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Edição de botequim.pt 28 de Setembro a 06 de Outubro de 2026, com actualizações


D. Maria Pia, mãe de D. Carlos, enlouqueceu em Portugal no mês de Outubro, mês marcante em toda a sua extraordinária e enevoada vida. Raul Brandão chamou-lhe o mês da rainha louca. D. Maria Pia, mãe de D. Carlos, enlouqueceu em Portugal no mês de Outubro, mês marcante em toda a sua extraordinária e enevoada vida. Raul Brandão chamou-lhe o mês da rainha louca.


Nascida em Turim a 16 de Outubro de 1847, Maria Pia de Sabóia e Bragança, filha de Vítor Manuel II, o rei unificador de Itália, e da arquiduquesa Maria Adelaide da Áustria, casa-se por procuração com D. Luís e entra, triunfalmente em Lisboa, a 5 de Outubro. A ratificação do enlace tem lugar na Igreja de São Domingos, consolidando oficialmente a aliança entre os dois países.

D. Luís subira ao trono aos 23 anos devido à morte prematura do irmão D. Pedro V. As expectativas da corte são grandes, tendo a diplomacia portuguesa trabalhado, desde logo, pelo casamento e descendência do monarca. A escolha de D. Maria Pia teve o melhor acolhimento nos meios sociais e políticos. O nosso País fora, aliás, dos primeiros a reconhecer a unificação italiana.

Autoritária mas magnânima, a monarca ganhou grande popularidade junto do povo e grandes reticências nos grupos radicais. Notável apreciadora de artes decorativas e plásticas, de música, de teatro, de literatura, era uma viajante e coleccionadora incansável.

Percorria com frequência Portugal, França e Itália onde se detinha em museus, teatros, lojas e convívios. Os gastos que fazia eram considerados exagerados pela oposição. A própria corte portuguesa sentia, frequentemente, dificuldades em pagar as suas numerosas encomendas. Encomendas que iam da Europa aos Estados Unidos. Esse património fez, no entanto, da Ajuda um dos palácios mais requintados da época.

No ano seguinte ao casamento, D. Maria Pia dá à luz o primeiro filho, D. Carlos. Um segundo filho, D. Afonso, anima em 1865 a corte portuguesa. Os projectos absolutistas de D. Miguel (tio-avô de D. Luís), exilado após a vitória de D. Pedro IV, na Áustria, caíam por terra. A soberana centrou-se com grande empenho na educação dos 

filhos, nas inúmeras obras de caridade e no acompanhamento do trabalho de D. Luís, por quem nutria profundo carinho. A morte deste, ocorrida a 17 de Outubro de 1889, afectou para sempre a sua existência, passando a ser vista com frequência,

 de jarro na mão, a regar as flores das alcatifas dos palácios que utilizava. A alegria de viver, as excentricidades, as provocações que a caracterizavam desaparecerem a partir desse Outubro.

Na memória das gazetas da época ficou para sempre um célebre Carnaval por ela preparado  em que, disfarçada de mulher do povo, se vestiu de varina, não lhe faltando sequer os tamancos e as argolas de ouro de Viana do Castelo. Ocultando o rosto com uma máscara, quase ninguém reconheceu. 

Oito anos depois dá- se o Regicídio vitimizando D. Carlos e o príncipe-herdeiro D. Luís Filipe.Maria Pia fica profundamente abalada. A tragédia que a envolveu tornou-a uma heroína para muitos autores, entre os quais Raúl Brandão. Nas Memórias, este escritor reteve para sempre as figuras de D. Maria Pia e D. Amélia imobilizadas defronte dos corpos sem vida dos imolados.

Apática, lembra uma sonâmbula, cada vez mais distanciada da realidade que a envolve. Passa as noites a vaguear pelos salões falando com os fantasmas dos desaparecidos. Implacável e devastador o mundo da loucura imergiu-a para sempre. Abandona o quarto-real para dormir num anexo onde em tempos provava as suas requintadas roupas.

A revolução republicana apanha-a no Paço de Sintra, num apartamento que ainda existe hoje. Na manhã de 5 de Outubro parte com a nora em direcção a Mafra, onde as espera o rei, D.Manuel. Daí descem, numa caminhada de sombras e sobressaltos, para a Ericeira. O povo aclama-os. Barcos de pescadores leva- os, entre vagas fortes, para o iate Amélia IV que os aguardava ao largo.

Numa das grandes peças do teatro português, O Fim, António Patrício descreve-a a transportar ao colo um pão que, sôfrega, levou de Mafra. Manuela de Freitas incarnou-a antologicamente numa encenação de Jorge Listopad.

Completavam-se nesse dia de Outubro (mais uma vez Outubro) 48 anos da sua chegada Portugal. Após breve estadia em Gibraltar, regressa a Itália, acolhida pelo sobrinho neto, rei Vitor Manuel II. 

