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Edição de 02 Março de 2026, com actualizações diárias

Editorial  Cidadãos do mundo


Ainda ninguém é tão globalizado que possa impor-se como cidadão do mundo, embora muitos se julguem, se afirmem detentores de tão excessivo cosmopolitismo. É que todos somos, antes de mais nada, cidadãos circunstanciais, na expressão de Agostinho da Silva, e é no sê-lo que reside a nossa genuinidade, logo "a nossa universalidade".

A assunção dos caboucos (geográficos, culturais, identitários) de uma pessoa são mais valias cuja rejeição não enobrecem.

O mesmo Agostinho, sempre orgulhoso da sua nortenha Barca de Alva (onde passara, moldara a infância), jamais desculpou aos amigos António Sérgio e Almada Negreiros o terem vergonha de serem naturais da Índia, o primeiro, e de São Tomé e Príncipe, o segundo, jurando-se ambos alfacinhas. Almada, mestiço de pele, insultava inimigos (caso do sofisticadíssimo Júlio Dantas) de preto, de cigano, de marmelada, de ignorante. O nojo pela pátria, no sentido de terra, de húmus é, 

aliás, pecha do nosso irremediável, incomensurável provincianismo.

Curiosíssima se torna, a propósito, a observação do autor de Conversas Vadias sobre as raízes de cada um: A vida de um homem deve contar-se a partir de 25 anos antes do seu nascimento, pois o ambiente em que ele nasce forma-se por uma série de acontecimentos anteriores que criam a atmosfera moral onde o seu espírito se molda e evolui". Imersos hoje na desnatadeira da CE, 

vale a pena reflectir sobre temas destes a fim de não sermos liquefeitos de vez pelas maquinetas formatizadoras dos tais cidadãos do mundo, isto é, cidadãos de pastagens massificadas, 

que disso trata - um pomposo internacionalismo (político, económico, artístico, informativo, educacional, intelectual, comportamental) com que nos descaracterizam, nos descaracterizamos."Quem não pertence a um lugar, não pertence ao mundo!", exclamava Natália Correia.

Nova York: protestos contra bombardeamento do Irão

guerra só serve Netanyahu 

acusam os manifestantes


Trump e Netan reacendem caos no Médio Oriente

Martha G. Alves

No Irão, as crianças de Minab já não têm escola; o que resta são escombros de tijolo e o silêncio aterrador de 85 alunas cujas vidas foram apagadas entre cadernos de exercícios e pó. Mais um horror assinado por Trump. No Dubai, o brilho do vidro e do aço foi quebrado pelo estrondo de mísseis intercetados, e o ar, antes perfumado a luxo e comércio, cheira agora  a pólvora e a medo.

No aeroporto internacional, as multidões sentam-se no chão, não à espera de férias, mas de um sinal de que o mundo não vai explodir antes do próximo voo.
Olhei para as imagens de Teerão: são vultos cinzentos que correm sob um céu laranja, fugindo de alvos que os generais chamam de 'estratégicos', mas que são apenas a casa, a rua e o fim de quem lá vive.

Os comunicados de Washington e T3lavive falam em 'eliminar ameaças' e 'precisão iminente', mas não há precisão que console uma mãe sobre o corpo de um filho. Isra3l nuclear reclama a necessidade de parar o átomo iraniano antes que seja tarde demais. E o Irão responde com uma chuva de metal sobre o Golfo e Isra3l, dizendo que a sua soberania não se negoceia.
É esta a vitória? 

O Dubai com voos suspensos e sirenes no porto de Jebel Ali? Israel sob o som das explosões? A guerra, vista daqui, não é um jogo de xadrez entre líderes protegidos em 'bunkers'.  É a história de pessoas comuns transformadas em danos colaterais pela teimosia de homens que confundem poder com civilização, subesc frevendo teorias messeânicas. Se aceitarmos garantir a paz, bombardeando a infância alheia, perdemos a dignidade humana. 

Martha G. Alves

Quem são os grandes escritores do Irão


A literatura é a espinha dorsal da identidade persa, actual Irão, em em qualquer casa iraniana, desde a mais humilde à mais abastada, há um exemplar de o Divan de Hafez (século XIV).Hafez de Shiraz não é apenas um poeta; é um oráculo. Os iranianos praticam o Fal-e Hafez, abrindo o seu livro ao acaso para ler o destino. Ferdowsi é o outro pilar, autor do Shahnameh (Livro dos Reis), a epopeia que salvou a língua persa da extinção.

