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Edição de botequim.pt abrange semana de 20 de Julho a 27 de Julho de 2026
Ir a pé para as ilhas
Para se ir hoje de avião à Madeira e aos Açores, arquipélagos de deslumbres, tem de se atravessar no aeroporto da Portela, que dizem ser de Humberto Delgado, um inferno pós- moderno que a ANA, virada francesa, engendrou contra os passageiros domésticos, domesticados – os daquelas ilhas.

Extensões (tipo lego) têm sido multiplicadas a partir do edifício inicial em lombrigas intermináveis a serem percorridas a pé, sem passadeiras rolantes como seria decente haver, aos tropeções, aos solavancos, sobretudo com crianças e idosos, ante funcionários desterrados naqueles confins sem fins.
Perversamente os passageiros são, entretanto, obrigados a ziguezaguear por labirintos de pretensiosas lojinhas de bugigangas, roupas, bebidas, souvenires, perfumes, superficialidades em afã de gincana traçada a consumismo e infantilismo.

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Depois de distâncias intermináveis por assépticas plataformas, Porta A-30, Porta B-40, Porta C- 50, OFF! chega-se a uma praceta plantada de fitas verdes (o verde predomina, só faltam vaquinhas para ser prado virtual) e filas (poucas) de bancos (duríssimos) que não chegam para metade dos extenuados viajantes. Muitos sentam-se no chão. Não há bar, apenas uma
apenas uma maquineta de moedas com chocolates e gasosas.Para lá do controle mais filas de bancos sem lugar para os chegados. As normas burocráticas são mais importantes do que as necessidades pessoais – o costume. Roufenhos, altifalantes informam que o voo está atrasado uma hora, porque o avião, etc., etc. – o costume.

O ar condicionado ficou descondicionado, 30 e tal graus de lá de fora a atravessarem as modernaças vidraças para provinciano agradar, suar – o costume. Por que não se separam os edifícios dos voos nacionais dos internacionais? Por que se continua a secundarizar os primeiros, atirando-os para cús de judas de betão, apesar de eles proporcionarem ligações com jóias inigualáveis do nosso território?
Apetece recordar as fúrias de Alberto João (quando Jardim) contra "a canalha de Lisboa", contra "os cubanos do continente", e os seus impropérios de indignação, de razão em defesa da sua intocável Madeira – que um dia o grande Raúl Brandão, visitando-a por barco, apelidou de "Flor Carnívora".
Enfadada, Natália Correia dizia que se andava mais a pé no aeroporto de Lisboa para ir ás ilhas do que se andava no avião sobre o Atlântico para lhes desembarcar.
Casa da Imprensa lança apoio anti-solidão

A solidão é uma das correntes mais silenciosas do nosso tempo. Curiosamente, atinge com frequência aqueles cuja missão de vida é ligar o mundo e contar as histórias dos outros: os jornalistas e profissionais dos media.
Habituados ao ritmo frenético das redações, muitos destes profissionais enfrentam o reverso da medalha com a chegada da reforma ou o avançar da idade. O telefone deixa de tocar e o fervilhar de contactos desvanece-se. Quem passou a vida a escutar e a dar voz à sociedade vê-se, muitas vezes, sem ninguém para partilhar as rotinas mais simples. É contra este isolamento que a solidariedade e o apoio mútuco se tornam urgentes.
VOLUNTARIADO Casa da Imprensa
Na sequência do inquérito feito no primeiro trimestre deste ano e de contactos desenvolvidos pelos Serviços Sociais da Casa da Imprensa (CI), foi possível apurar que várias(os) associadas(os) necessitam de apoio domiciliário indiferenciado: alguém que lhes faça companhia, que leia para elas(eles), com quem possam conversar, ir a uma consulta ou ir às compras, por exemplo.
Para sabermos exatamente quem precisa de acompanhamento no imediato, ou poderá precisar num futuro próximo, a Dr.ª Catarina Pires, assistente social da CI, tem estado a contactar as(os) associadas(os) por faixas etárias.
Enquanto o processo decorre, gostaríamos de saber se há associadas(os) disponíveis para dar este tipo de apoio a outras(os) associados.
Se quiser ser voluntária(o) da CI, por favor, diga-nos: Qual a sua área de residência. Se tem transporte próprio ou em que zona pode deslocar-se com custos mínimos. Qual a sua disponibilidade de tempo. Que tipo de apoio se sente vocacionado para dar. Este é o apelo da Casa da Imprensa aos seus sócios
A guerra do Irão
e os cartoonistas americanos
















