! Acorde, Santo Deus! Subiram as escadas que iam do adro para a casa do vigário, no primeiro andar por cima da igreja, e bateram à porta. Cinco pancadas compassadas, repetidas por duas vezes. Sem esperar que o Padre assomasse, abriram-na. Todos os paroquianos sabiam onde estava a chave do salão paroquial. 

Atravessaram por entre as cadeiras de madeira onde descansavam os bandolins, os bandoloncelos e as violas de arco, tropeçaram em livros e jornais, e empurraram devagar a porta que ligava o salão à casa do Padre. Do lado esquerdo, a cozinha, vazia, e, em frente, a porta do quarto, fechada. — Padre Martins! 

.

Acuda-nos, Sr. Vigário!Sabia-se que o Sr. Padre não abria a porta do quarto a ninguém. O povo da Ribeira Seca, como o de qualquer aldeia, era dado a falar, mas o quarto fechado do Padre, que conhecia todas as casas da aldeia — e nelas sempre mesa posta, à sua espera —, não despertava qualquer 

curiosidade.Nessa noite, como era hábito, Martins tinha idotarde para a cama. Era noctívago, gostava do silêncio e do escuro da noite — nessas horas compunha as músicas, pensava os sermões e escrevia alguma poesia.

As missas da alvorada, as das sete da manhã, a que nunca faltou, custavam-lhe. Ia cheio de sono, enrolando um pouco mais as palavras, já desmaiadas pela pronúncia de Machico.Ainda na cama ouviu o chilrar do melro preto.

Assim se diz na Madeira do gorjear deste pássaro negro, que começava a cantarolar em fevereiro, no fim do inverno. Desfrutava da companhia do pássaro, que poisava no parapeito da sua varanda. Abertura de O Canto do Melro, a Vida do Padre Martins, romance histórico que escrevi sobre Portugal, a ditadura, a revolução e o pós 25 de Novembro, sobre o meu amigo, o Padre José Martins. (Bertrand). 

Os homens abstêm-se 

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.

Mia CoutoVozes Anoitecidas

"Dói-te alguma coisa?-Dói-me a vida, doutor.(...) -E o que fazes quando te assaltam essas dores?-O melhor que sei fazer, excelência.-E o que é?-É sonhar."

world press cartoon

BY Elena Ospina

By MACKINNON

By Simanca

By MACKINNON

Os meninos pobres serão bailarinos


Menina carrega irmã em busca de auxilio

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 


Líbano arrasado por Isra3


A China já está no futuro

Natália Correia: Cântico do País emerso

Métrica certinha? Nunca a tive. Sou livre como o vento que me gera. Sou uma alma antiga que ainda vive À espera de encontrar a Primavera.

Tenho olhos de lenda e de mistério, Uma boca de fogo e de pecado, E trago no meu peito um império Que há muito tempo foi desmoronado.

Sou a bruxa, a sibila, a feiticeira, Que lê no xisto a sorte do destino, Sou a insubmissa, a verdadeira, Que tem a força de um clamor divino


Se de mim nada ficar que te mereça, nem a pressa de rir que me traías, nem a frescura azul das minhas mãos vazias, nem esta forma de amar que te entristeça;
Se de mim nada ficar que te recorde a grande nau que fomos no oceano, nem este fumo triste do engano, nem a canção que o teu silêncio morde;
Se de mim nada ficar que te console, nem a herança dos sóis que te prometo, nem o segredo do meu verso inquieto, nem este luar que na minh'alma bole;
Fica ao menos a terra onde nascemos, este cais de partida e de regresso, este império do mar que não tivemos, este fado de um povo que está preso.
Fica a pátria que fomos na viagem, a grande sombra azul do que vivemos, e este sabor a sal e a maresia de um país que na alma concebemos.