
BOTEQUIM
Edição semanal 02 a 09 de Fevereiro de 2026- sujeita a actualizações diárias
Flash: Gaza 50 ao dia, conta gotas
Ucrânia à espera da promessa das 24 horas de Trump
CNN: Escritórios de Musk em Paris
alvo de buscas da Policia Cibercrime
A polícia francesa realizou buscas na X em Paris e intimou Elon Musk para responder por crimes associados ao chatbot Grok, como a criação de deepfakes sexuais e a negação do Holocausto. A investigação, apoiada pela Europol, abrange ainda a suspeita de cumplicidade em pornografia infantil e violação de direitos de imagem.
Enquanto a empresa classifica a ação como um ataque político à liberdade de expressão, o caso agrava o braço de ferro entre o rigor regulatório europeu e a visão de Musk, podendo redefinir a responsabilidade criminal dos líderes das gigantes tecnológicas. (com a CNN)
Tão novo e tão velho já!

Jovens em ascensão na política e na comunicação têm tomado posições de algum retrocesso cultural - que a nossa evolução não fazia prever.
Num congresso partidário, um Jota defendeu, por exemplo, uma moção onde afirmava que as "famílias naturais são compostas por homem e mulher orientados para o nascimento e a boa educação dos filhos", filhos que "são a finalidade do casamento". Redutora concepção do amor!
Outros, do mesmo surto geracional (e mental) desconcertam ao pretenderem reduzir para nove anos o ensino obrigatório no País, e ao avançarem propostas de referendo da co-adopção e adopção de crianças por casais do mesmo sexo.
Quem tem posições assim - afirmava Natália Correia depois de destruir pelo ridículo, com um poema, ante o gozo geral, o deputado Morgado por idêntico raciocínio, num debate sobre a despenalização do aborto - é porque "não está muito seguro de si e necessita de transferir para outros o que deveria resolver dentro dos seus armários".
Portugal, que foi pioneiro na abolição da escravatura,
na proibição da pena de morte, na legalização do casamento gay, colocando-se na vanguarda dos povos evoluídos, vê-se agora constrangedoramente atirado, por mentalidades assim, para retaguardas da civilização. onda, tributária do conceito Deus, Pátria e Família, indisfarçavelmente homofóbica e misógina, sedutoramente culta e elegante, domina sobretudo, não para ele), não teve mulher, não casou, não engendrou proles.
O que acontecerá quando (se) os referidos jovens tomarem o poder nas suas mãos - e nos seus conceitos? Imporão, sob bênção da Igreja e da Nação, famílias coelheiras para assegurarem mão-de-obra barata e farta, carne fresca para canhões e camas, almas para pastoreios e caridades, contribuintes para fiscos e rapinagens, votantes para partidos de engodo e ludíbrio?
Uma tarde, ao descer o Chiado, Almada Negreiros encontra à porta da Bertrand Júlio Dantas, que tempos antes achincalhara com o seu grosseiríssimo e celebérrimo Manifesto.
Pára por momentos, cumprimenta-o respeitosamente e afasta-se rápido. Fleumático, o autor da Ceia dos Cardeais (uma pequena jóia da nossa dramaturgia) comenta para Luís d´Oliveira Guimarães: "Este Almada tão novo e tão velho já!"
ALERTA Maria João Quadrado, especialista em cirurgia oftalmológica
A arte de curar os olhos
"Portugal com excesso de degeneração macular e glaucoma"

Maria João Quadrado foi a primeira mulher a presidir à Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. E pedimos-he esta entrevista porque a visão é fundamental na criação artística. Jorge Luís Borges foi uma das excepções, James Joyce esteve perto. Camilo Castelo Branco não resistiu.
O mesmo se passou com Filintio Elísio. Homero foi um mito. José Saramago retratou a maior cegueira, que se tornou filme americano. E assim inauguramos um importante espaço à ciência no botequim.pt.
Estes são excertos da sua notável longa entrevista que repoduzimos na integra no fim desta 1ª página

É importante saber o que faz e pensa Maria João Quadrado uma das grandes impulsionadoras da utilização de lasers de última geração e da aplicação de novas técnicas de tratamento doença degenerativa e progressiva da córnea a nível Europeu e mundial. E revele-se: uma amante da boa leitura.
Começamos pela sua primeira escolha literária, Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz. Diz-nos Maria João: -Este livro é um monumento à capacidade de ver o próximo para além da própria identidade, combate o preconceito e valoriza a diversidade e a invisibilidade. Afonso Cruz ensinou-me que a perda, seja de objetos ou pessoas, continua a ocupar um espaço existencial. É uma lição sobre empatia e sobre como a beleza pode emergir do trágico e do quotidiano.
Passemos agora à actividade que exerce com destaque europeu e mundial. Os portugueses têm motivos para se preocupar com a saúde visual? A população com mais anos enfrenta um elevado número de doenças como catarata, degeneração macular e glaucoma. São motivos para grande preocupação.
E aumentam os oftalmologistas que praticam cirurgia? A cirurgia é considerada, digamos, bonita e muito gratificante em termos de recuperação. Conseguir pôr alguém a ver é uma felicidade. Imagine o que sentimos perante a felicidade da pessoa que recupera a visão.
E assim poderíamos dizer que tudo corre bem. Mas não, porque o maior desafio agora é assegurar aos novos especialistas melhores condições de trabalho e formação dentro do SNS. E garantir a sua distribuição equitativa no território.