Recordar a actriz Laura Alves
Ó Rosa Arredonda a Saia
Os últimos anos de Laura Alves são marcados pela solidão. Enclausura-se em casa entre retratos a óleo, velhas fotos e muitos prémios. Após a demolição do Teatro Monumental é encontrada - por diversas vezes, nos primeiros meses de 1984 - a deambular de madrugada, recitado partes das suas peças nos escombros do palco... que pisou com grande glória

A maior actriz portuguesa de comédia e de teatro de revista do século XX morria, há quarenta anos, em Lisboa. Na última noite, acamada e delirante, canta "Oh Rosa Arredonda a Saia". No velório e funeral comparecem dezenas de milhares de pessoas. O público jamais a esqueceu: Laura Alves.
Ao longo da vida ela tornara-se uma referência no imaginário popular. Pequena e luminosa, clássica e moderna, serena e angustiada. Nascida em 1922, em Lisboa, no seio de uma família de fracos recursos, teve desde cedo interesse pelo teatro que descobriu em récitas escolares e logo tomou para si, fascinando o público.
Um dia o pintor Armando Lucena convidou o encenador Luís Ferreira para assistir a uma dessas récitas. Dois dias depois era chamada para prestar provas no Teatro Politeama.
Estreou-se com grande êxito, já como profissional, em 1934, aos 12 anos, na peça "As Duas Garotas de Paris", ao lado de João Villaret, Álvaro Benamor e Fernanda Coimbra.
Ingressada na Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro participou em dois espectáculos, um deles, "Riquezas de sua Avó", ao lado de Palmira Bastos, Maria Clementina e Maria Lalande. O espectáculo foi ensaiado por Palmira Bastos. A sua interpretação foi tão brilhante que era constantemente interrompida por aplausos. Amélia Rey Colaço recordava-a dizendo que "foi um dos maiores talentos que passaram pela minha companhia".
Em 1941 integra a revista "Lisboa 1900" onde interpreta o papel de uma exuberante empregada doméstica. A sua comunicabilidade e talento afirmam-na definitivamente no
teatro de revista. A crítica compara-a a grandes actrizes – como Pepa Ruiz, Ângela Pinto e Adelina Abranches.As salas enchem-se, Laura Alves acumula triunfos, caso do "Zé do Telhado", o "Jogo do Diabo", a "Patuscada" e "Estás na Luta", ao lado de Amália Rodrigues, então em início de carreira.
Aos 25 anos, Laura Alves afirma-se em absoluto na revista "Tá Bem ou Não Tá". Passa a ter os seus próprios e fiéis espectadores que, aliás, não param de crescer. Enche salas. Os êxitos sucedem-se. No cinema marca "O Pai Tirano".
Entre 1952 e 1982 torna-se o sustentáculo da Companhia Vasco Morgado, salvando a empresa da bancarrota. Laura Alves ganha milhões (é a mais bem paga actriz portuguesa de todos os tempos) mas tudo é investido no teatro. O público passa a trocar o Parque Mayer pelo Teatro Monumental.
No "Homem que veio para jantar", a actriz desempenha o papel de Bette Davis no cinema, o mesmo acontecendo em "A Rainha do Ferro-Velho", sendo as suas interpretações, segundo a crítica, "muito superiores" às da vedeta norte-americana.
Laura Alves vivia para o teatro, não do teatro. O seu dia-a-dia era discreto: orava perto do Largo de Saldanha, no primeiro andar de um prédio comum, casa acolhedora mas longe de ser residência de uma estrela. Recebe convites frequentes para ser cabeça de cartaz no Folies Bergéres de Paris. Desafiam-na a interpretar "My Fair Lady", "Mamme" e "Sweet Charity" - que recusa.
Nos anos 60 interpreta "Meu Amor é Traiçoeiro" de Vasco Mendonça Alves. O êxito é lendário: 24 meses em cena e tournées pelo Brasil, então raras, Espanha e colónias portuguesas de África.
Com "A Idiota", "O Comprador de Horas", "A Mulher do Roupão", Laura Alves impõe no acanhado meio lisboeta as grandes comédias europeias. Em "Um Zero à Esquerda", tem o seu último (e polémico) grande êxito.
Os últimos anos de Laura Alves são marcados pela solidão e pela doença. Enclausura-se em casa entre retratos a óleo, velhas fotos e muitos prémios. Resta-lhe como companhia Maria Cândida, antiga costureira de teatro.
O falecimento de Vasco Morgado, a destruição do Monumental, a crispação do pós 25 de Abril esmagam-na. Foi encontrada, por diversas vezes, a deambular sozinha, de madrugada, recitando extractos de peças, nos escombros do Monumental.
Macbeth no Capitólio
de 21 a 25 de Julho