Atualmente, há vozes que dominam as tabelas de vendas e a atenção internacional: Marjane Satrapi: A sua novela gráfica Persepolis é, sem dúvida, a obra de origem iraniana mais lida e popular em todo o mundo nas últimas décadas.

Zoya Pirzad: Extremamente popular no Irão, especialmente entre o público feminino, pela sua escrita delicada sobre a vida quotidiana e doméstica (ex: I Will Turn Off the Lights). Reza Amirkhani: Um dos autores mais vendidos dentro do Irão atual, conhecido por obras que exploram temas sociais e religiosos com uma linguagem moderna. Em resumo escolhemos para a alma Hafez, para o intelecto Sadegh Hedayat. pela grandiosidade Mahmoud Dowlatabadi.

O Mais Influente da Prosa Moderna

Na literatura moderna e daquele que definiu o romance iraniano contemporâneo, o nome é Sadegh Hedayat (1903–1951). A sua obra-prima, A Coruja Cega (The Blind Owl), é considerada o melhor romance iraniano de sempre. É uma obra sombria, surrealista e existencialista que influenciou todas as gerações seguintes. Hedayat é para o Irão o que Kafka é para o Ocidente.

O "Gigante" Vivo  e candidato a Nobel

O escritor vivo mais respeitado e frequentemente apontado como candidato ao Nobel é Mahmoud Dowlatabadi. É o autor de Kelidar, um romance épico de 10 volumes (mais de 3000 páginas) sobre a vida rural e a luta de um herói nómada. Dowlatabadi é amado pela sua escrita densa, realista e profundamente ligada à terra e ao povo iraniano.

"Eu desligo as luzes" Zoya Pirzad


Zoya Pirzad (iraniana-arménia) é uma das vozes mais delicadas e influentes da literatura iraniana contemporânea. A sua obra, escrita de forma simples e quase minimalista, foca-se no quotidiano invisível das mulheres, explorando as tensões entre os desejos individuais e as pesadas expectativas sociais.

O seu estilo é comparado ao de um "haiku": não se perde em grandes dramas épicos, mas encontra a alma nas pequenas coisas — o cheiro do café, o barulho das crianças, o silêncio de uma casa arrumada. 

A sua obra-prima, Eu Desligo as Luzes (publicada em Portugal como Coisas que Deixámos por Dizer), retrata Clarice, uma dona de casa em Abadan nos anos 60, cujo mundo interior começa a despertar através de pequenos detalhes do dia a dia.

Eu Desligo as Luzes 

"Entrei e tranquei a porta atrás de mim. Em Abadan, ninguém trancava a porta a meio do dia; eu só o fazia quando queria ter a certeza de que estava sozinha. O meu gosto pela autocrítica fez-me questionar isto mais do que uma vez: o que tem o trancar da porta a ver com o estar sozinha? Ao que eu respondia sempre: não sei. Encostei-me à porta e fechei os olhos. Depois da luz intensa e do calor lá fora, e do barulho das crianças, o claro-escuro fresco e silencioso da casa era adorável. Deixei-me ficar ali, sentindo a paz das coisas imóveis, como se o tempo pudesse parar apenas porque eu assim o decidi."

Bombardeamento mata 115 crianças em escola do Irão

9 países com bombas nucleares, incluindo Paquistão e Isra3l

Estes países testaram armas nucleares antes de 1967 e são os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: Estados Unidos: O primeiro país a desenvolver e o único a utilizar armas nucleares em guerra. Rússia: Herdou o vasto arsenal da União Soviética; detém atualmente o maior número de ogivas do mundo. Reino Unido: Mantém uma força de dissuasão baseada exclusivamente em submarinos (sistema Trident). França: Possui um arsenal independente, focado na doutrina de "dissuasão estrita".

China: Tem expandido e modernizado o seu arsenal rapidamente nos últimos anos. Índia: Desenvolveu o programa em resposta a ameaças regionais; realizou testes declarados em 1974 e 1998. Paquistão: Iniciou o seu programa como contrapartida direta ao arsenal da Índia. Coreia do Norte: O único país a retirar-se do TNP para realizar testes nucleares (o primeiro em 2006)  significativo.