Estamos perante um reconhecimento unânime da qualidade dos serviços oftalmológicos de Coimbra? O reconhecimento nacional e internacional da Unidade de Oftalmologia de Coimbra assenta na elevada qualificação da sua equipa clínica, composta por especialistas de todas as áreas da Oftalmologia. A maioria destaca-se como líder opinião científica, tanto a nível nacional como internacional. Esta equipa assegura uma abordagem integral e multidisciplinar no diagnóstico e tratamento das doenças oftalmológicas.
Estes são excertos da notável longa entrevista de Maria João Quadrado que repoduzimos na integra no fim desta 1ª página

Federar as nações europeias
Ainda não foi desta, a Europa não criou um exército único, nesta última reunião da NATO. A chefia militar continua fragmentada pelas capitais nacionais, quando Trump já deixou claro que a proteção americana acabou.
A Europa já não pode contar com o apoio dos Estados Unidos. A leste Vladimir Putin continua a ser uma ameaçapreocupante. E Pequim privilegia interlocutores que falem com uma só voz política.
A nossa aliança com a Índia é o primeiro passo para a diversificação. É urgente largar a dependência histórica face aos Estados Unidos. O federalismo das nações europeias é a salvação da Europa.

Federar as nações europeias
Ainda não foi desta, a Europa não criou um exército único, nesta última reunião da NATO. A chefia militar continua fragmentada pelas capitais nacionais, quando Trump já deixou claro que a proteção americana acabou.
A Europa já não pode contar com o apoio dos Estados Unidos. A leste Vladimir Putin continua a ser uma ameaçapreocupante. E Pequim privilegia interlocutores que falem com uma só voz política.
A nossa aliança com a Índia é o primeiro passo para a diversificação. É urgente largar a dependência histórica face aos Estados Unidos. O federalismo das nações europeias é a salvação da Europa.
O porquê de Trump

Durante 80 anos, a América foi o farol inquestionável da liberdade e o escudo protetor de uma Europa que se habituou a viver à sua sombra. Abrimos as portas à cultura norte-americana, consumimos a sua música e os seus filmes, rendidos a um aliado que definia o rumo do Ocidente. Contudo, a América de Trump decidiu virar as costas à Europa, pondo em causa a confiança que garantia mútua segurança e estabilidade.
O botequim.pt está, obviamente, muito atento ao que se passa com Trump, porque os seus passos terão um reflexo fundamental sobre o futuro do mundo, das ideias europeias e da nossa própria noção de liberdade.
Sentimo-nos já um pouco órfãos, forçados a procurar uma identidade que negligenciámos. O foco no fenómeno Trump não é apenas curiosidade, é a consciência de que o isolacionismo americano nos obriga a enfrentar, sozinhos, as incertezas de um futuro onde os valores democráticos estão sob ameaça.
É ainda perceber quem são as imitações Trumpistas e os perigos que representam para os valores humanistas da nossa vida da nossa Europa. jrr

A Nova VISÃO
Os jornalistas da Visão planeiam um negócio "prudente e realista" para os próximos dez anos. A estratégia foca-se na viabilidade económica, evitando riscos financeiros desnecessários. Atualmente, trabalham para a massa insolvente sem acumular novas dívidas no processo. Pelo contrário, o trabalho da equipa tem servido para liquidar passivos anteriores do grupo. O diretor Rui Tavares Guedes sublinha que o projeto é sustentável e economicamente possível. Apesar do esforço e dos resultados positivos, ainda existem salários em atraso por regularizar. A meta de 200 mil euros foi atingida para permitir a compra do título em leilão.

Com este valor, dizem, será criada uma nova empresa, gerida pelos próprios jornalistas, do zero. O objetivo final é garantir um futuro independente, livre e com estabilidade financeira.

Vizinhos são apenas sombras
Os novos burgos são labirintos de vidro e pó cinzento. Cada janela guarda um silêncio que ninguém ousa interromper por rotina.
A solidão instala-se nas fissuras invisíveis das vigas mestras das torres. Corpos cruzam-se no hall sem que os olhares colidam ou se procurem. O asfalto absorve o calor de passos que não deixam rasto algum. A luz artificial substitui o ciclo lento e necessário dos dias naturais.
Há um isolamento planeado em cada linha da planta de arquitetura. Vizinhos são apenas sombras que se

adivinham através de paredes finas. A cidade expande-se mas o encontro humano contrai-se em cada metro.
O betão armado é a pele fria desta nova forma de existir. Ficamos sós no centro exato de uma imensa multidão de pedra.
Menino do Minnesota pode voltar a ser detico


O menino de cinco anos e o seu pai, que foram detidos no Minnesota, já foram libertados, mas correm o risco iminente de voltar a ser detidos. Depende agora de uma sentença definitiva de um tribunal Federal.
De acordo com a determinação judicial, o prazo de liberdade provisória estende-se até terça-feira, data em que o caso volta a ser analisado. A decisão de libertação foi proferida pelo juiz Fred Biery, que condenou a operação do ICE como uma busca "mal concebida" por quotas de deportação, sublinhando o trauma desnecessário causado a menores.
O caso tornou-se um símbolo de resistência após a divulgação das imagens de Liam, a criança de cinco anos, cuja vulnerabilidade perante os agentes federais gerou uma onda de indignação nacional.
O novo caminho marítimo para a Índia
Donald Trump forçou a Europa a libertar-se da tutela americana e a abraçar a Índia e, inevitavelmente, com a China num horizonte próximo. Assiste-se a um "voltar aos descobrimentos" onde o velho continente procura as rotas do Oriente. Trump navega sem bússola, apresentando uma estratégia incerta que corroeu a confiança entre os aliados históricos e os mercados globais.
A constante clara da doutrina caótica de Trump é a promoção da guerra sem fim. Uma necessidade vital para a sua indústria militar. Pilar fundamental e insaciável da economia norte-americana nos últimos 100 anos. A.J.Breda