De 21 a 25 de julho uma reescrita de Macbeth, transportando para a contemporaneidade os temas intemporais abordados na peça de Shakespeare
Macbeth, a nova criação do coletivo artístico SillySeason, estreia no Capitólio, em Lisboa, de 21 a 25 de julho, depois de ter sido apresentada, em antestreia, no Teatro Cine de Gouveia, no início de maio. O espetáculo propõe uma reescrita da tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare, transportando para a contemporaneidade temas intemporais como a ambição desmedida, a corrupção do poder e a erosão moral.


Sócrates: temos um homem
a caminho de ser mártir
O arrastamento do processo que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, há mais de uma década, deixou de ser um caso de aplicação da justiça para se transformar num espetáculo inaceitável.

Assiste-se a um cenário incompreensível: jornalistas a exiberem o acesso direto a documentos trancados a sete chaves num cofre-forte da justiça
Estas fugas de informação cirúrgicas e sistemáticas revelam uma conivência perigosa entre elementos do aparelho judicial e a comunicação social, transformando o segredo de justiça numa comédia.
Ao ser alvo desta máquina de trituração, José Sócrates começa, inevitavelmente, a erguer-se como um mártir da justiça portuguesa.
A forma como têm sido atropelado ao longo dos anos, faz de José Sócrates, símbolo dos injustiçados. Um espelho desconfortável do sistema judicial.
Para quem ainda acredita na história dos 35 milhões, vale lembrar que um Berardo (nos seus 990 milhões de dívida confessada da Fundação na Assembleia da República) seria o equivalente a 28 Sócrates. Se algum dia forem provadas as acusações contra o "menino de ouro" do PS. jrr
Oiça Madredeus neste Verão
António José Saraiva
"Vivemos numa imensa floresta"
"ESPÓLIO" Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta
"Portugal é um país muito particular, coisa que se vê até na maneira como as pessoas falam umas com as outras, nos gestos, nos pequenos costumes de relação íntima.
"O português é o povo da Europa mais rico de sentimentos e sensações que conheço. Basta vermos a maneira afectuosa como as pessoas se falam para nos apercebermos disso. Um homem a passear com outro de braço dado é, entre nós, uma coisa extremamente natural. As relações entre os jovens são de uma afectuosidade que acho extraordinária. É possível que este tipo de relações nos leve à criação de um tipo de comunicação humana que não existe noutro lado, ou que existe em pequena escala. Em França as pessoas estão profundamente individualizadas e em situação de permanente hostilidade com os outros.

"Deixei de ser um optimista sistemático. Não há nada que nos faça supor que as coisas se encaminhem para uma melhoria, para uma sociedade perfeita. Vivemos numa imensa floresta onde temos, pouco a pouco, de ir criando clareiras.
Não temos de esperar que o mundo marche num determinado sentido e que sejamos arrastados automaticamente nesse sentido. Nós é que temos de estudar as nossas condições e tentar fazer qualquer coisa em que efectivamente participemos.