Isra3l: Mantém uma política de "ambiguidade opaca". Nunca confirmou nem negou ter a bomba, mas é amplamente aceite pela comunidade internacional e serviços de inteligência que possui um arsenal

A diferença entre Islâmicos Xiitas e Sunitas


A principal divergência entre Sunitas e Xhiitas remonta ao ano 632 d.C., após a morte do Profeta Maomé, centrando-se na questão da sucessão política e espiritual do Islão.

Os Sunitas, que representam cerca de 85% a 90% dos muçulmanos, defendiam que o líder (Califa) deveria ser escolhido por consenso entre os membros da comunidade, independentemente da linhagem direta. Seguem a Sunna, o conjunto de tradições e práticas do Profeta.

Por outro lado, os Xiitas (de Shiat Ali, ou "Partido de Ali") acreditavam que a liderança pertencia exclusivamente à família de Maomé, defendendo que o seu primo e genro, Ali ibn Abi Talib, era o sucessor legítimo designado por vontade divina. Para os Xhiitas, os líderes são os Imãs, figuras que possuem uma autoridade espiritual infalível e descendem diretamente do Profeta.

Os Sunitas enfatizam a autoridade da lei e do consenso, os Xhiitas dão grande importância ao martírio e ao sofrimento, especialmente personificados na figura de Husayn, neto de Maomé, cuja morte em Karbala é o marco central da sua identidade. Geograficamente, a maioria do mundo islâmico é sunita, enquanto os xhiitas são a maioria no Irão, Iraque, Azerbaijão e Bahrein. Atualmente, estas diferenças são frequentemente instrumentalizadas em tensões geopolíticas regionais, embora ambos partilhem os pilares fundamentais da fé, como o Alcorão e a crença num único Deus.

Afinal a História volta atrás - Invasão do Iraque foi há 23 anos com base numa mentira

Turquia é o senhor que se segue


Já temos um novo Iraque, chama-se Irão; 23 anos depois da mentira de Bush, Barroso, Aznar e Blair na Cimeira da Base das Lages, a 13 de Março de 2003. Disseram então: o Iraque tem armas químicas! Mas não tinha. E avançaram para a guerra sem uma palavrinha sequer à ONU.

É importante frisar que os Estados Unidos têm baseado a sua economia na indústria militar. E despejam munições nos países dos outros para dar emprego a 2,5 milhões de americanos e encher os bolsos dos patrões da Lockh2ed Martin, RTX Corporat7on, Northrop Grumm0n, Boein-g, Gen3ral Dynamics, L3Harr5s Technologies, Huntingt0n Ing3lls Industries, General Atomicx2a.

Sem estas "descargas", muitas linhas de produção dos EUA seriam inviáveis. Esta grande lata é antiga. É anterior à Segunda Guerra Mundial, e tem sido fatal para uma Europa próspera e poderosa. Em 1945 até impingiram o Plano Marshall à Europa. Salazar foi esperto e recusou. Mas qual foi a pior "prenda" dos EUA aos europeus? Os 400.000 veículos Studebaker enviados para Moscovo. 

Foi assim que as tropas de Estaline chegaram em grande estilo a Berlim e ao mesmo tempo dos aliados, graças a uma ordem do presidente Dwight D. Eisenhower, que mandou as tropas aliadas esperarem pelos soviéticos. Dois. oelho numa única cajadada: Poupou 80 mil mortes de soldados americanos e cortou a Europa ao meio, tornando-a dependente dos EUA, até hoje.

Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, os EUA alimentaram o papão da Guerra Fria, um embuste que John Le Carré desarticulou no livro A Casa da Rússia.

Agora, o alvo dos americanos para gastar materil bélico é o Irão. É até aproveitam para fazer mais um frete a Netan, que tem Trump preso pelo rabo no Caso Epstein. 