Cartonistas d'olho no ICE






O abate do Jornalismo

Tornou-se moda nos últimos tempos o anatemizar, culpabilizar o jornalismo, ou seja os que o exercem, os jornalistas, pelos males abatidos sobre o país, repetindo-se uma vez mais a reacção de matar o mensageiro pelas más notícias que divulga.
A ilusão de que não se conhecendo as desgraças elas deixam de existir fez, faz - sobretudo na política, na economia, na justiça, etc. - caminho largo.
Os jornalistas passaram a "jornaleiros", as notícias a "lixo", os comentadores a "comentadeiros", os periódicos a "pasquins" e assim por diante. Adiante.
Em muitos, demasiados casos, isso é, com efeito verdadeiro, mas é-o como consequência, não causa, fruto de estratégias ardilosamente concebidas nesse sentido.
Por os interesses dos dominadores quase nunca corresponderem aos dos dominados, surgiu a decisão de controlar o que lhes é dirigido, ou seja, se torna público. As ditaduras resolvem-no através de censuras directas, as democracias de manipulações indirectas; as primeiras utilizando repressores, as segundas sedutores.
Assim tem sido. Ao desaparecimento, com o 25 de Abril, da Censura oficial surgiu (pela sua privatização)
a censura sem, obviamente, esse nome de partidos políticos, de instituições, de administrações, de autarquias, de tudo com poder e desvergonha.
A seguir à Revolução entregaram um jornal (mais do que um até!) a cada partido, infestaram as redacções de comissários políticos, proletarizaram os jornalistas retirando-lhes independência e intervenção (o PS de Sócrates acabou-lhes com a sua assistência médica), trocaram hierarquias por ideologias, criaram cursos de comunicação (de formatação), ou seja, perverteu-se a liberdade de criação, de expressão.
Cereja no bolo: a culpa passou, depois, a cair nas vítimas, vítimas que não são os travestidos de jornalistas, os sabotadores do jornalismo, mas os profissionais dele, mensageiros imolados por ele.
"Tão censurante é, em ditadura, impedir de dizer, como em democracia obrigar a dizer", repetia Natália Correia - e nós com ela.
'É como eu aponto as coisas'.
Cozinheiro compulsivo da família, em casa alheia trato de ajudar no que fôr preciso mesmo que a cozinha da vizinha esteja mais suja que a minha. Há dias deitei ao lixo lixo que nem era meu: latas de conserva, gargalos de iogurte, voltarenes encarquihados, rolos de papel higiénico sem destino, sacos secos de chá, resquícios de ovos mal cozidos e lascas de sabonete. E diz-me horrorizada a dona da casa: 'atiras à rua a minha lista de compras?!'.


Diz que há gente assim e eu nem sabia: a que nos pede uma lista escrevinhada ou a fixa notelemóvel para melhor ir às compras e aquela outra que deixa pedaços de lixo ao lado do fogão, a meio caminho do caixote, para se lembrar daquilo que tem de voltar a comprar. Aprendi a lição. Hoje de manhã vi cascas de cebola no chão da rua e pensei: 'ora gaita, que alguém se esqueceu do bloco de apontamentos'.
A universalização de Paula Rego
. António Brás
O universo de uma das maiores artistas plásticas do século XX pode, actualmente, ser observado em diversos museus ao longo do País através dos seus óleos, colagens, aguarelas, desenhos, litografias e azulejos. Porto, Lisboa, Cascais, Ponta Delgada são algumas das cidades que homenageam Paula Rego através de exposição das suas obras verdadeiramente excepcionais.
https://youtu.be/kvGnwBMDq84?si=X_eQn6mV4aCVjwV6
A pintora surpreende-nos com trabalhos onde nos dá um retrato do seu (nosso) quotidiano actual, nimbado de inquietações, delírios, disfarces, solidão e violência.
No Palácio de Belém destaca-se a capela com um conjunto de obras suas. A pintora baseou-se no Ciclo da Vida da Virgem para criar 8 pastéis sobre a Anunciação, Natividade, Adoração, Purificação, Fuga para o Egipto, Lamentação, Pietã e Assunção. O convite partiu de Jorge Sampaio quando visitou em Fevereiro de 2002 o atelier da artista em Londres.

Paula Rego aceitou de imediato a proposta e, num gesto de invulgar sensibilidade, ofereceu os quadros ao Estado. Antes de virem para o nosso País, eles estiveram patentes na Tate Gallery, em Londres. No fim da mostra o director da instituição declarou "que os trabalhos não deveriam, dado o seu grande valor artístico, sair de Inglaterra". O interesse
.