Em plena democracia, e sendo o povo soberano, não ser uma reserva de eucaliptos para uso de uma obscura entidade económica que tem o pseudónimo de CEE".
"ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta
BIOGRAFIA
António José Saraiva foi um dos mais destacados ensaistas literários do século XX. Nascido em Leiria em 1917 (irmão José Hermano Saraiva) aderiu ao PCP exilando-se em Paris até que Marcelo Caetano autorizou o seu regresso, juntamente com outros vultos da oposição, como Agostinho da Silva e o Bispo do Porto. "Vim a prestações", ironizava entre o céptico e o esperançoso. Pouco depois afirmava-se anticomunista e admirador de Salazar.
Entre as suas obras de referência destacam-se a célebre História da Literatura Portuguesa (de parceria com Óscar Lopes), a Inquisição e Cristãos Novos, O Crepúsculo dos Filósofos, Para a História da Cultura em Portugal. Faleceu em 1993

Nenhuma imagem mostra tudo
Num presente marcado pela circulação incessante de imagens e pela ilusão de que tudo pode ser tornado imediatamente visível, importa recuperar o enquadramento como operação crítica.Ver não é aceder ao todo: é entrar num campo delimitado por escolhas; o que se mostra, o que se omite, o que se aproxima, o que se afasta. É nesse território que percebemos que o visível não existe sem o invisível que o sustém, o limita e lhe dá forma.

Nenhuma imagem mostra tudo. Toda a imagem é um recorte. Enquadrar é escolher, e escolher é já interpretar. O invisível não é o que nada significa, mas aquilo que a imagem deixa de fora para construir a sua própria clareza. A tradição renascentista fixou esta ideia ao pensar a pintura como uma "janela": não a duplicação integral do mundo, mas uma forma enquadrada de o tornar visível.

Las Meninas, 1659. Diego Velázquez. (Museu do Prado, Madrid)
A pintura organiza um campo de visão complexo em que o espelho, ao refletir as majestades, introduz no interior da imagem aquilo que está, simultaneamente, fora dela
Por isso, o enquadramento não deve ser entendido como simples moldura exterior ou detalhe técnico. É uma operação de autoria e de mediação. Define um dentro e um fora, estabelece relações, produz hierarquias e atribui centralidade. O enquadramento não limita apenas a imagem: organiza a sua inteligibilidade. Ao isolar elementos, cria relação; ao interromper formas familiares, transforma-as em fragmento; ao fixar um limite, começa a desenhar a geometria do sentido.
A história da arte mostra-o com clareza. Um fragmento retirado de um conjunto maior pode passar a ser lido como obra autónoma; uma borda visível pode denunciar cortes, perdas ou deslocações de contexto. O enquadramento nunca é inocente: pode preservar, mas também reenquadrar; pode proteger, mas também alterar a forma como a obra passa a ser entendida. O que fica de fora não desaparece sem resto — permanece como contexto suprimido, memória latente ou ausência ativa.