A república devolve-lhe a maioria do património pessoal, as jóias e alguma prataria, que acabam por ser leiloadas. Morre a 5 de Julho de 1911, aos 63 anos, num palácio da casa- real italiana, envolvida na saudade da terra onde viveu os momentos mais extasiantes e pungentes da sua vida.

Editorial botequim.pt 28 de Setembro a 06 de Outubro de 2026

Pasolini causou apoplexias ao escrever, numa crónica no Corriere de la Serra, que as maiores vítimas do capitalismo eram, não as multidões dos seus operários, mas as elites dos seus administradores.


E justificava, provocando: as primeiras ganham pouco, é certo, mas têm horários fixos (nessa altura ainda não se falava em flexibilização laboral), fins de semana livres e férias garantidas; os segundos, esses, não dispõem sequer de tempo para si — nem, suprema frustração, para as suas voluptuosas, onerosas amantes.

As contradições dos poderosos («deviam ser eles, hoje, os mais evangelizados», exclama Agustina na Alma dos Ricos) mereciam, na verdade, outras atenções da nossa parte, até porque eles nos condicionam a vida.

A maior parte dos dirigentes comporta-se como se os sectores de que são titulares lhes pertencesse, não curando de pensar que uma empresa é dos proprietários, empregados, colaboradores, clientes, ou seja, da comunidade que a integra, em que se integra; que as decisões a tomar deviam, ao invés do que sucede, levar em conta os interesses, as participações dessa comunidade.


As riquezas naturais não têm donos, são pertença da humanidade.O ter tornou-se esquizofrenia levando, curiosa ironia, trabalhadores a fazerem-se investidores, isto é, pequenos accionistas que funcionam, em simultâneo, como neo-escravos (de uns) e neo-esclavagistas (de outros).

As empresas não podem ser mealheiros pessoais das famílias e grupos que as detêm. Os bons capitalistas (os defensores dele com rosto humano) submergiram há muito, ante ultraliberalistas especializados em desvios, corrupções, branqueamentos que conduzem o sistema para um big-brother demencial, suicidário.

"As causas da pobreza não estão", lembrava Natália Correia, "nos pobres, mas nos não pobres".

.Na mesma linha de pensamento, Almeida Garrettperguntava "aos economistas, políticos, moralistas se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, à desmoralização, à desgraça para produzir um rico".


Em entrevista à Lusa, Richard Zimler revelou que está a escrever um novo romance — o primeiro para adultos concebido originalmente em português e inglês em simultâneo. A viver em Portugal há décadas, o autor explica que o processo, embora mais lento, reflete como as duas línguas se entrelaçam no seu pensamento e como o português já influencia o seu estilo em inglês.

A obra, que sucederá à trilogia O Voo dos Anjos Caídos, afasta-se do registo histórico habitual. Nascido de reflexões sobre a mortalidade espoletadas por problemas de saúde recentes, o livro decorre numa aldeia portuguesa inventada e incluirá depoimentos de pessoas já falecidas.

Aos 70 anos e com uma vasta carreira iniciada em 1996 com O Último Cabalista de Lisboa, Zimler reflete sobre a evolução da sua escrita: para o autor, a literatura acompanha inevitavelmente as transformações da identidade, a passagem do tempo e o impacto dos traumas reais.

Em A Aldeia das Almas Desaparecidas, Richard Zimler revisita a família Zarco num monumental romance histórico passado em 1671, em Castelo Rodrigo. Em A 

Aldeia das Almas Desaparecidas , Richard Zimler retorna à célebre família Zarco em um monumental romance histórico dividido em dois volumes. A narrativa expõe a vida secreta e o sufocamento cotidiano de uma comunidade de cristãos-novos.

Esses habitantes tentam preservar sua fé judaica e suas raízes em segredo absoluto. No entanto, a ameaça constante e implacável da Inquisição e do Santo Ofício desmorona a aparente tranquilidade da aldeia. Zimler se apoia em uma investigação histórica exaustiva, recuperando nomes e registros reais de prisioneiros. 

Espelho dos perigos do fanatismo

A trama também explora as lutas contra a doença, as perdas trágicas e a resiliência humana diante da tirania. É uma reflexão profunda sobre identidade, intolerância e cicatrizes invisíveis deixadas pelo preconceito. 

A obra funciona como um espelho dos perigos do fanatismo que continuam a ecoar na sociedade contemporânea. Com uma carga emocional intensa, a narrativa transita com maestria entre o suspense, o drama íntimo e a recriação de época.