suscitado foi tal que Paula Rego recebeu o convite para decorar um igreja inglesa.
A Fundação de Serralves preserva um conjunto de obras da artista. Em 2003 organizou uma grande retrospectiva sua que cobriu toda produção de Paula Rego, sendo composta por obras datadas de 1996 a 2004.
A presença de Paula Rego nas instituições portugueses tem vindo a acentuar-se. A Casa das Histórias, em Cascais, preserva um espólio fundamental, onde se destaca o desenho.
Os museus do Chiado e o Centro de Arte Arte Moderna da Gulbenkian e a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, em Lisboa, detém obras de grande valor. O mesmo acontece com a extinta Fundação Berardo no CCB.
https://youtu.be/mH8OCT1-lIg?si=8fjO2cFOpcElqxSu
No mercado galerista e leiloeiro as obras de Paula Rego são um investimento seguro, mas elevado. Nos últimos anos ela tornou-se, com efeito, uma das artistas mais bem cotadas entre nós.
As leiloeiras Cabral Moncada, Correio Velho e Veritas levaram à praça obras da artista por milhões de euros, enquanto em Londres o tríptico Avestruzes e Bailarinas atingiu os quatro milhões de euros na Christie`s, valor que a coloca entre os artistas mais valorizados.
João Pinto Coelho
O escritor português do Holocausto

João Tordo
João Pinto Coelho nasceu em Lisboa em 1967 e licenciou-se em Arquitetura. Viveu na Polónia, experiência que marcou profundamente a sua escrita literária e a sua visão do mundo.
Estreou-se no romance em 2015 com a obra Perguntem a Sarah Gross. O livro foi finalista do Prémio Leya e recebeu grande aclamação da crítica e do público.
Em 2017 venceu o prestigiado Prémio Leya com o romance Os Loucos da Rua Mazur. A sua escrita destaca-se pelo rigor do trabalho documental e pela profunda sensibilidade humana.
https://youtu.be/drJ8HpnC6aU?si=o65MPJQKRE-YVQTZ
Explora frequentemente temas ligados ao Holocausto e à construção da memória coletiva europeia. Publicou Um Tempo a Fingir em 2020, focando a realidade da ditadura portuguesa. É conhecido por cruzar destinos individuais dramáticos com as grandes tragédias históricas do século vinte.
Divide habitualmente o seu tempo entre o atelier de arquitetura e a criação literária regular.
Tordo

Perguntem a Sarah Gross
Este romance de estreia de João Pinto Coelho, publicado em 2015, é uma narrativa densa que entrelaça o passado e o presente através de uma estrutura de tempos alternados. A história arranca em 1968, quando Kimberly Parker, uma jovem professora americana, viaja para a Polónia para lecionar numa escola de elite em Cracóvia. É aí que conhece a enigmática Sarah Gross, uma figura central da instituição cuja presença emana um mistério profundo e doloroso.
O livro transporta o leitor para os anos 40, revelando a vida de Sarah antes e durante a sua permanência no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Através de uma escrita visual e rigorosa, o autor explora não apenas a brutalidade do Holocausto, mas a complexidade da "zona cinzenta" da moralidade humana: as escolhas impossíveis que as vítimas tiveram de fazer para sobreviver e a culpa que as perseguiu no pós-guerra.
https://youtu.be/l3Em2B0hoqQ?si=3bqGMkD8lAriZAki
Em 2023 lançou Mudar de Destino, reforçando o seu lugar nas letras nacionais. É considerado atualmente uma das vozes mais sólidas e respeitadas da ficção portuguesa contemporânea.
À Mesa dos novos Poetas
Judite Canha Fernandes

De O Mel sem Abelhas (2025)
Neste trabalho mais recente, a autora explora a crueza da existência e a resistência do espírito:
"Não me tragas flores colhidas no jardim do vizinho,
traz-me as ervas daninhas que furaram o asfalto.
Há mais dignidade na sobrevivência do que na beleza,
mais verdade no grito do que no canto ensaiado.
Vivemos num tempo de doçura fabricada,
onde o mel é servido sem o perigo do enxame.
Mas eu prefiro a picada que me lembra que estou viva,
ao silêncio estéril de quem nunca ousou desejar."
"Aprendi a ler o vento antes de saber as letras.
Na ilha, o horizonte é uma promessa e um castigo.
Rodeados de azul por todos os lados,
inventamos caminhos por baixo da água,
ou por dentro do peito, onde o mar não chega.
Escrever é apenas outra forma de nadar:
bater os braços contra o esquecimento
até que a margem se decida a aparecer."
Judite Canha Fernandes nasceu no Funchal, em 1971, tendo-se mudado para Ponta Delgada, em 1980. Fernandes licenciou-se em Ciências do Meio Aquático e doutorou-se em Ciência da Informação, tendo também uma pós-graduação em Biblioteca e Arquivo.
Fernandes é uma ativista feminista tendo sido representante da Europa no Comité Internacional da Marcha Mundial das Mulheres entre 2010 e 2016. Foi também foi subscritora da carta aberta "A emergência é social e económica".
É considerada uma das vozes mais multifacetadas e premiadas da literatura contemporânea em Portugal, distinguindo-se pela sua escrita visceral e politicamente empenhada.


De Um Passo para Sulgtfyrtghy
Este livro, embora seja um romance, é atravessado por uma linguagem profundamente poética que reflete sobre a herança colonial e a distância: "A distância é uma forma de ferida que não fecha, um mapa desenhado com o sangue de quem partiu. Olhamos para o Sul como quem olha para um espelho baço, procurando o rosto que deixámos na outra margem. O que sobra de nós quando a terra nos expulsa? Apenas a memória, esse animal faminto, que mastiga o passado até o transformar em lenda."
O Mel sem Abelhas é uma obra visceral que explora a resistência e a crueza da existência através de uma linguagem densa e corporal.
Judite Canha Fernandes rejeita a doçura artificial do mundo moderno, preferindo a verdade da dor e do "ferrão" como provas de uma vida autêntica. Os poemas funcionam como ferramentas de escavação da memória e do corpo, afirmando a escrita como um ato de legítima defesa contra o esquecimento. É um livro sobre a sobrevivência e a urgência de manter uma voz livre e pulsante.

