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Edição de botequim.pt, 29 de Junho a 03 de Julho de 2026, sujeita a alterações diárias

Mais abaixo a História do Líbano em vídeo


Nenhuma imagem mostra tudo


Num presente marcado pela circulação incessante de imagens e pela ilusão de que tudo pode ser tornado imediatamente visível, importa recuperar o enquadramento como operação crítica.Ver não é aceder ao todo: é entrar num campo delimitado por escolhas; o que se mostra, o que se omite, o que se aproxima, o que se afasta. É nesse território que percebemos que o visível não existe sem o invisível que o sustém, o limita e lhe dá forma.

Nenhuma imagem mostra tudo. Toda a imagem é um recorte. Enquadrar é escolher, e escolher é já interpretar. O invisível não é o que nada significa, mas aquilo que a imagem deixa de fora para construir a sua própria clareza. A tradição renascentista fixou esta ideia ao pensar a pintura como uma "janela": não a duplicação integral do mundo, mas uma forma enquadrada de o tornar visível.

Las Meninas, 1659. Diego Velázquez. (Museu do Prado, Madrid)

A pintura organiza um campo de visão complexo em que o espelho, ao refletir as majestades, introduz no interior da imagem aquilo que está, simultaneamente, fora dela

Por isso, o enquadramento não deve ser entendido como simples moldura exterior ou detalhe técnico. É uma operação de autoria e de mediação. Define um dentro e um fora, estabelece relações, produz hierarquias e atribui centralidade. O enquadramento não limita apenas a imagem: organiza a sua inteligibilidade. Ao isolar elementos, cria relação; ao interromper formas familiares, transforma-as em fragmento; ao fixar um limite, começa a desenhar a geometria do sentido.

A história da arte mostra-o com clareza. Um fragmento retirado de um conjunto maior pode passar a ser lido como obra autónoma; uma borda visível pode denunciar cortes, perdas ou deslocações de contexto. O enquadramento nunca é inocente: pode preservar, mas também reenquadrar; pode proteger, mas também alterar a forma como a obra passa a ser entendida. O que fica de fora não desaparece sem resto — permanece como contexto suprimido, memória latente ou ausência ativa.


Rua Parisiense - Dia Chuvoso, 1877. Gustave Caillebotte. (Instituto de Arte de Chicago)

O corte das margens e a colocação das personagens fazem-nos sentir que o campo visível é apenas uma parcela de uma realidade mais ampla, que funde com o espectador

Na fotografia, esta condição torna-se particularmente evidente. Enquadrar é selecionar uma fatia do mundo através de um limite. O que entra no campo determina a leitura; o que fica para lá da margem continua, muitas vezes, a atuar por inferência. 

Um corpo cortado, um objeto interrompido ou um fundo reduzido não impedem a compreensão — podem até intensificá-la, concentrando a atenção e tornando a afirmação visual mais concisa. O essencial é isto: a imagem não reproduz simplesmente o visível; constrói um regime de leitura.



Mas esta lógica não pertence apenas à fotografia. Também no design o enquadramento é uma forma de pensamento. A página, o cartaz, a capa ou a composição tipográfica não são superfícies neutras: são campos de seleção, de corte e de orientação do olhar. Uma letra fragmentada pode continuar legível; uma forma interrompida pode ativar reconhecimento; uma palavra encostada à margem pode ganhar tensão. O que não se mostra por inteiro deixa de ser falta e torna-se recurso expressivo. A exclusão participa, assim, na construção do sentido.

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Mãe Migrante, 1936. Dorothea Lange

Mostra que o enquadramento dispensa a acumulação de sinais de pobreza, porque o rosto da mãe concentra a dureza da condição vivida

Ver bem é mais do que identificar o que está diante dos olhos. É reconhecer que toda a imagem resulta de uma escolha. A literacia visual começa quando deixamos de perguntar apenas "o que vejo?" e passamos a interrogar "porque vejo isto assim?", "que recorte tornou esta forma possível?", "o que foi necessário excluir para que estes elementos ganhassem evidência?". O visível não se esgota no que aparece: organiza-se também a partir do que foi omitido, subtraído ou deixado para lá da margem.