E perguntamos: acontece o quê quando o Irão estiver em cinzas tal como Gaza, Síria, Líbano, a Líbia, Iraque e Afeganistão? Passam à Turquia, a pedido do senhor Netan, claro!  josé ramos e ramos

Quando o presidente EUA Eisenhower volta atrás

Cuidado "com complexo militar-industrial" 


Parece incrível que Eisenhower, o estratega que permitiu a divisão da Europa e alimentou a expansão da indústria bélica, tenha deixado um aviso tão contundente. Foi a 17 de janeiro de 1961, num discurso de despedida proferido a partir da Casa Branca, que o antigo general surpreendeu o mundo. Ele, que foi o obreiro da supremacia militar, alertou para os perigos do complexo militar-industrial, denunciando a influência desastrosa de um poder mal colocado. Esta contradição histórica marca o fim de um mandato onde o futuro do continente europeu foi selado sob a sombra do armamento.

O discurso:

"Esta conjunção de um imenso sistema militar e de uma grande indústria de armamento é nova na experiência americana. A influência total — económica, política, até espiritual — sente-se em cada cidade, em cada assembleia estadual, em cada gabinete do governo federal. 

Reconhecemos a necessidade imperativa deste desenvolvimento. No entanto, não devemos deixar de compreender as suas graves implicações. O nosso trabalho, recursos e subsistência estão todos envolvidos; o mesmo acontece com a própria estrutura da nossa sociedade.

Nos conselhos de governo, devemos precaver-nos contra a aquisição de influência injustificada, quer seja procurada ou não, pelo complexo militar-industrial. O potencial para o surgimento desastroso de um poder mal colocado existe e persistirá. 

Nunca devemos permitir que o peso desta combinação coloque em perigo as nossas liberdades ou processos democráticos. Nada deveríamos considerar como garantido. Apenas uma cidadania alerta e conhecedora pode obrigar à articulação adequada da gigantesca maquinaria industrial e militar de defesa com os nossos métodos e objetivos pacíficos, para que a segurança e a liberdade possam prosperar juntas."

Casa Branca, 17 de janeiro de 1961

Museu Nacional de Arte Antiga

O mistério do Inferno sem nome

Raul B. Gomes

Nas caves do Museu Nacional de Arte Antiga, onde o tempo estagna e se mistura com o bafo dos séculos repousa um pesadelo de madeira titulado de Inferno de autor anónimo. É um painel feito de sombras e de gritos mudos, que sobreviveu à destruição, para que a nossa dor não se perca num deixa-andar. Olho para aquelas figuras contorcidas e vejo nelas um lado da vida: o lodo do pecado e o esterco do suplício, pintados com a precisão de quem conhece o bicho que nos rói o intímo. Ali, o diabo é um funcionário da agonia, organizando o caos com a paciência fria de quem espera por todos nós. O quadro é um farrapo de alma quinhentista, uma janela aberta 

para um abismo de luz baça e carne condenada que o museu guarda no silêncio de uma lousa. A assinatura não existe, porque a dor não tem nome; é apenas um rasto de fumo que ficou preso nos espinhos do caminho. Somos todos esses fantasmas, à espera de um amanhecer que naquele inferno nunca chega a romper. Escrever sobre este painel é um esforço contra a loucura, perante o ruído do nada que sobe das caves. Naquelas profundezas, a morte não reconcilia, apenas observa, enquanto a eternidade nos esmaga com o seu peso de pedra e mistério. Em quinhentos anos nada mudou e no futuro nada mudará. 

Andrew: um agente secreto?

A monarquia britânica está em pânico por causa do príncipe André, alvo de acusações graves sobre partilha de documentos secretos, que levaram agora à sua prisão e posterior libertação.   A detenção ocorreu na sua residência de Norfolk, sob suspeita de má conduta em cargo público. A BBC e a CNN Brasil relatam que a investigação foca-se na partilha de documentos governamentais confidenciais com Jeffrey Epstein durante o seu tempo como enviado comercial. 

A operação incluiu buscas em propriedades em Berkshire e Norfolk, tendo o ex-príncipe sido libertado sob investigação após 11 horas de interrogatório. O Rei Carlos III declarou que "a lei deve seguir o seu curso", enquanto a polícia continua a analisar novos e-mails e arquivos comprometedores. Este evento sem precedentes marca a primeira vez na história moderna que um membro sénior da realeza é detido. André nega todas as acusações, mas o cerco jurídico aperta-se com a cooperação entre as autoridades britânicas e americanas.

"Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar"

A sabedoria de Sophia


Todos os anos, no dia 1 de Março, celebra-se  um dos momentos mais altos da sua carreira e da literatura portuguesa: a atribuição do Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores, em 1964, pelo seu livro Livro Sexto.

Este prémio foi um acontecimento sísmico na altura. Num Portugal cinzento e amordaçado, premiar o Livro Sexto era um ato de coragem política, pois a obra continha poemas de uma clareza cortante contra a opressão, como o célebre: "Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar"

O nome Sophia (em Sophia de Mello Breyner Andresen) significa Sabedoria. Sabedoria que a tornou referência angular na nossa vida literária, ética e cívica.Católica e monárquica, socialista e libertária, clássica e moderna, luminosa e brumosa, publicou 17 livros de poesia, 13 de prosa (sobretudo contos infantis), seis ensaios e um de teatro, "O Colar". Ao mesmo tempo traduziu, além de entre outros, Dante, Shakespeare, Eurípedes e Claudel.

A política, como libertação, foi-lhe marcante, tendo sido deputada pelo Partido Socialista na Assembleia Constituinte onde, durante o cerco ao Parlamento, em 1975, revelou uma coragem surpreendente contra a esquerda sitiante.

Aos três anos de idade, uma criada recitou-lhe a "Nau Catrineta", que ela aprendeu a declamar, ainda sem saber ler. Pouco depois o avô ensinou-a a recitar Camões e Antero. "A minha influência mais real foi certamente Camões e também Antero. 

Foi com eles que aprendi a falar sílaba a sílaba sem comer as vogais", dirá numa entrevista. De família aristocrática, seu avô Tomaz de Mello Breyner, Conde de Mafra, foi médico da casa - real e memorialista, e sua avó, Sofia de Mello Breyner, do Conde de Burnay um poderoso banqueiro da época. Era ainda sobrinha de Teodora Andresen, artista plástica, e prima do escritor Ruben A. Leitão.

A poetisa passou a infância entre o Porto (vivia na Quinta do Campo Alegre (hoje um jardim botânico), e a Granja, numa moradia junto ao oceano . "Para mim o Verão era a época da felicidade, das férias, da praia, de andar descalça...",realçará. O mar fascinou-a e inspirou-a toda a vida

Ingressa muito cedo num colégio religioso onde permanece até à adolescência. Resolve, então, matricular-se na Faculdade de Letras, em Lisboa. Aí conhece Francisco de Sousa Tavares, com quem casa. Fixa-se na capital, numa casa junto ao Largo da Graça, de onde vê o rio Tejo a deslizar para o oceano. Tem cinco filhos, entre os quais o jornalista e escritor Miguel Sousa Tavares, a poetisa Maria Andresen e o artista plástico Xavier.

No final da vida, Sophia de Melo Breyner confidenciará que "queria escrever dois romances" mas não ia "ter forças". Primeiro, "porque nunca escrevi romances e tinha de aprender", sublinhará, e depois porque "me fariam fumar imenso" e perder "muita noitada...acho que não aguento".

Nunca escrevia durante o dia: "De manhã há muitas coisas que me distraem, o mundo está cheio de surpresas. Depois existem as interrupções da vida, a falta de sossego, o barulho, as pessoas que passam. Preciso da concentração especial que só se vai criando pela noite fora".

Ao longo de uma vida longa e plena, Sophia recebeu inúmeras homenagens. Entre elas, os prémios Camões (1999), Max Jacob (2001), Rainha Sofia, o mais prestigiado galardão de literatura ibero-americana (2003), e a medalha de honra do Presidente do Chile, em 2004. Faleceu a 2 de Julho, aos 84 anos. Em 2014 o seu corpo foi transladado para o Panteão Nacional.

A Nova VISÃO

 de Margariuda Davim

Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários. 

A meta de 200 mil euros foi atingida para permitir a compra do título em leilão. 