Espectacular iniciativa
Teatro Nacional de S. Carlos



Quem é o maestro
luso-polaco Jan Wierzba
Jan Wierzba, luso polaco tem-se destacado pela sua versatilidade, dirigindo tanto repertório sinfónico clássico como ópera e música contemporânea.
Foi maestro titular da Orquestra Clássica do Centro e é uma presença regular à frente das principais orquestras nacionais, como a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Tem tido um papel fundamental neste festival, dirigindo produções que desafiam o formato tradicional da ópera e a aproximam de novos públicos. É conhecido pela sua precisão técnica e por uma enorme curiosidade intelectual, colaborando frequentemente com compositores vivos e estreando obras inéditas.
Isra*l continua a bombardear Gaza
O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel.
Fotos da tragédia que está a acontecer em GAZA
As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes.
A suposta paz prometida por Trump revelou-se uma ilusão perigosa, servindo apenas para dar tempo a que a violência se intensificasse sem escrúpulos.
É uma violação flagrante de qualquer decência humana: a diplomacia falha e o ego dos líderes mata, deixando os mais inocentes à mercê de explosões e do estômago vazio. Enquanto o mundo assiste a este jogo de poder, o silêncio da fome é o grito mais alto de uma guerra que ignora todas as regras..
https://youtu.be/tsCvhIrAL-w?si=Aqnp9L5WWploaPQY

Judeus de Israel não têm coração
As crianças estão a morrer de fome no chão que Cristo pisou; enquanto o mundo católico, ortodoxzo, copta ou druso anda em preces e romarias, evocando o nome de Jesus que também ali foi escorraçado.
Há 2 mil anos a poeira era a mesma, mas o olhar do crente tornou-se agora cego, Ignorando que em Belém a vida definha sob o peso de um exército poderoso. Naquele tempo era um exército romano, hoje é um exército de judeus oriundos dos países do leste europeu e da Ucrânia.
A indiferença cristã separa os evangelhos da tragédia que o solo hoje verte,. São tempo diferentes disse-me uma padre que escreve que se farta.
Tratando locais santos como relíquias, enquanto a carne viva ali se perde. Como se a dor Palestina fnão fosse a mesma dor de todos os povos ali foram habitar.
Como no tempo de Cristo, morre-se de novo na mão da omissão que ora por superstição. Aqui fica uma fotogaleria breve de tanha enorme tragédia. jrr
















Raul Solnado: fintou a censura e pôs a guerra a ridículo
Raul Solnado conseguiu o impossível: usar o riso como o cavalo de Troia para desarmar a ditadura. Com o icónico "A Guerra de 1908", desmistificou o horror militar através de um humor aparentemente ingénuo, mas profundamente revolucionário.
Ao transformar o combate numa sucessão de trapalhadas, retirou a glória ao conflito e ridicularizou a rigidez das forças armadas.
A censura, iludida pela gargalhada fácil, deixou passar críticas que, se proferidas seriamente, teriam sido silenciadas. O público ria do absurdo da guerra, sem perceber que assistia a um manifesto pacifista em pleno regime. Foi a vitória da inteligência sobre o censor, provando que a comédia pode ser a arma mais eficaz contra o autoritarismo.
O senhor que ensinou Portugal a rir
Raul Solnado (1929–2009) foi o senhor que ensinou Portugal a rir de si próprio, transformando a melancolia nacional numa gargalhada coletiva. Nascido na Madragoa, começou por trabalhar na Carris antes de o seu talento para a comédia o levar a dominar os palcos e o pequeno ecrã. Diz-se que foi um maçon desiluido que entrou e saíu do Grande Oriente Lusitano.
Ficou eternamente imortalizado pelo sketch "A Guerra de 1908", onde ridicularizou o absurdo militar em plena ditadura, e foi um pioneiro absoluto ao apresentar o Zip-Zip, o primeiro talk-show português.
Um dos marcos mais importantes da sua carreira foi a fundação do Teatro Villaret, em 1964, um espaço que idealizou para trazer modernidade e novos autores à cena lisboeta. Além disso, dedicou o seu enorme espírito humanitário à criação da Casa do Artista, protegendo os seus colegas de profissão.
Com a sua ironia característica, dizia que "fazia anos todos os dias", mantendo sempre uma cumplicidade única com o público até ao seu falecimento. Solnado não foi apenas um humorista; foi um símbolo de inteligência e liberdade que provou que o sorriso é a ferramenta mais poderosa para iluminar a alma de um povo.

Uma tropa bafienta impede divulgação de Solnadio
Já não é Historia da Guerra é o boicote da Direcção de Arquivos. Não é posível encontar um úni o video das exibições ou entrevistas de Raul Solnado na RTP. Os brasileiros, por exemplo, recorrem à gravação dos audios como podemos ver em 3 videos sequenciais do brasileiro Johnny do Carmo. Lamentável. É como se houvesse ainda uma Tropa a encarcerar a memoria colectiva portuguesa.
A direção de arquivos da RTP boicota a cultura portuguesa ao impedir que vídeos essenciais da nossa história comum sejam retransmitidos, republicados ou replicados. Através de uma blindagem burocrática e comercial, o arquivo público torna-se um cofre inacessível, exigindo fortunas para que obras fundamentais sejam exibidas noutras plataformas.
Esquece-se que a importância cultural e histórica de determinadas obras se deve sobrepor a questões meramente comerciais. Ao priorizar o lucro sobre o acesso, condena ao esquecimento momentos que pertencem à memória coletiva do povo, transformando um património que deveria ser de todos num produto de luxo.
A cultura de um país não pode ficar refém de tabelas de preços que asfixiam a divulgação da nossa própria identidade.
Quando a liberdade corre perigo
Em poucas palavras, Santo Agostinho ensinava que a verdade se defende sozinha, enquanto Churchill via no populismo o combustível para a tirania.