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Nazaré, Portugal, 1955. Henri Cartier-2Bresson.

Cartier-Bresson faz do enquadramento uma forma de condensação visual: a praia é naturalmente vasta, mas o olhar recebe-a como espaço saturado

Na cultura visual, enquadrar é sempre mais do que delimitar. É decidir. É ordenar. É atribuir relevância. E essa operação não pertence apenas às imagens. Também na vida escolhemos, recortamos, aproximamos, afastamos, deixamos entrar e deixamos de fora. Num tempo marcado pela exposição contínua, pela urgência da resposta e pela pressão para tornar tudo imediatamente visível, talvez importe lembrar que nenhuma clareza nasce sem limite e que nenhum sentido se organiza sem escolha.

O que parece apenas delimitar é o que verdadeiramente permite ver, compreender e habitar o mundo.

Beat the Whites with the Red Wedge, 1919. El Lissitzky.

A composição constrói-se através de formas geométricas que entram e saem do enquadramento

Divan Japonais , 1892. Toulouse-Lautrec.

Toulouse-Lautrec faz do corte parcial de Yvette Guilbert um elemento decisivo da composição

Poster House, 2017. Identidade Corporativa. Paula Scher

Paula Scher utiliza o enquadramento como linguagem. O limite deixa de ser neutro e passa a produzir significado

Beat the Whites with the Red Wedge, 1919. El Lissitzky.

A composição constrói-se através de formas geométricas que entram e saem do enquadramento

Der Film,1960 . Josef Müller‑Brockmann.

As formas tipográficas e geométricas parecem continuar para lá da margem, sugerindo um espaço que existe, mas não é mostrado

José Saramago 

o escritor maldito do terramoto de 1755


A Venezuela carrega um novo fardo: os dois terremotos simultâneos. Já não bastava os desgovernos de Chavez e Maduro e agora também as investidas da Nobel Corina Machado e do SenhorTrump.

 A propósito deste terremoto, catástrofe que toca profundamente o coração de  todos, recordamos alguns autores uie abordaram este tema. Entre os quais José Saramago, o escritor maldito do tempo de Cavaco e Silva e agora de novo acoçado por Luiz Montenegro. que o quer retirar do ensino escolas portuguesas 

O livro de referência absoluta e de grande peso literário que retrata de forma magistral o drama e a devastação de um sismo é o Memorial do Convento, (1982), do prémio Nobel português José Saramago.

Embora o foco central do livro seja a construção do Convento de Mafra e a história de amor dos protagonistas, o Terramoto de 1755 em Lisboa é um dos momentos mais dramáticos, viscerais e impressionantes de toda a narrativa.


Lisboa destruida pelo Terramoto

Saramago descreve o cataclismo não apenas como um evento geológico, mas como o desabar físico e psicológico de uma capital inteira, mostrando o pânico da população, a destruição das igrejas e o incêndio que se seguiu.


A cidade antes do Terramoto de 1755

Montenegro quer 'despedir' Saramago 

A polémica estalou após o Ministério da Educação (do governo liderado por Luís Montenegro) apresentar uma proposta de revisão curricular das Aprendizagens Essenciais de Português para o secundário.

O que a proposta faz: Retira a obrigatoriedade de leitura integral de uma obra de José Saramago (como Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis) no 12.º ano. Em vez disso, a obra do único Prémio Nobel da Literatura português passa a ser opcional, permitindo que as escolas escolham, em alternativa, um livro de outro autor (como Mário de Carvalho).

A posição do Governo: O ministro da Educação defende que a revisão é "absolutamente técnica", que o autor não é banido das escolas (mantém-se como opção ou contrato de leitura) e que se pretende dar maior autonomia aos professores para diversificar o repertório literário.