Gaza menina carrega irmã às costas

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 

A suposta paz prometida por Trump revelou-se uma ilusão perigosa, servindo apenas para dar tempo a que a violência se intensificasse sem escrúpulos.  É uma violação flagrante de qualquer decência humana: a diplomacia falha e o ego dos líderes mata, deixando os mais inocentes à mercê de explosões e do estômago vazio. Enquanto o mundo assiste a este jogo de poder, o silêncio da fome é o grito mais alto de uma guerra que ignora todas as regras..

https://youtu.be/tsCvhIrAL-w?si=Aqnp9L5WWploaPQY

Cartoonistas americanos de olho em Trump

Como aprender mandarim


Aprender mandarim tornou-se essencial perante a ascensão da China a potência dominante e líder do comércio global. Sendo a língua de negócios do futuro, o seu domínio oferece uma vantagem estratégica única no acesso a mercados e tecnologias de ponta. 

Mais do que comunicação, é a chave para compreender a nova ordem económica mundial. Investir neste idioma é garantir competitividade num mundo que gravita cada vez mais em torno de Pequim.

Natália Correia:  a liberdade exige  desordem


Este é um dos poemas mais provocadores de Natália Correia, intitulado "Aviso". É uma peça curta, mas com uma voltagem de sarcasmo e inteligência típica da autora, onde ela critica a passividade e a falta de chama vital.

Aviso

"Cuidado com os que não bebem vinho. Com os que não sabem rir. Com os que não têm um segredo nem um pecado para contar. 

Cuidado com os que não têm sede. Com os que não têm fome de ser. Com os que andam por aí com a alma lavada e engomada. 

Cuidado com os que não têm dúvidas. Com os que não se perdem no caminho. Porque esses são os que, um dia, vos vão vender por um bocado de pão."

 A Crítica à "Alma Engomada"

Este poema é uma lição de antropologia política e social. Natália utiliza o vinho, o riso e o pecado como metáforas para a humanidade autêntica.

A "Alma Engomada": É a imagem mais forte do poema. Natália desprezava a perfeição aparente, a moralidade excessivamente limpa e burocrática. Para ela, quem não erra, não arrisca ou não tem "sede" de vida, é alguém incompleto e, por isso, perigoso.

O Perigo da Falta de Dúvida: Ela avisa-nos contra os dogmáticos e os puritanos ("os que não têm dúvidas"). Na visão de Natália, a ausência de conflito interno e de paixão torna as pessoas frias e utilitárias, capazes de trair os outros ("vender por um bocado de pão") porque não têm uma ligação emocional profunda com a existência.

A Rebeldia como Ética: O poema defende que o "erro" e o "pecado" são provas de que estamos vivos e que temos uma consciência própria, não formatada pelo sistema. É um apelo a que nos rodeemos de gente real, "suja" de vida, em vez de figuras de cartão que seguem as regras apenas por falta de imaginação.

Este texto resume bem a filosofia de Natália: a ideia de que a liberdade exige uma certa dose de desordem e de prazer.


Creio em Ti, ó Noite

Creio em ti, ó noite, mãe do sono, quando o silêncio de mãos dadas com a minha alma em abandono, percorre as galerias desoladas deste castelo que sou eu.

Creio em ti, ó noite, deusa escura, de cuja fronte desce um véu de sombra sobre a minha dor e a minha desventura. Só tu, ó noite, sabes quanto assombra o vácuo de um destino que não é o meu.

Creio em ti, ó noite, e no teu abraço, no teu hálito de terra e de estrelas, que me levam para além do tempo e do espaço. Creio na luz que nasce de te vê-las, quando o dia, enfim, em ti morreu.

Creio em ti, ó noite, e na promessa que trazes escrita no teu manto negro, de que a angústia um dia, enfim, cessa. No teu mistério, ó noite, me entrego, pois só em ti me encontro e sou eu.

O que torna este poema especial?

A Noite como Refúgio: Ao contrário de muitos poetas que temem as trevas, Natália saúda a noite como uma "mãe" e uma "deusa". É no escuro que ela consegue tirar as máscaras sociais e enfrentar o "castelo" que é o seu próprio interior.

O Destino: Ela fala do "vácuo de um destino que não é o meu", uma expressão poderosa sobre a pressão que a sociedade exerce para que sejamos algo que não queremos ser.

A Entrega: É um poema de rendição espiritual. Natália, que era uma mulher de luta constante durante o dia, revela aqui a sua vulnerabilidade e a sua busca por paz.

Este poema mostra a Natália Correia "filósofa", que via na natureza e no cosmos as respostas que a política e a lógica não conseguiam dar.