Quem se esconde atrás de palavras fáceis foge da realidade para impor o controlo. O discurso populista não procura esclarecer, mas sim camuflar a sede de poder absoluto através da manipulação das massas.
A ditadura alimenta-se da erosão da linguagem honesta. Quando a retórica substitui os factos, a liberdade corre perigo imediato. Para ambos os pensadores, a palavra vazia é a ferramenta predileta de quem teme a verdade. No fundo, a imposição do autoritarismo começa sempre no silêncio de quem aceita a mentira como solução. Desmascarar o populismo é o primeiro passo para preservar a dignidade e a autonomia individual. (cartoon de zé bandeira). jrr
ALERTA Maria João Quadrado, especialista em cirurgia oftalmológica
A arte de curar os olhos
"Portugal com excesso
de degeneração macular
e glaucoma"

Maria João Quadrado foi a primeira mulher a presidir à Sociedade Portuguesa de Oftalmologia. E pedimos-he esta entrevista porque a visão é fundamental na criação artística. Jorge Luís Borges foi uma das excepções, James Joyce esteve perto. Camilo Castelo Branco não resistiu. O mesmo se passou com Filintio Elísio. Homero foi um mito. José Saramago retratou a maior cegueira, que se tornou filme americano. E assim inauguramos um importante espaço à ciência no botequim.pt.

É importante saber o que faz e pensa Maria João Quadrado uma das grandes impulsionadoras da utilização de lasers de última geração e da aplicação de novas técnicas de tratamento doença degenerativa e progressiva da córnea a nível Europeu e mundial. E revele-se: uma amante da boa leitura.
Começamos pela sua primeira escolha literária, Para onde vão os guarda-chuvas de Afonso Cruz. Diz-nos Maria João Quadrado: - Este livro é um monumento à capacidade de ver o próximo para além da própria identidade, combate o preconceito e valoriza a diversidade e a invisibilidade. Afonso Cruz ensinou-me que a perda, seja de objetos ou pessoas, continua a ocupar um espaço existencial. É uma lição sobre empatia e sobre como a beleza pode emergir do trágico e do quotidiano.
Passemos agora à actividade que exerce com destaque europeu e mundial: Os portugueses têm motivos para se preocupar com a saúde visual?
A miopia está a aumentar, especialmente entre os jovens, e a população com mais anos enfrenta um elevado número de doenças como catarata, degeneração macular e glaucoma. São motivos para grande preocupação.

E já existem estratégias de combate?
Sim, temos a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia que tem feito campanhas de sensibilização e produção de orientações científicas. Ao mesmo tempo autoridades de saúde atuam ativamente, com ações concretas: rastreios da visão em idade escolar e a gestão das listas de espera para a cirurgia de catarata no Serviço Nacional de Saúde. Assegura Maria João Quadrado numa voz calma que inspira confiança.
As campanhas de rastreio são suficientes para o Serviço Nacional de Saúde conhecer as urgências e actuar?
Existe uma preocupação crescente, embora às vezes tardia. As pessoas tendem a procurar ajuda quando a perda de visão já afeta significativamente a sua vida diária. Os rastreios necessitam ser otimizados. Precisamos de campanhas mais robustas, em especial direcionadas para patologias silenciosas, como o glaucoma ou a retinopatia diabética, as principais causas de cegueira que é evitável.

O caminho para esta deteção precoce e o sucesso da intervenção oftalmológica é a aposta na telemedicina e em rastreios digitais, integrados nas políticas de saúde.
Continuam a existir muitas queixas por excessivo tempo de espera...
É verdade a Oftalmologia é uma das áreas com maiores listas de espera no SNS para consultas e cirurgias de rotina. As cirurgias de catarata são uma das principais causas deste tempo de espera. E eu considero uma grande desafio dar resposta a todos os utentes dentro do tempo regulamentar.
Existe actualmente um grande número de oftalmologistas
O aumento no número de oftalmologistas interpreta-se, em primeiro lugar, como um sinal da necessidade: a população que é mais idosa e também a problemas visuais como a catarata e a degenerescência macular que são cada vez mais prevalentes, volto a frisar.
É uma atração recente?
Não. A Oftalmologia foi sempre uma especialidade muito desejada pelos jovens médicos, porque consegue aliar a tecnologia de ponta à capacidade de devolver a qualidade de vida aos doentes. Este é um motivo de atração muito forte.

E aumentam os oftalmologistas que praticam cirurgia?
A cirurgia é considerada, digamos, bonita e muito gratificante em termos de recuperação. Conseguir pôr alguém a ver é uma felicidade. Imagine o que sentimos perante a felicidade da pessoa que recupera a visão.
E assim poderíamos dizer que tudo corre bem. Mas não, porque o maior desafio agora é assegurar aos novos especialistas melhores condições de trabalho e formação dentro do SNS. E garantir a sua distribuição equitativa no território.