Os críticos (Fundação Saramago, escritores e professores): Manifestaram enorme indignação através de cartas abertas. Defendem que abrir a porta à opcionalidade fará com que milhares de alunos terminem o liceu sem nunca ler Saramago. A Fundação José Saramago sugeriu ironicamente que o governo devia usar a palavra "e" em vez de "ou", adicionando novos autores sem excluir o Nobel. Até o antigo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou a intenção como "um bocadinho estranha".

Grandes livros sobre 

o drama de um terramoto

O Terramoto no Chile (Das Erdbeben in Chili), de Heinrich von Kleist (1807)

Este clássico da literatura alemã é uma das novelas mais dramáticas alguma vez escritas sobre o tema.





 Passado em Santiago do Chile durante o sismo de 1647, a história acompanha dois amantes condenados à morte pela sociedade e pela Igreja. O terramoto destrói a cidade e a prisão, libertando-os temporariamente. A obra usa o sismo como uma força brutal da natureza que expõe a hipocrisia, a crueldade e o fanatismo religioso dos sobreviventes.

Voltaire escreveu livro sobre Terramoto 

de Lisboa

Outro escritor gigante da literatura mundial que escreveu uma obra-prima centrada num terramoto foi Voltaire (1694–1778), com o seu célebre livro Cândido, ou o Otimismo (1759)


O filósofo e escritor francês usou o devastador Terramoto de Lisboa de 1755 como o cenário central para desabar com a filosofia da sua época. No livro, o protagonista Cândido chega a Lisboa exatamente no momento do cataclismo.

Voltaire descreve a destruição da cidade, as mortes e, logo a seguir, a reação absurda das autoridades e da Inquisição, que decidem realizar um "auto de fé" (queimar pessoas vivas) para convencer a terra a parar de tremer. É uma das sátiras mais brilhantes, negras e profundas sobre o drama de uma catástrofe natural e a estupidez humana que se lhe segue.

Após o Anoitecer ou Contos de Páscoa, de Haruki Murakami

O famoso escritor japonês escreveu a coletânea de contos Depois do Terramoto (2000)







especificamente como uma resposta ao devastador sismo de Kobe em 1995. Embora as personagens não estivessem necessariamente no epicentro no momento exato, as suas vidas foram fraturadas psicológica e emocionalmente pelo abalo. Murakami retrata o drama invisível, o trauma e o vazio que um desastre desta magnitude deixa na mente humana.

Richter 10, de Arthur C. Clarke e Mike McQuay (1996)

No campo da ficção científica e do drama especulativo de grande escala, este livro aborda o trauma de um jovem que perde a família num sismo quando era criança. Ele torna-se um sismólogo obcecado em prever o próximo grande terramoto ("The Big One") que ameaça destruir a Califórnia. É uma obra que mistura o drama psicológico com a tensão científica da iminência de uma catástrofe.

Rómulo Gallegos, 

o grande escritor da Venezuela

O escritor mais popular, lido e influente da história da Venezuela é, sem dúvida, Rómulo Gallegos (1884–1948). Ele não foi apenas um gigante da literatura latino-americana, mas também uma figura central na

 política do país, tendo chegado a ser Presidente da República (o primeiro eleito de forma direta e limpa no século XX na Venezuela).

A sua relevância e popularidade assentam nos seguintes pilares:

Doña Bárbara (1929)

Este é o romance mais famoso da Venezuela e um clássico absoluto da literatura em língua espanhola.

 A história passa-se nas planícies (los llanos) venezuelanas e funciona como uma alegoria do próprio país: o embate entre a civilização e o progresso (representados por Santos Luzardo) contra a barbárie, a corrupção e a natureza selvagem (personificadas na implacável latifundiária Doña Bárbara). A personagem tornou-se um mito cultural na Venezuela.