A chegada às salas de cinema de Santo António, a nova aposta assinada por Ruben Alves, traz de volta ao grande ecrã o olhar afetuoso e popular de um realizador que sabe, como poucos, dialogar com a identidade luso-francesa e com o imaginário cultural português. 

Contando com a presença magnética de Joaquim de Almeida à frente do elenco, o filme assume-se como um dos lançamentos mais aguardados do circuito comercial recente.

A História e o Enredo

Longe de ser uma biografia estritamente religiosa de época, a narrativa ancora-se na Lisboa dos nossos dias, onde o peso da tradição, as festas populares e a figura de Santo António — o casamenteiro, o procurador das coisas perdidas e o protetor da cidade — servem de bússola para os encontros 

e desencontros das personagens. A trama acompanha laços familiares fraturados, paixões improváveis e pequenas buscas pessoais, nas quais Joaquim de Almeida encarna uma figura central de patriarca carismático, cuja vida se cruza com a dinâmica caótica, luminosa e calorosa dos bairros lisboetas.

A Assinatura de Ruben Alves: Do Fenómeno de A Gaiola Dourada a Este Regresso

Ruben Alves já provou a sua mestria na comédia humana com "A Gaiola Dourada" (La Cage Dorée, 2013), 

o estrondoso sucesso de bilheteira que levou mais de 750 mil espectadores aos cinemas em Portugal e conquistou mais de um milhão em França ao retratar com ternura e humor a comunidade de emigrantes portugueses em Paris.

Em Santo António, o realizador recupera essa mesma sensibilidade sociológica: Autenticidade e pertença: A capacidade de captar a alma das ruas e a hospitalidade sem cair na caricatura fácil.

Comédia com coração: O equilíbrio entre o humor genuíno e momentos de melancolia honesta sobre a passagem do tempo e as raízes. Elenco de peso: A mestria em tirar partido do talento e da autoridade cénica de Joaquim de Almeida, oferecendo-lhe um papel que conjuga gravidade dramática e cumplicidade com o público.

O Interesse do Filme

O verdadeiro apelo de Santo António reside na sua capacidade de celebrar a identidade coletiva sem cinismo. Numa cinematografia nacional frequentemente dividida entre o hermetismo de autor e a comédia ligeira sem substância, a obra de Ruben Alves posiciona-se naquele espaço nobre do cinema popular bem construído: fotografia cuidada, ritmo envolvente e um amor genuíno pelas pessoas e pelos lugares que retrata. É um filme feito para reencontrar o público e encher as salas com o pulsar de Lisboa.

"ESPÓLIO": reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta


Artur Semedo

"Um partido que não ri

está condenado"

"Rir é uma reacção de inteligência, um partido que não ri está condenado. As piadas destroem mais do que os discursos.

"Eu, por exemplo, andei no PC antes do 25 de Abril, tinha mesmo um irmão muito mergulhado no partido, mas saí pois afligia-me a falta de sentido de humor dos seus militantes. Estava permanentemente a dizer-lhes, oh senhores riam, riam por favor!

"O Saramago aprendeu a rir comigo. Um dia disse-lhe: tu tens de rir, não há razão nenhuma para não rires. E ele começou a rir. Tinha, aliás, bons dentes para isso. Não ria por coisas do PCP, nódoas pecêzistas que teimava em conservar.

"Frequentávamos as tertúlias de café onde pontificavam os grandes escritores, recordo-me que na pastelaria Mourisca estavam sempre o Casais Monteiro e o Jorge de Sena, na Paulistana o prof. Lima Basto, isto nos anos cinquenta.

"A falta, hoje, dessas tertúlias, com o seu convívio, a sua maledicência, as suas discussões, é desoladora. Politicamente eram quase todos do contra. Havia uma grande cumplicidade entre nós, de admiração, de amizade.

"Dei-me sempre muito com escritores. Fui muito amigo do Alves Redol, do Zé Cardoso Pires, do Manuel da Fonseca, do Carlos de Oliveira. Os escritores gostam de falar comigo, até o Saramago gostava.

«O 25 de Abril foi um dos grandes momentos da minha vida. Rasguei pano por todo o lado ... Quando se deu o primeiro 1º de Maio percebi que ia falhar. As ocupações não foram feitas por quem as deviam fazer, mas por outros. Pelos aparelhos partidários. Comecei a andar de desilusão em desilusão, senti-me ferido, muito ferido... é a tal questão da honestidade. Quem tem desses valores está tramado. Sempre tramado.

"O tempo do Estado Novo era muito engraçado. Ao regime, o desenvolvimento cultural que interessava era o do vinho, beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, dizia-se, o de ir a Fátima, à bola... existia, no entanto, uma actividade cultural muito interessante.

"Havia o grupo dos neo-realistas, dos surrealistas, havia realizações de cinema, de teatro, de pintura. Eu convivi com esses grupos todos desde muito cedo, desde o Conservatório.