Rua Parisiense - Dia Chuvoso, 1877. Gustave Caillebotte. (Instituto de Arte de Chicago)
O corte das margens e a colocação das personagens fazem-nos sentir que o campo visível é apenas uma parcela de uma realidade mais ampla, que funde com o espectador
Na fotografia, esta condição torna-se particularmente evidente. Enquadrar é selecionar uma fatia do mundo através de um limite. O que entra no campo determina a leitura; o que fica para lá da margem continua, muitas vezes, a atuar por inferência.
Um corpo cortado, um objeto interrompido ou um fundo reduzido não impedem a compreensão — podem até intensificá-la, concentrando a atenção e tornando a afirmação visual mais concisa. O essencial é isto: a imagem não reproduz simplesmente o visível; constrói um regime de leitura.
Mas esta lógica não pertence apenas à fotografia. Também no design o enquadramento é uma forma de pensamento. A página, o cartaz, a capa ou a composição tipográfica não são superfícies neutras: são campos de seleção, de corte e de orientação do olhar. Uma letra fragmentada pode continuar legível; uma forma interrompida pode ativar reconhecimento; uma palavra encostada à margem pode ganhar tensão. O que não se mostra por inteiro deixa de ser falta e torna-se recurso expressivo. A exclusão participa, assim, na construção do sentido.
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Mãe Migrante, 1936. Dorothea Lange
Mostra que o enquadramento dispensa a acumulação de sinais de pobreza, porque o rosto da mãe concentra a dureza da condição vivida
Ver bem é mais do que identificar o que está diante dos olhos. É reconhecer que toda a imagem resulta de uma escolha. A literacia visual começa quando deixamos de perguntar apenas "o que vejo?" e passamos a interrogar "porque vejo isto assim?", "que recorte tornou esta forma possível?", "o que foi necessário excluir para que estes elementos ganhassem evidência?". O visível não se esgota no que aparece: organiza-se também a partir do que foi omitido, subtraído ou deixado para lá da margem.
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Nazaré, Portugal, 1955. Henri Cartier-2Bresson.
Cartier-Bresson faz do enquadramento uma forma de condensação visual: a praia é naturalmente vasta, mas o olhar recebe-a como espaço saturado
Na cultura visual, enquadrar é sempre mais do que delimitar. É decidir. É ordenar. É atribuir relevância. E essa operação não pertence apenas às imagens. Também na vida escolhemos, recortamos, aproximamos, afastamos, deixamos entrar e deixamos de fora. Num tempo marcado pela exposição contínua, pela urgência da resposta e pela pressão para tornar tudo imediatamente visível, talvez importe lembrar que nenhuma clareza nasce sem limite e que nenhum sentido se organiza sem escolha.
O que parece apenas delimitar é o que verdadeiramente permite ver, compreender e habitar o mundo.

Estoril foi porto de abrigo
Rainha da Bulgária
a caminho de ser Santa
A derradeira monarca da Bulgária, Joana de Sabóia, falecida no Estoril em 2000, está a ser estudo de santificação por parte de grupos católicos europeus.
Última cabeça coroada a residir, desde 1962, entre nós, fugiu do seu país depois de Estaline ter mandado fuzilar, na sequência da II Guerra Mundial, o cunhado. Refugiada inicialmente no Egipto e em Espanha, escolheu depois Portugal, onde se fixou definitivamente

Com a morte (misteriosa) do rei, em 1941, fica viúva. No ano seguinte vê o terror tomar conta da Bulgária. O país é bombardeado pelos Aliados (a família real quase morreu na derrocada do seu palácio) e invadido por ordem de Estaline. Milhares de cidadãos são condenados à morte, incluindo o príncipe-regente Cirilo, irmão do monarca.
A rainha, os filhos e a cunhada ficam aprisionados nos arredores de Sofia. Uma manhã entregam-lhe a urna do marido, que resolve enterrá-la no jardim.