O Prémio Rómulo Gallegos

Para atestar o seu impacto, o prémio literário mais prestigiado de toda a América Latina (equivalente ao Prémio Camões para a língua portuguesa ou ao Prémio Booker) foi batizado em sua honra em 1964: o Prémio Internacional de Romance Rómulo Gallegos. Grandes nomes como Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa venceram este galardão.

Outros Autores Venezuelanos de Enorme Popularidade:

Embora Rómulo Gallegos seja o clássico indiscutível, há outros dois nomes fundamentais que rivalizam em popularidade e leitura:

Arturo Uslar Pietri (1906–2001): Um dos intelectuais mais importantes do século XX na Venezuela. O seu romance histórico Las lanzas coloradas (1931), sobre a independência venezuelana, é lido por quase todos os estudantes no país. Foi ele quem popularizou o termo "Realismo Mágico" na literatura.

Rafael Cadenas (1930): No campo da poesia, Cadenas é o autor mais célebre e venerado vivo, tendo inclusive ganho o prestigiado Prémio Cervantes (o maior galardão da literatura espanhola). O seu poema "Derrota" tornou-se o hino de gerações inteiras de jovens na América Latina.

Não achincalhem os séniores


Revelou-se deveras insólito o abaixo-assinado que tem circulado nas redes sociais portuguesas pedindo a retirada da carta de condução automóvel aos maiores de 70 anos por serem considerados perigos públicos


Tal afirmação não se apoia, no entanto, nem em estudos científicos, nem em estatísticas credíveis nem, sequer, conclusões médicas não havendo, por isso, bases objectivas para a sustentarem.

Pelo contrário, as informações existentes revelam ser na faixa dos condutores em causa que menos acidentes se observam, o que é lógico dada a sua maior experiência e prudência no conduzir.

Se fossem pessoas melhor informadas, os autores da petição saberiam, como sublinhava o professor Almerindo Lessa (gerontologista de projecção internacional) que com a idade "as pessoas não perdem capacidades importantes", desde que "não sofram de doenças que as limitem nos seus comportamentos"; perdem, sim, "rapidez de raciocínio, que se torna um pouco mais lento, como num carro quando se passa da quinta velocidade para a quarta. Apenas isso".

Cursos de actualização, inspecções médicas regulares avisam se surgirem alterações nos condutores. É uma tremenda injustiça, um insulto mesmo à dignidade pessoal dos visados, pensar, introduzir semelhantes imposições.


Alertado pela estranha iniciatica, o Automóvel Clube de Portugal pronunciou-se condenando a peregrina proposta e, oportunamente, sugerindo medidas apropriadas à diminuição do flagelo dos acidentes rodoviários em Portugal - que passa por maior rigor no ensino, incentivos aos melhores condutores, menor fiscalidade sobre os veículos (e sobre a compra de peças de substituição), mais racionalidade nas sinalizações, atenta conservação das vias, problemas reais que deviam, esses sim, preocupar-nos.

Entretanto, uma directiva da União Europeia garante a "renovação vitalícia das cartas de condução" com controle médico após os 70 anos de idade, sendo os próprios a decidir se devem, e quando, prescindir de guiar.

O álcool, o telemóvel, as obras mal sinalizadas, algumas trotinetes, alguns ciclistas, a caça à multa são (psicologicamente) muitíssimo mais condicionadores da serenidade de quem está ao volante do que as suas idades.

Aliás, e lembrando de novo Almerindo Lessa, "ninguém sabe a idade que tem, pois os nossos órgãos contêm tempos diferentes, a data do bilhete de identidade refere apenas a altura do nascimento. Não achincalhem mais os séniores!"

História dos números difíceis que nos atrapalham

Afinal quantos éramos em 1930, em 1974, em 2011 e... em 2024

Os números da imigração deixam-nos 'apardalados' entre as falas do senhor Ventura e o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) . Vejamos.

Nos recuados anos de 1930 éramos de 6.826.000 habitantes. E em 1963 atingimos os 9.042.000,ou seja mais 2.216.000

A seguir 1971 baixámos para 8.624.000. Enviámos 418.000 portugueses para o mundo, para escadas, portarias e construção civil, em França, África do Sul e Venezuela.