.
A estabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde é suficiente?
Considero que são necessários passos em diferentes vertentes para salvaguardar e valorizar o SNS. As propostas deveriam ser orientadas na valorização dos profissionais, na melhoria da organização e do acesso e também na estabilidade no financiamento.
Por um lado, é essencial valorizar os profissionais, com salários justos e carreiras motivadoras, para conseguirmos fixar os excelentes médicos e enfermeiros formados no país. O SNS deve voltar a ser o empregador de excelência. Numa segunda vertente, é crucial reorganizar os cuidados e focar na resposta atempada. Isso passa pelo reforço dos Cuidados de Saúde Primários e por otimizar a gestão das listas de espera.

Além disso, o SNS necessita de um aumento e estabilidade do financiamento e de uma reforma da gestão. É preciso permitir decisões rápidas e priorizar áreas com elevado retorno, como a transplantação de órgãos e tecidos. Também é fundamental investir na transição digital para aumentar a transparência e eficiência dos sistemas.
E o Serviço Nacional de Saúde tem eficácia funcional suficiente para esse desafio?
O principal desafio do SNS é a sua sustentabilidade a longo prazo. O sistema sofre com a falta de planeamento estratégico de recursos humanos, o que leva à exaustão dos profissionais e à perda de talento, além de ser dificultado pela burocracia excessiva.
Os profissionais de Coimbra têm-se destacado Oftalmologia. Qual é a justificação?
A Oftalmologia em Coimbra tem uma excelência e notável nível científico e clínico graças à profunda e histórica colaboração clínica e académica entre o Hospital da Universidade de Coimbra - atual Unidade Local de Saúde de Coimbra - e a Faculdade de Medicina.

Esta relação cria um micro-ambiente único onde o ensino e a investigação andam de mãos dadas com a prática clínica de grande complexidade.
Estamos perante um reconhecimento unânime da qualidade dos serviços oftalmológicos de Coimbra?
O reconhecimento nacional e internacional da Unidade de Oftalmologia de Coimbra assenta na elevada qualificação da sua equipa clínica, composta por especialistas de todas as áreas da Oftalmologia. A maioria destaca-se como líder de opinião científica, tanto a nível nacional como internacional. Esta equipa assegura uma abordagem integral e multidisciplinar no diagnóstico e tratamento das doenças oftalmológicas. Paralelamente, a UOC evidencia
uma preocupação constante com a prestação de cuidados personalizados,.
Alia-se, assim, um atendimento rigoroso e humanizado à utilização de equipamento tecnológico de última geração. - algum só existente nesta unidade- bem como à existência de um centro dedicado a ensaios clínicos.

Eu sinto que este alicerce de excelência é amplamente reconhecido pelos doentes e pela comunidade científica . E tem permitido a Coimbra participar e liderar diversos projectos de inovação clínica e científica.
Como é gerida a Unidade de Oftalmologia de Coimbra?
A nossa unidade integra e promove múltiplos estudos e ensaios clínicos de elevado impacto. Nomeadamente na avaliação e optimização da qualidade visual após cirurgia de catarata, no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas para o olho seco e patologias da superfície ocular, na investigação avançada de doenças da córnea, incluindo técnicas de transplantação e avaliação de novos fármacos.
.

O mesmo sucede na área da retina, com particular enfoque em patologias prevalentes e que podem ser altamente incapacitantes. Falo da retinopatia diabética e a degenerescência macular relacionada com a idade.
Estes projetos reforçam o compromisso institucional da Unidade Oftalmologica de Coimbra com a inovação, a investigação ao mais alto nível e a melhoria contínua da qualidade dos cuidados de saúde prestados a todos os doentes.

Interrompemos agora para voltar à escrita e à paixão pela leitura de Maria João Quadrado. A visão é muito importante nas artes. A nosso pedido Maria João Quadrado destaca agora um segundo livro.
Aponto Milk and Honey de Rupi Kaur, porque reclama o corpo feminino e o trauma como territórios de escrita legítimos. Interessa-me como ela transforma a vulnerabilidade extrema numa forma de poder e resistência política. Escreve para uma coletividade que foi silenciada.
Na parte final deste livro, sabemos, a autora celebra o amor-próprio e a resiliência da mulher. Aproveitamos para perguntar se sente discriminação na sua profissão.
O setor da saúde em Portugal é marcado por um paradoxo notável: embora a maioria esmagadora dos profissionais e estudantes de Medicina seja constituída por mulheres - mais de 70% na base-, esta representação inverte-se drasticamente nos cargos de topo.
Infelizmente, a discriminação ainda existe e manifesta-se na sub-representação feminina nos centros de decisão, nomeadamente na gestão hospitalar, direções de serviço e liderança académica. É fundamental as mulheres assumirem posições de gestão e liderança.

Como aconteceu no seu caso?
Eu presidi à Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, a Subdireção da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e à gestão do Banco de Tecidos Oculares. Foi não só um serviço, mas um compromisso. A liderança feminina enriquece a tomada de decisão, trazendo perspectivas de gestão, comunicação. E as prioridades tendem a ser mais inclusivas e colaborativas, situações cruciais em ambientes complexos.
A liderança médica feminina já foi testada?
Eu fui ainda fundadora da Women in Global Health Portugal e Women in Global Health - Comunidade Lusófona. São iniciativas vitais para este avanço. Elas nascem da necessidade de criar uma rede de apoio e visibilidade.
As jovens médicas e investigadoras pretendem deste modo equidade no acesso às oportunidades. com competências inquestionáveis.
Através da mentoria, estas posições de liderança tornam-se uma plataforma para mostrar às próximas gerações um caminho aberto e acessível. O objetivo não é substituir a liderança masculina, mas complementá-la e garantindo uma excelência do SNS com a pluralidade de todos os talentos. Quando uma mulher assume um cargo de liderança, representa um avanço sistémico em todas as vertentes.
Como é que se situa dentro da oftalmologia?
A minha melhor realização tem sido a vertente integradora. Ou seja colocar a dedicação e o serviço público na pratica da clínica e da academia. Esta visão manifestou-se em diversas áreas de impacto e liderança, onde a presidência da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia foi para mim um marco.