"Portugal é um pais em que, mais do que mulheres, se violam correspondências e telefonemas. Os nossos marialvas, que não têm qualquer sentido de humor, são-no apenas na posição vertical, não na horizontal. Quando passam à horizontal entram na pornocracia. As polícias, com a mania das escutas, que o digam. Não tenho consideração por isso.

"Certa vez tive que despachar um polícia que se meteu comigo e com a senhora com quem eu estava dentro do carro para os lados de Cabo Ruivo. Quis-nos levar para a esquadra. Eu identifiquei-me, contei-lhe que tinha espectáculo daí a pouco, expliquei-lhe que a senhora tinha uma alta posição na embaixada de 

Itália, que era tudo muito chato, mas ele nada, não se demoveu. Bom, só há uma maneira de resolver isto, disse para comigo. Olhei à volta, estava tudo deserto, saí do carro e, zás! Uma boa cabeçada, apesar da pala do boné do tipo, deitou-o por terra, a dormir. Safámo-nos assim.

"Um dia o marido de uma amiga minha disse que ia viajar e não viajou. Estávamos muito bem deitados quando ela gritou, aí que estão a abrir a chave! Eu agarro na roupa e pus-me atrás da porta. Antes que ele me visse arriei-lhe, toma, toma, dei-lhe uma carolada que o deixou estendido. Depois saí. Tornei-me especialista em dar caroladas. Quando era surpreendido raspava-me deixando os tipos a dormir e elas, acordadas, a acordá-los.

"Adorava ser galã, sobretudo de vestir bem. Eu é que ditava a moda, como a do andar despenteado e com a barba por fazer... não para excitar as mulheres mas para acalmar os ciúmes dos maridos. Tinha mais sorte com a barba por fazer do que escanhoado!

"Tinha muitos convites para filmar fora, sobretudo em Espanha onde havia uma grande falta de jovens no cinema castelhano de então por causa da guerra civil . Daí que os produtores se tivessem voltado para os actores portugueses da época, que eram muito bonitos. Alguns conseguiram boas carreiras, o António Vilar, o Virgílio Teixeira, o Carlos Otero, a Isabel de Castro, a Maria Dulce, o Barreto Poeira. Só não me radiquei lá porque não sou pessoa de ficar fora. Gosto muito do meu recanto.

"Há ainda uma mentalidade que subsiste afirmando que a cultura irradia do centro do País, de Coimbra onde, segundo ela, se encontram as nossas verdadeiras raízes. Portugal tem quatro pontos cardeais, é verdade, mas dois são muito, muito estreitinhos: o oeste e o este. Ou seja, Portugal quase que não tem esquerda nem direita. Só centro. Centro e norte ... e novo riquismo.

"Estamos a sofrer uma hecatombe descomunal de novo-riquismo. Há disparidades incríveis na distribuição do dinheiro, uma parte das pessoas passa fome e outra sofre de indigestão por comer em demasia. É uma vergonha. As pessoas estão a caminhar para o antropofagismo. 

Entramos num restaurante e vemos dois empresários sentados. Não se matam a tiro, não, mas aquele que tem mais força nos dentes come o outro, devora o outro, deglute o outro. É um regresso à selva. Tenho por vezes de fazer um esforço muito grande para não pegar numa espingarda e desatar aos tiros, pum, pum!


BIOGRAFIA

Nascido em 1924 en Arronches, no Alentejo, Artur Semedo - actor, autor, realizador, encenador - fez-se uma figura angular no mundo do espectáculo e da boémia, do convívio e da comunicabilidade, da transgressão e da moda.

"Meu Amor é Traiçoeiro", que protagonizou com Laura Alves, e "Vidas Sem Rumo", com Helga Liné, foram interpretações suas, no teatro a primeira, no cinema a segunda, que o impuseram como um dos grandes galãs ibéricos.

Faleceu em 2001, em Lisboa.

( "ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta)  

Santo António (nascido Fernando Martins de Bulhões, c. 1191–1195 em Lisboa, e falecido a 13 de junho de 1231 em Pádua, Itália) é conhecido em Portugal como Santo António de Lisboa e no resto do mundo católico como Santo António de Pádua. Ficou na História pela sua opção pela disputa dialética em vez do combate violento contra os Cátaros ordenada pelo Papa Inocêncio III

Embora a devoção popular o recorde frequentemente como o "santo casamenteiro" ou o santo das coisas perdidas, do ponto de vista histórico e eclesiástico ele foi, acima de tudo, um dos maiores intelectuais, teólogos e oradores da Idade Média.