Em 1974 a população subiu 8 879000, quando alguns regressaram desses martírios.

Com o fim das Colónias, em 1976, subimos para 9.405.000, mais 526.000 (e não 1 milhão). Fomos aumentando até 10.562.178 em 2011, ou seja mais 1.157.178, em 35 anos.


Em 2020 baixámos para 10.298.252, a 'Troiquice' mandou 263.926 habitantes para fora do País.

E depois? 2021 - 10.344.802 habitantes (Ano de Censos); 2022 - 10.467.366; 2023 - 10.639.726; 2024 - 10.749.635 habitantes.

E depois num passe de mágica passámos para 11.424.031, em 2025, ou seja mais 674.396 e no Governo de Luís Montenegro

Fica claro que não  enviámos 1 mihão de portugueses para o mundo entre 1960 e 1973 (que teriam resultado em 5 milhões) e que não regressou um milhão das Colónias. Também se estranha num ano apenas de 2024-2025  tamanho salto populacional de 10.749.635 habitantes para 11.424.031 em pleno Governo de Luís Montenegro.

Ah! Aconteceu num País já com 730 mil casas fechadas, em 2023, segundo relatório da OCDE, publicado pelo Jornal Expresso. 

E já agora existiam 2.700.000 a 2.800.000 fogos (casas) em 1974 em Portugal. Mas no Censos de 2021, o INE registou exatamente 5.961.328 alojamentos familiares clássicos em Portugal. Cerca do dobro de casas, mas a população não dobrou de 8.624.00 para  17.248.000. Está em 11.424.031. jrr

O 'grande milagre' de Matt Brittin, ex-alto executivo da Google

BBC vai despedir 559 trabalhadores

Admitido em 18 de Maio passado, vai despedir um quarto da força da BBC


Matt Brittin, ex-alto executivo da Google admitido há um mês na BBC, traz um "milagre": despedir uma parte substancial da força da mais prestigiada empresa de comunicação do mundo, a BBC. Esta é uma solução típica das gestões americanas. E acontece depois do Carlos III ter recebido com pompa exagerada Trump e da visita do rei aos Estados Unidos da América.


Brittin planeia rescindir o contrato com 559 dos 2.000 trabalhadores, o que representa aproximadamente 25% de toda a sua força de trabalho. Destes, já foi confirmado que 550 postos de trabalho serão eliminados especificamente na divisão da BBC News e em cargos ligados à televisão e rádio, afetando a programação devido à necessidade de cortar £500 milhões no orçamento nos próximos dois anos.

O atual diretor-geral é Matt Brittin, um antigo alto executivo e ex-presidente da Google para a região da Europa, Médio Oriente e África (EMEA).

Matt Brittin assumiu formalmente as suas funções no dia 18 de maio de 2026. Foi nomeado para o cargo em março de 2026 para suceder a Tim Davie, que se demitiu no final do ano anterior.

O Comando

Não, não se trata de um comando militar, de um qualquer poderoso comando político, empresarial, banqueiro ou dos media, em que pivots armados com um microfone e uma câmara, verdadeiras armas de arremesso, entram na nossa casa, acolitados por uma legião de apresentadores, moderadores, observadores, politólogos, analistas, comentadores,

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constitucionalistas, sempre os mesmos, ao longo dos anos, eficientes censores sem lápis azul, hábeis manipuladores, que, em vez da mordaça, criam à volta do telespetador um ruído e uma confusão tais de desinformação e de contrainformação, que acaba por não compreender nada do que se passa, a não ser futebol, peregrinações, telenovelas, reality shows, faits-divers de bairro, ad nauseam, para infantilizaçãodas mentes; manchetes inflamadas, descontextualizadas, sem haver lugar a desmentido ou 


ao contraditório. A par de outras formas de censura, subtis, mas não menos eficazes: ignorar opiniões contrárias; institucionalizar o delito de opinião; impor o pensamento único do "politicamente correto;" criminalizar o uso de determinadas palavras ou expressões."Estamos em guerra, numa guerra entre sistemas de informação e manipulação dos

 relatos, desinformação e propaganda," como adverte Rafael Dávila Álvarez. Vivemos num regime capturado

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 pelos poderes político, académico, woke, religioso, económico, financeiro! E ai de quem não pactuar!