Ao mesmo tempo ser Professora na Faculdade de Medicina tem-me permito moldar o futuro, através dos meus alunos e das teses de doutoramento.
Em termos de gestão e organização da saúde, ser subdiretora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e gerir o Banco de Tecidos Oculares de Coimbra dá-me a oportunidade de ter um impacto real. Alem disso, adiciono ainda o meu trabalho na Women in Global Health, com plena convicção de que a ciência tem de ser justa e inclusiva.
.

Os próximos anos serão fáceis no tratamento dos portugueses com problemas de visão?
A Oftalmologia enfrenta desafios críticos, que ameaçam a sustentabilidade dos cuidados a nível nacional e global, bem como a sua equidade. Em Portugal, o foco principal é a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

A nível global, o setor é pressionado pelo crescimento acelerado da Miopia, particularmente em populações jovens.
Por outro lado, a Retinopatia Diabética é um desafio clínico enorme, porque a população de diabéticos está a aumentar a nível global. É necessário, em resumo, um maior foco nas doenças relacionadas com o envelhecimento, como a catarata, a degeneração macular relacionada com a idade e o glaucoma. A resposta a estes desafios terá de ser um grande investimento na prevenção, rastreio, inovação e tratamento.
A terminar pedimos a Maria João Quadrado o seu terceiro livro. A escolha foi Canção Doce de Leïla Slimani.
Para mim Leila Slimani possui uma 'escrita-bisturi'. Destrói o mito da domesticidade perfeita e da maternidade idealizada. Interessa-me a forma como ela expõe as falhas tectónicas da nossa sociedade - o isolamento urbano e a invisibilidade de quem cuida - sem oferecer soluções fáceis ou moralismos.
entrevista de António Brás
"Creio no amor que é o meu pão profundo"
Nátalia Condenada condenada
a prisão
pelo "Poesia Erótica e Satírica"
O Enigma de Portugal
"Onde é que Portugal começa e acaba? É nesta mágoa de sermos o que não somos? Neste destino de mar que nos desaba Nas mãos vazias com que nos pomos?
Somos um povo de ausências e de brumas, Escrevendo o nome na espuma das marés, Buscando entre as estrelas e as espumas A pátria espiritual que não se vê.
Não somos este chão de barro e pedra, Nem este mapa de fronteiras traçadas. Somos a luz que na alma se nos medra E as palavras por nós nunca ditadas.
Portugal é um sonho de Deus que nos habita, Uma saudade de um futuro que não veio. É esta voz que no silêncio grita E o mistério que trazemos no seio.
Somos os marinheiros do impossível, Os construtores de um império do espírito, Buscando na luz o que é invisível E no silêncio o que não foi escrito.
Erguemos templos à nossa própria sede, Bebemos o vinho da nossa solidão. Não há muro, não há cerca, não há rede Que prenda o voo do nosso coração."

O império espiritual
transcende a política
Natália Correia não foi apenas uma poetisa mas um verdadeiro sismo na cultura portuguesa do século vinte trazendo das ilhas um misticismo rebelde que escandalizou a capital e desafiou abertamente o regime com a sua antologia de poesia erótica e satírica em 1966.
Foi por isso condenada a prisão suspensa sem nunca conseguir silenciar a sua voz indomável. Reinando no seu bar Botequim entre fumo e debates intelectuais proibidos levou essa irreverência para a Assembleia da República onde desarmou o patriarcado com versos mordazes improvisados como o célebre poema do truca-truca que humilhou o conservadorismo cego em plena sessão parlamentar.
Defensora da despenalização do aborto num tempo de tabus absolutos Natália viveu entre o sagrado e o profano acreditando num império espiritual que transcendia a política terrena sem nunca pedir licença ou perdão para existir.
Detestava o cinzentismo nacional e a pequenez de espírito das elites da sua época morrendo finalmente como viveu sendo uma força da natureza que ninguém jamais conseguiu domesticar deixando um legado de liberdade que continua a pulsar no coração das letras portuguesas.
"Sou filha de mim própria e de mais ninguém. Do meu silêncio fiz uma voz que me convém. Do meu orgulho fiz um teto que me cobre. E da minha pobreza a minha herança nobre. Não me peçam razões que eu não as sei dar. Sou como o vento: nasci para passar."
"Não te quero só para o amor. Quero-te para a raiva e para o espanto. Quero-te para o riso e para o pranto E para o que o corpo tem de mais pudor. Quero-te para a vida que se esquiva Na palma da mão que se nos fecha. Quero-te para a sombra e para a queixa E para a alma que em nós arde viva."
"Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na feitiçaria da palavra,
Creio no amor que é o meu pão profundo,
Creio na luz que o meu silêncio lavra.
Creio que a vida é um intervalo breve
Entre duas noites que não têm fim.
Creio que o sol é uma moeda de neve
Que Deus gastou para criar o jardim."

Rocochete
Que margens têm os rios?
para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
de imaginarmos por vê-la
tudo à volta imaginário?
Que paralelas partidas
nos articulam os braços
em formas interrompidas
para encarnar um espaço?
Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
onde o relógio do vento
pára na hora da lua?
Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro por nós?
- Natália Correia, em "Passaporte".