"Como a monarquia desfrutava de grande popularidade só em 1946 os soviéticos proclamaram a república", destaca-nos Liubka Tasseva, secretária da soberana. "Para tal realizaram um referendo completamente manipulado. Havia dois boletins de voto, um a favor da república, outro da monarquia. O segundo não estava, porém, disponível nas urnas".
Os comunistas, liderados por George Dimitrov (que o rei Boris havia livrado da condenação à morte), ganharam por 99 por cento. Imediatamente resolveram expulsar a família real e expropriar os seus bens, dando-lhe 200 dólares (cerca de 245 euros) e o prazo de 20 dias para abandonar o país.
Joana de Sabóia saiu de Sófia acompanhada pelos filhos, pela cunhada Eudoxia e por alguns fiéis servidores. O Estoril ser-lhe-ia aveludado porto de abrigo.
"Ela veio para cá devido à presença do irmão, rei Humberto de Itália, ao fascínio do mar e à amenidade do clima", frisa Lubka Tasseva. Compra uma casa, que baptiza de Yantra, voltada para a baía de Cascais, decorada com retratos de antepassados (cópias de originais), porcelanas e pratas herdadas do pai, bem como mobiliário português.
O seu quotidiano é discreto, vive acompanhada por uma governanta, um motorista, duas empregadas e a secretária. Raramente aceita convites para festas, abrindo apenas excepções para casamentos e baptizados. Torna-se uma paroquiana assídua da Igreja de Santo António do Estoril. Desloca-se mensalmente a Fátima, apoia obras de caridade e aprecia o fado – especialmente a "voz doce" de Salvador Taborda Ferreira.
Recebe anualmente a visita das irmãs, residentes em Itália e na França, da cunhada Eudoxia que vive na Alemanha, dos sobrinhos e da rainha Geraldine da Albânia que se fixara em Espanha.
Em Agosto de 1993 deslocou-se durante oito dias à sua pátria, a convite especial do governo búlgaro. Com 86 anos é recebida de forma entusiástica. Percorre mais de mil quilómetros, e afirma: "Não tive razões para me cansar. Nunca me passou pela cabeça ser recebida desta forma, com tanto amor pelo povo búlgaro", exclamará a amigos."Custou-lhe muito rever os sítios onde havia vivido, fez os possíveis para conter as lágrimas", destaca Liubka Tasseva.
A família reuniu-se pela última vez em 1997, quando Joana completou 90 anos. Houve um almoço onde estiveram os dois filhos, os nove netos e os dez bisnetos. Três anos depois, a 26 de Fevereiro, Joana da Bulgária morre serenamente. Cinco dias depois é realizada a transladação dos seus restos mortais para Itália, antecedida de uma missa na Igreja de Santo António do Estoril em que estão presentes elementos das casas reais da Áustria, Brasil, Portugal e Marrocos.

O Rei Simeão legou à paróquia da residência da mãe uma relíquia de Santo António que a havia acompanhado a vida inteira.
A superioridade do seu comportamento, da sua acção social e cultural, da sua disponibilidade para com os outros tornaram-na uma referência de dignidade, de humanismo - justificadora do processo de santificação agora em curso.
O Comando

Não, não se trata de um comando militar, de um qualquer poderoso comando político, empresarial, banqueiro ou dos media, em que pivots armados com um microfone e uma câmara, verdadeiras armas de arremesso, entram na nossa casa, acolitados por uma legião de apresentadores, moderadores, observadores, politólogos, analistas, comentadores,

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constitucionalistas, sempre os mesmos, ao longo dos anos, eficientes censores sem lápis azul, hábeis manipuladores, que, em vez da mordaça, criam à volta do telespetador um ruído e uma confusão tais de desinformação e de contrainformação, que acaba por não compreender nada do que se passa, a não ser futebol, peregrinações, telenovelas, reality shows, faits-divers de bairro, ad nauseam, para infantilizaçãodas mentes; manchetes inflamadas, descontextualizadas, sem haver lugar a desmentido ou
ao contraditório. A par de outras formas de censura, subtis, mas não menos eficazes: ignorar opiniões contrárias; institucionalizar o delito de opinião; impor o pensamento único do "politicamente correto;" criminalizar o uso de determinadas palavras ou expressões."Estamos em guerra, numa guerra entre sistemas de informação e manipulação dos
relatos, desinformação e propaganda," como adverte Rafael Dávila Álvarez. Vivemos num regime capturado
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pelos poderes político, académico, woke, religioso, económico, financeiro! E ai de quem não pactuar!
E, no entanto, contra tudo isto, dispõe o indefeso telespetador de uma arma poderosíssima, que não passa de um pequeno objeto, o comando do televisor, com o qual, ao mudar de canal, expulsa de sua casa reis, presidentes da república, papas, banqueiros e toda a casta de gente importante que se vem instalar no seu doce lar sem lhe pedir licença.
Com o seu comando, pode o telespetador determinar a vida ou a morte dos canais televisivos: é que, sem audiências, não há publicidade; sem publicidade, não há receitas; sem receitas, as televisões fecham as portas. Eis o seu enorme poder, que lhe é conferido por este pequeno objeto.