E, no entanto, contra tudo isto, dispõe o indefeso telespetador de uma arma poderosíssima, que não passa de um pequeno objeto, o comando do televisor, com o qual, ao mudar de canal, expulsa de sua casa reis, presidentes da república, papas, banqueiros e toda a casta de gente importante que se vem instalar no seu doce lar sem lhe pedir licença. 

Com o seu comando, pode o telespetador determinar a vida ou a morte dos canais televisivos: é que, sem audiências, não há publicidade; sem publicidade, não há receitas; sem receitas, as televisões fecham as portas. Eis o seu enorme poder, que lhe é conferido por este pequeno objeto.

"ESPÓLIO" 

Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa a Fernando Dacosta


Alves Redol

"Tenho um grão de loucura"


"Nós, escritores, somos como que cronistas do Rei, só que o nosso Príncipe se chama Povo. É-me muito doloroso escrever. Até fisicamente. Nas primeiras páginas sinto a sensação de me arrastar sobre um caminho de pedras e espinhos. Depois torna-se mais fácil, entusiasmante, como se descesse uma montanha.

"Escolhi esta casa para viver, em Caxias, a fim de ficar mais perto dos que estão presos no Forte. Os fins de semana passo-os em Vila Franca de Xira, a minha terra. Nasci em 1911. Quando lá chego, visto uma camisa de pescador e deambulo, com indizível paixão, pelos locais e pessoas da juventude.

"O meu avô paterno era ferreiro e o materno campino. A infância foi-me carregando de mortos, mortos por tuberculose, então uma doença terrível. Por isso eu queria ser médico, para lutar contra ela. Tive, porém, de começar a trabalhar como marçano. Quando frequentava o curso Comercial descobri a escrita. O meu pai tornara-se, entretanto, correspondente local do Diário de Notícias, pelo que cedo contactei com os seus enviados às feiras do Ribatejo. A minha paixão pelos jornais surgiu dessa maneira. Aos 16 anos fui para Luanda.

"África foi um deslumbramento, foi a minha universidade. Dava aulas de taquigrafia, fui funcionário público, fiz publicidade. Três anos depois uma doença obrigou-me a regressar. Vim no Angola, o primeiro barco a fundear na Madeira depois da revolta. Publiquei o primeiro livro aos 26 anos, editado por mim. O Rodrigues Lapa deu-me uma secção no Diabo. Encarei a escrita como um boxeur, um combate. Era amigo de muitos jogadores de boxe, achava, aliás, muito parecidas as duas actividades. Fui eu quem incentivou o Soeiro Pereira Gomes a publicar os Esteios.

"Tenho, como pessoa, um grão incontido de loucura!"


 Biografia

António Alves Redol é uma das grandes referências do neo-realismo português, tendo dedicado toda a sua actividade (literária e cívica) a enobrecer os desfavorecidos, os perseguidos, os esquecidos, o que lhe valeu embates constantes com a ditadura e a censura da época. Filiado no PCP, integrou o MUD e a Associação Portuguesa de Escritores.

Gaibéus, Fanga, A Barca dos Sete Lemos, Barranco de Cegos, Forja (teatro) são títulos cimeiros a sua obra. Faleceu em Lisboa em 1969.

"ESPÓLIO" - Reflexões inéditas de vultos da cultura portuguesa, já falecidos, a Fernando Dacosta

Portugueses já foram 'bangladeshs' em França

Governo quer até 12 meses de detenção para imigrantes ilegais 

A memória de um país é curta, os portugueses já foram os Bangladesh de França, nas décadas de 1960 e 70, há cerca de 60 anos. Mas nunca se ouviu por lá falar em centros de detenção temporária de 360 dias (um ano), como quer agora o Governo de Montenegro.