O génio de Santo António

O Primeiro Professor de Teologia dos Franciscanos: No início, São Francisco de Assis desconfiava dos estudos académicos, receando que a erudição destruísse a humildade da ordem. Ao ouvir António pregar numa ordenação sacerdotal em Forlì (1222), onde improvisou um sermão de profundidade bíblica e retórica impressionantes. 

Francisco rendeu-se e escreveu-lhe uma famosa carta autorizando-o a ensinar teologia aos frades: "Agrada-me que ensines a sagrada teologia aos irmãos, com a condição de que este estudo não extinga o espírito de oração e devoção". António fundou assim o ensino teológico formal da Ordem Franciscana, lecionando em Bolonha, Toulouse e Montpellier.


Percurso e Formação Intelectual

Antes de se tornar franciscano, Fernando de Bulhões teve uma formação erudita de topo:

Mestrado Agostiniano: Entrou jovem para os Cónegos Regulares de Santo Agostinho, primeiro em São Vicente de Fora (Lisboa) e depois no prestigiado Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Coimbra era então um dos maiores centros de saber da Península Ibérica, onde estudou a fundo a Bíblia, a Patrística (os Padres da Igreja, sobretudo Santo Agostinho) e as ciências medievais.

Transição para a Ordem Franciscana: Em 1220, tocado pelo martírio de frades franciscanos em Marrocos, pediu para ingressar na Ordem dos Frades Menores, adotando o nome de António. Levou consigo para uma ordem mendicante — que até então valorizava quase em exclusivo a pobreza e a simplicidade — uma bagagem teológica e bíblica sem paralelo.

Obra Escrita (Sermões Dominicales et Festivi): Deixou uma vasta compilação de sermões (Sermões Dominicais e Sermões para as Festas dos Santos). Estas obras não eram discursos populares em língua vulgar, mas tratados teológicos e homiléticos em latim, concebidos como ferramentas de formação para os pregadores da época. 

Apresentam um domínio enciclopédico do Antigo e Novo Testamento, utilizando alegorias, ciências naturais da época e a psicologia humana para interpretar os textos sagrados.

O "Martelo dos Hereges" (Malleus Haereticorum): Num século marcado por fortes crispações e movimentos heréticos (como os Cátaros e os Valdenses no sul de França e norte de Itália), António não recorreu à violência para os combater, mas sim à disputa dialética rigorosa, à coerência teológica e ao exemplo de vida despojada.

O argumento foi escrito por Ruben Alves em conjunto com Hugo Gélin e Jean-André Yerlès. Ruben Alves é ilho de pais portugueses que emigraram para França nos anos 1960 e 1970 — a sua mãe trabalhava como porteira e o seu pai na construção civil.

O filme é amplamente inspirado na história e vivências da sua própria família e da comunidade de emigrantes portugueses em França.


Trata-se de uma comédia que reune Ruben Alves com a atriz Rita Blanco (que protagonizou A Gaiola Dourada), ao lado de um elenco que inclui Joaquim Monchique, Ana Bola e Maria João Bastos.

Ruben Alves é um ator, argumentista e realizador luso-francês, nascido a 9 de janeiro de 1980 em Paris. 

Origens e Primeiros Passos

Filho de pais portugueses que emigraram para França nos anos 1960 e 1970 — a sua mãe trabalhava como porteira e o seu pai na construção civil —, Ruben

cresceu em Paris em contacto próximo com as duas culturas. Essa vivência bicultural tornou-se a sua maior marca artística.

Iniciou a sua formação artística no teatro e na representação no início dos anos 2000, trabalhando durante anos como ator em várias produções televisivas e cinematográficas francesas (como La vie devant nous, Secret Défense e Yves Saint Laurent).

A Gaiola Dourada (La Cage Dorée, 2013): A sua estreia na realização de longas-metragens foi um fenómeno de bilheteira em França e em Portugal. O filme aborda com humor, respeito e sensibilidade a vida de um casal de emigrantes (interpretado por Rita Blanco e Joaquim de Almeida). Venceu o Prémio do Público nos prestigiados Prémios do Cinema Europeu (EFA) e foi nomeado para o César de Melhor Primeiro Filme em França.

Miss (2020): A sua segunda longa-metragem como realizador, comédia dramática que acompanha um jovem rapaz que persegue o sonho de concorrer e vencer o concurso de Miss França. O filme destacou-se pela abordagem à identidade de género, aceitação e superação pessoal.

Santo António – O Casamenteiro de Lisboa: Projeto de comédia focado na energia bairrista de Lisboa e nos tradicionais casamentos de Santo António.

Outros Projetos e Reconhecimento

Além da ficção no cinema, Ruben Alves dedicou-se à música e à preservação da identidade cultural: realizou documentários e projetos audiovisuais com foco no Fado, incluindo parcerias e registos em torno de nomes como Carminho, além de participar ativamente em iniciativas de cooperação cultural entre Portugal e França.