A MORTE DE UM GÉNIO:Apesar da idade, no que respeita à minha vivência intelectual, Edgar Morin era eterno. Para além do historiador português Fernando Catroga e do filósofo Eduardo Lourenço, do meu professor de português Manuel Marques da Cruz, foi uma das traves-mestras da pessoa que sou.
É com desgosto que me despeço dele.Conheci-o através de um livrinho publicado na década de 70, O 'Paradigma Perdido: A Natureza Humana'. marcou-me de tal forma que não mais o perdi de vista. Daí ao 'O Homem e a Morte' foi um instante, entre outros, toda a sua obra sobre o 'Método'. Assisti a inúmeras das suas conferências em Portugal e, sobretudo, em França. E aprendi sempre.Agora que se despediu de nós, em plena Feira do Livro de Lisboa, espero que muitos o encontrem nos livros que nos deixou, para melhor conhecimento da extraordinária composição que é o Ser Humano. Ver menos

Miguel Sousa Tavares
"Ursula von der Leyen
apoia genocídio em Gaza"
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era uma vez um Saab
Há uns anos, no Brasil, o condutor do carro onde eu ia - português que tinha vivido em Inglaterra - parou educadamente numa passadeira para uma senhora atravessar e ela ficou assustada.
Pensou - explicou-nos o outro passageiro do carro, esse brasileiro - que ia ser assaltada...Na Suécia, há 40 anos, recordo-me de ir num velhinho Saab, e na Suécia parecia haver na estrada nada mais do que velhinhos, seguros e suaves Saab, na mesma altura que em Portugal, a reboque do crédito e da ignorância, todos os carros eram pequenos, novos e maus, enfim de lata, dizia eu na Suécia o meu amigo, sueco, que ia a conduzir, parou o carro numa berma, íamos a 50km hora, para dar passagem a um tipo que ia a 60km hora.

Este baile de ópera vienense na estrada sempre me assalta a memória quando hoje, em Portugal, estou numa passadeira e uma condutora acelera para só parar mesmo em cima; ou um cavalheiro vai na auto estrada a 120 km hora colado à traseira do meu carro para ultrapassar; ou sicrano atravessa uma aldeia a 50km hora, também a 60km e até a 90km! 2 mortos por dia, é o saldo.
Passo férias em lugares, na Europa central, onde os carros param para dar lugar aos ciclistas e o condutor faz um gesto suave de - a senhora dança? Fujo de lugares onde a violência se impõe à delicadeza. Excerto de crónica de Rauel Varela
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O lendário Saab Automobile já não existe. A empresa formalizou em dezembro de 2011 o fim de uma das marcas mais importantes da indústria automóvel. Famosa pela herança aeronáutica, pioneirismo na segurança e motores turbo, a fabricante sueca sucumbiu à gestão sufocante da General Motors (GM), que a adquiriu em 2000.

A GM tentou massificar a Saab forçando a partilha de componentes com a Opel. Contudo, os engenheiros de Trollhättan resistiram e redesenharam os veículos para manter os padrões da marca, o que inflacionou os custos e gerou prejuízos. Com a crise de 2008, a GM decidiu alienar a subsidiária.
A neerlandesa Spyker Cars tentou salvar a Saab em 2010, mas a falta de liquidez paralisou as fábricas no ano seguinte. O golpe final ocorreu quando a GM bloqueou a venda a investidores chineses, recusando transferir as patentes e licenças dos motores. Sem alternativas, a Saab declarou falência. Os ativos foram comprados pelo consórcio NEVS, mas o direito ao nome e ao icónico logótipo perdeu-se para sempre.
Menina carrega irmã
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
História do Líbano

América às revira-voltas
com Epstein





Natália Correia: o país das jotas mudas




0 mundo lisboeta de Natália Correia

Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.
Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).
Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.
Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa.
Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos.
"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".
O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.
Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor.
Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa".
Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.
Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.
O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.
A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.
Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".
Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.


"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".
A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias.
Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.
Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.

Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.
Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.