Largas centenas de milhar atravessaram a fronteira ilegalmente e viviram sem documentos nos arredores de Paris, em bairros de lata chamados de bidonvilles, por terem sido construídos com chapas e desperdícios. O fotógrafo Gérald Bloncourt imortalizou e documentou a vida dos emigrantes portugueses nos bidonvilles franceses, o célebre foi Champigny-sur-Marne. 

Paris tem hoje quase um milhão de portugueses e seus descendentes, os chamados luso-descendentes. O Governo esqueceu o acolhimento progressivo que os portugueses tiveram em França, tão necessários ao desenvolvimento daquele país.

O Governo de Montenegro ignora este passado e avança com um endurecimento drástico das suas políticas migratórias através da nova "Lei do Retorno", assente nos seguintes pontos fundamentais: jrr

Deportação imediata dos imigrantes ilegais

O Governo decidiu eliminar a atual Notificação para Abandono Voluntário (NAV). Atualmente, quando um imigrante ilegal é detetado, recebe um prazo (geralmente de 20 dias) para sair do país pelo seu próprio pé. O Executivo considera que isto gera arrastamentos e ineficácia, pelo que as decisões de afastamento coercivo (deportação) passarão a produzir efeitos imediatos.


Prazos de Detenção Alargados até 360 Dias

Para garantir que o Estado tem tempo para organizar os processos de repatriamento, o limite máximo de detenção nos Centros de Instalação Temporária (CIT) sofre uma alteração drástica: o limite de detenção estende-se agora até 360 dias (12 meses) para a execução do retorno.

 

Fim do Efeito Suspensivo do Asilo

Até agora, se um cidadão em processo de expulsão avançasse com um pedido de asilo-proteção internacional, o processo de deportação ficava automaticamente congelado. A proposta do Governo dita que o pedido de asilo deixa de suspender o processo de afastamento. 

Criação de Medidas de Coação Alternativas

Para que a detenção seja mesmo o último recurso, a lei passa a prever alternativas para os imigrantes que aguardam o repatriamento, tais como: O pagamento de uma caução/garantia financeira, entrega obrigatória dos documentos de viagem às autoridades. A colocação do cidadão num regime de instalação aberto nos centros.

Detidos em módulos e menos critérios de proteção

O Governo anunciou o reforço urgente da capacidade dos CIT (Lisboa e Porto), recorrendo inclusive a estruturas de construção modular temporárias para criar entre 300 a 600 novas vagas até ao verão. Além disso, os critérios humanitários que antes protegiam os cidadãos da expulsão imediata serão significativamente revistos e restringidos.

Gérald Bloncourt: o fotógrafo dos portugueses dos Bidonville

Gérald Bloncourt.

Apesar de ser amplamente conhecido como um fotógrafo francês, Bloncourt nasceu no Haiti em 1926 e exilou-se em França na sua juventude, onde desenvolveu uma carreira marcante como fotojornalista humanista e militante.

Ele ficou profundamente tocado pela miséria e pelas condições em que os portugueses que fugiam do regime de Salazar e da Guerra Colonial viviam nos arredores de Paris. 


Bloncourt não só os fotografou com enorme dignidade e respeito, como chegou a fazer a pé a rota clandestina do "salto" através dos Pirenéus com os emigrantes para registar os perigos da viagem.

As suas fotografias tornaram-se o arquivo visual mais importante e comovente da história da emigração portuguesa em França. Gérald Bloncourt faleceu aos 92 anos

Este livro reúne cerca de 150 fotografias históricas captadas por Bloncourt, documentando não só a miséria dura dos bairros de lata nos arredores de Paris, mas também a viagem clandestina "a salto" através dos Pirenéus que o próprio fotógrafo fez ao lado dos emigrantes portugueses nos anos 60.