Em 2013, o Estado Português atribuiu-lhe o grau de Comendador da Ordem do Mérito, em reconhecimento pelo seu contributo na divulgação da cultura portuguesa e na valorização das comunidades portuguesas no estrangeiro.

Quando havia bons jornais em Portugal, um dos de maior circulação, o Diário Popular, pegou num dos mitos mais queridos dos

lisboetas, Santo António e, ligando-o ao imaginário romântico do público criou, com grande êxito, os chamados Casamentos de Santo António, caracterizados por enlaces conjuntos de vários casais


Percebendo o seu significado identitário numa cidade, num país a perder raízes, o cineasta Ruben Alves realizou um filme de grande ternura sobre nós, ternura próxima da que sentimos pelo Santo - pelo que julgamos ele ter sido.

O povo da capital pegou nele e fê-lo, séculos atrás, seu símbolo, símbolo (alibi) de paganismos, de brejeirices, de matreirices. Não cuidou de saber se ele, um prestigiado e sábio franciscano, condizia com a imagem que lhe (im)pôs. Não condizia. Isso não teve, porém, importância. A ficção fez-se realidade e o santo tornou-se não no que era, mas no que diziam que era.

O desejo que algo aconteça costuma criar expectativas, condições para que esse algo aconteça. Isso explica o surgimento de líderes, de messias, de tiranos, de santos, de mitos. O mito de Santo António surgiu assim, a partir da vida de Fernando Martins de Bulhões, o seu nome verdadeiro, oriundo de uma família abastada de Lisboa.

Começou desde criança a sentir-se atraído pelas encenações religiosas que via realizar-se na Sé, ao lado da casa onde morava com os pais. "As pompas do culto, a beleza dos altares deliravam-no", dizem os cronistas. Aos 15 anos pede que o admitam como noviço. Aceite, entrega-se, convicto, à fé; e à Gramática, à Retórica, à História, à Teologia, disciplinas em vigor nas escolas catedralícias da época; e ao convívio, ao amor, à licenciosidade, à duplicidade frequentes entre rapazes na Idade Média.

A sua devoção vai, inteira, para a Virgem Santíssima, que escolhe como preceptora e sustentáculo. Ela ajuda-o a aceitar as paixões humanas que o aguilhoam - e que ele aguilhoa. É tentado, tenta, homens e mulheres, estrangeiros e passantes, desconhecidos e íntimos. "Joli garçon", "nice boy" lhe chamam os cruzados que sobem à Sé.

Iniciado pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho de São Vicente de Fora, o jovem transfere-se dois anos depois para o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. A biblioteca, o estudo, a escrita, a meditação tornam-se-lhe refúgios crescentes. Em 1220 é ordenado.

Conhece o ideal dos franciscanos e apaixona-se por ele. O ermitério de Santo António dos Olivais, de Coimbra, recebe-o. Adopta, em sua homenagem, o nome do patrono do convento.

Santo Antonio, o amigo do Papa

Uma tarde vê chegar os corpos de mártires de Marrocos. Siderado, quer embarcar imediatamente para o Norte de África e pelejar, e morrer pela 

expansão da fé. Embarca. Ao chegar ao Magrebe cai, porém, doente. Receosos, os superiores mandam-no para a Sicília. A Itália muda-lhe a vida.

Pregador de nomeada (chegava a ser e.scutado por mais de trinta mil pessoas), percorre o sul da Europa em campanhas de catequização e afectuosidade. Torna-se amigo pessoal de São Francisco de Assis e do Papa Gregório IX.Exaltado, acomete nas prédicas e nos escritos contra os homens da lei ("para ganharem dinheiro ladram nos pretórios como cachorros"), e contra os exploradores: "Oh, quantos se vestem de púrpura, isto é de pano tinto de suor e sangue do pobre, pois se vestem de lucros ilícitos!".

Entrega-se aos desprotegidos, aos infelizes, aos sofredores, aos doentes. Galvaniza-os. Galvaniza-se.

"Ninguém considere propriedade sua tudo o que subtraiu ao património de todos. O pão que a dispensa acumula pertence aos famintos. O dinheiro que tem escondido representa a parte dos pobres", exalta.Os seus sermões resultam excepcionalmente bem em termos de comunicação de massas. Construídos segundo os cânones da época, ganham impacto, luminosidade incomuns.

Padre António Vieira inspira-se neles para arquitectar a estrutura dos seus. Agostinho da Silva, o último grande orador português, considera-os "um modelo da arte de pensar e comunicar".Santo António faz-se um Zé Povinho dos altares, uma projecção quente, humaníssima de nós, um vingador das injustiças, desamores, impotências, abandonos, silenciamentos de nós.

Torna-se um herói no nosso imaginário popular e literário (Augusto Gil, Aquilino Ribeiro, Afonso Lopes Vieira, Agustina Bessa Luís), nas artes plásticas (Columbano, Pedro Alexandrino, Almada, Rosa Ramalho, Zé Franco), no teatro (João Villarett fará dele, satirizando Salazar, também António, uma das personagens mais fabulosas do Parque Mayer; Maria Emília Correia encenará um Menino ao colo, no Teatro da Trindade).

A fama de casamenteiro advém de, em jovem, ajudar raparigas desprotegidas a obterem dotes que lhes permitissem casar por amor. Vários regimentos (em Portugal, no Brasil, na Índia, em Moçambique) tomam-no para seu patrono, recebendo deles altos postos e soldos. Os mancebos (de todas as incorporações, de todas épocas) afeiçoam-se com gosto ao feitio anti formalista, anti-legalista, anti-elitista que diz-se ter sido o dele — ele que nunca foi tropa.

Numa terça feira,13 de Junho de 1231, moribundo, ele exclama de repente: "Vejo o Senhor!", estende os braços e expira. Tem 36 anos. Será canonizado pelo papa Gregório IX um ano depois. De imediato os meninos de Pádua correm pelas ruas gritando, "Morreu o Santo, morreu o Santo, o Santo, o Santo!"

Em 1934, Portugal declara-o seu padroeiro.

Ela tirou o véu e entrevistou

Oriana Fallaci enfrentou Khomeini

"Assinalou-se 20 anos da morte de uma das mulheres mais lúcidas e corajosas do mundo: a jornalista Oriana Fallaci.Deixo uma frase que escreveu dois anos antes de morrer e que parece ter sido escrita hoje:«Em vez de jovens instruídos, temos burros com diplomas universitários.


Em vez de futuros líderes, temos moluscos de calças de ganga caras e falsos revolucionários de cara tapada. E sabem que mais? Talvez esta seja também uma das razões pelas quais os nossos invasores muçulmanos têm tanta facilidade.»— Oriana Fallaci, 2004. Eis a famosa imagem de Fallaci quando, em 1979, em Qom, perante o próprio Ayatollah Khomeini e membros da Guarda iraniana, se recusou a continuar a usar o chador que lhe tinha sido imposto.

Disse-lhe:«Khomeini, vou tirar imediatamente este estúpido pano medieval.»E tirou-o.Leiam Oriana Fallaci. Vale bem a pena". de José Domingos Pereira 

Suécia esterelizou 63 mil mulheres até 1975

as justificações eram o direito a uma casa social ou por serem promíscuas ou... rebeldes. O país dos prémios Nobel !

A Suécia está agora a ser acusada de raptos de crianças mulçumanas. Mas não caso para espanto.

Já foi recentemente o país mais emblemático na esterelização forçada, embora programas semelhantes tenham existido em quase todos os países nórdicos (Noruega, Dinamarca e Finlândia).

Entre 1934 e 1975, a Suécia aplicou uma política estatal de esterilização baseada em princípios eugenistas e de engenharia social do Estado-providência. Durante esse período, cerca de 63.000 pessoas foram esterilizadas, na sua esmagadora maioria mulheres (mais de 90%).

Os critérios aplicados:

"Inaptidão" social e mental: Mulheres consideradas "promíscuas", "rebeldes", com dificuldades de aprendizagem ou diagnosticadas com "debilidade mental" (feeblemindedness).

Condições socioeconómicas: Mães solteiras, mulheres pobres ou pertencentes a famílias disfuncionais que o Estado considerava incapazes de

 educar cidadãos "produtivos".

Minoritários e marginalizados: Grupos como a minoria Romani/Tattare foram desproporcionalmente visados.

O consentimento era frequentemente obtido sob coerção — por exemplo, a esterilização era imposta como condição obrigatória para ter acesso a habitação social, apoios estatais ou mesmo para obter a custódia dos filhos já nascidos.

No final da década de 1990, após uma investigação jornalística revelar a verdadeira dimensão e os métodos do programa, o governo sueco criou uma comissão parlamentar de inquérito, emitiu um pedido de desculpas oficial e aprovou indemnizações financeiras para os sobreviventes. Programas com contornos idênticos vigoraram também na Noruega (cerca de 40.000 esterilizações), Dinamarca e Finlândia durante grande parte do século XX.

Charlie Chaplin 

Expulso dos EUA por ser pacifista


Regresso com 12 minutos de palmas

O maior aplauso de sempre de Hollywood

Primo Levi (1919–1987) é um dos mais conhecidos nomes de Auschwitz e sobreviveu. Era judeu. Primo Levi permanece como uma das vozes mais lúcidas, despidas de ódio e moralmente rigorosas do século XX. O seu legado transcende o mero relato testemunhal: Levi operou como um cientista da alma humana perante a aniquilação deliberada da dignidade.

A Sobrevivência em Auschwitz. Químico de formação e judeu italiano, Levi foi capturado em 1943 enquanto integrava a resistência antifascista e deportado para Auschwitz III (Monowitz) no início de 1944. 

A sua sobrevivência deveu-se a uma combinação improvável de fatores: a sua formação científica permitiu-lhe ser alocado a um laboratório da fábrica de borracha sintética da IG Farben nos meses mais frios de inverno.

A ajuda clandestina de um trabalhador civil italiano (Lorenzo Perrone) que lhe fornecia restos de sopa diários, é preciosa. 

A outra inesperada ajuda será ima crise de escarlatina no momento da evacuação alemã — o que o impediu de marchar nas letais "marchas da morte", acabando libertado pelo Exército Vermelho em janeiro de 1945.

A Obra: O Olhar Analítico da Memória Levi escreveu não para vingar, mas para compreender. A sua prosa caracteriza-se pela precisão descritiva, despida de histeria retórica:

Se Isto É um Homem (1947): Uma autópsia da desumanização. Levi detalha o sistema concentracionário onde a fome, o trabalho forçado e o frio desmantelavam a identidade do indivíduo até ao limite moral e biológico.

A Trégua (1963): A errática odisseia de regresso à Itália através de uma Europa oriental em ruínas, marcada pelo contraste entre a sobrevivência física e o trauma latente.

Os Afogados e os Sobreviventes (1986): A sua obra teórica definitiva, onde formula o conceito da "zona cinzenta" — o espaço moral ambíguo em que opressores e oprimidos se cruzavam para sobreviver, recusando simplificações maniqueístas do mal absoluto.

A negação do Holocausto

O Fim de Vida e o Peso da Memória A ideia de que Levi morreu "abandonado" no sentido social não corresponde exatamente aos factos, mas reflete com precisão o seu isolamento existencial e intelectual. Em Turim, Levi vivia integrado na família e cuidava da mãe idosa e doente, mas carregava o estigma profundo da culpa do sobrevivente — a angústia de crer que "os melhores não regressaram".

Nos seus últimos anos, o isolamento agravou-se perante a ascensão de correntes negacionistas do Holocausto e a indiferença das novas gerações, que lhe pareciam esquecer a facilidade com que um regime civilizado tomba na barbárie. 

Em abril de 1987, caiu do vão de escadas do seu prédio em Turim, com a investigação a concluir tratar-se de suicídio (embora amigos e biógrafos continuem a debater se foi deliberado ou um acidente provocado por vertigens e medicação). 

Elie Wiesel resumiu o impacto dessa morte afirmando que "Primo Levi morreu em Auschwitz quarenta anos depois".

A grandeza de Primo Levi reside em ter transformado a experiência do abismo humano num instrumento de conhecimento ético e racional, exigindo a cada leitor a responsabilidade permanente da lucidez.

World Press Cartoons

Todo o ouro já extraído da crosta terrestre seria insuficiente para pagar a dívida norte-americana. Seriam necessárias sete Nvidias ou cada cidadão norte-americano doar 117 mil dólares.

New York Times "A vingança molda as prioridades do presidente, impulsiona suas ações e estrutura as decisões do seu governo", escreve nossa colunista Jamelle Bouie. "Nenhum lugar é mais aparente do que quando Trump desvia o peso do governo federal contra aqueles americanos que desafiam a sua vontade." https://nyti.ms/4xxjJuv

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. 

Isr3l destroi o Libano

O mistério do navio de Portugal


Trump na mira dos cartoonistas americanos

Natália Correia

Por vezes fêmea. Por vezes monja.



De perfil

Poesia com dor já comprei
ou algo que de poesia
tinha a cordial dissipação
dos poemas que eu não escrevia.
Agora pela romântica
retórica de não ter dinheiro
a vendo avulso mas roubo
no peso como o merceeiro.
Esse pequeno furto é o meu quarto
(de alva) indicador insone
que disca o número de deus
num sub-reptício telefone
deus movediço que é uma rede
de linhas interrompidas
onde caio morta de sede
de jogar comigo às escondidas.
Escondendo o que de frente vejo
de perfil me vedes como os egípcios
não por vício de esconder um deus
mas o deus de esconder um vício.
Se um grama de mim sonego
a que chamo deus por ínvio rito
perdoai-me porque só vos roubo
aquilo em que não acredito.

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

0 mundo lisboeta de  Natália Correia


Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.

Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).

Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.

Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa. 

Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos. 

"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".

O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.

Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor. 

Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa". Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.

Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.

O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.

A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.

Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".

Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".

A  autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias. Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.

Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.


Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.

Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.