Literatura chinesa em destaque

"Sogro Vermelho" Mo Yan 


a luta da China contra o exército invasor japonês


"Sorgo Vermelho" (Hong Gaoliang Jiazu), publicado em 1986 pelo escritor chinês Mo Yan é uma das obras mais importantes da literatura contemporânea chinesa.

O livro é um romance histórico e uma saga familiar que se passa na província de Shandong (na vila fictícia de Northeast Gaoliang) e estende-se ao longo de várias décadas, concentrando-se principalmente nos anos 1930, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

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Um livro na primeira pessoa

A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:

Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Um livro na primeira pessoa

A história é contada na primeira pessoa por um narrador omnisciente que reconta a vida dos seus antepassados. A narrativa não é linear; ela salta constantemente no tempo (entre o passado e o presente), misturando memórias, lendas locais e factos históricos. O foco está em três gerações, mas principalmente nos avós do narrador:

Yu Zhan'ao (o avô), um antigo carregador de liteiras que se torna bandido e, mais tarde, líder de um exército de resistência local. Dai Fenglian (a avó, também conhecida como Jiu'er), uma mulher forte e determinada.

Urso de Ouro em Berlim

O livro quebrou os moldes da literatura na China, ao mostrar heróis que eram imperfeitos, violentos e motivados por paixões pessoais. A obra ganhou ainda maior projeção internacional com a icónica adaptação ao cinema em 1987, realizada por Zhang Yimou e protagonizada por Gong Li, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim.

O realismo mágico

Violência e Crueldade: Mo Yan utiliza um realismo visceral. O livro descreve com detalhe a brutalidade da guerra, execuções, tortura (como o famoso episódio do homem esfolado vivo pelos japoneses) e a fome. Não há romantização da guerra. Apesar da opressão e da tragédia, as personagens transbordam uma paixão primitiva pela vida, pelo sexo, pela terra e pela liberdade.

Mo Yan mistura a crueza histórica com elementos míticos e superstições locais. Os cães da vila tornam-se selvagens e lutam pelos corpos dos mortos; o vinho de sorgo parece ter propriedades de cura e coragem.


O cenário e o simbolismo do sorgo

O sorgo vermelho (um cereal muito comum na China) não é apenas o cenário onde a história se passa; é o elemento central e simbólico de todo o livro. Ele representa a própria essência do povo chinês daquela região: rústico, resistente, violento e indomável. É no meio dos campos de sorgo que as personagens amam, lutam, escondem-se e morrem. O sorgo também é a matéria-prima para o famoso vinho local, que ganha contornos misticos na história.

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A invasão japonesa

A trama começa com o casamento arranjado de Dai Fenglian com o filho leproso do dono de uma destilaria de sorgo. Durante a procissão do casamento através dos campos de sorgo, ela conhece Yu Zhan'ao, um dos carregadores da sua liteira. Há uma atração imediata.

Pouco tempo depois, o marido leproso e o sogro de Dai Fenglian são misteriosamente assassinados (subentendendo-se que o autor foi Yu Zhan'ao). Dai Fenglian assume o controlo da destilaria. Yu Zhan'ao junta-se a ela, e os dois tornam-se os patriarcas da família, gerando o pai do narrador.

A vida de crime e a gestão da destilaria são brutalmente interrompidas pela invasão do exército imperial japonês. A partir daí, o livro transforma-se numa crónica de guerra sangrenta. Yu Zhan'ao organiza uma milícia local de camponeses e bandidos para combater os invasores japoneses através de táticas de guerrilha nos campos de sorgo.


A MORTE DE UM GÉNIO:Apesar da idade, no que respeita à minha vivência intelectual, Edgar Morin era eterno. Para além do historiador português Fernando Catroga e do filósofo Eduardo Lourenço, do meu professor de português Manuel Marques da Cruz, foi uma das traves-mestras da pessoa que sou. 

É com desgosto que me despeço dele.Conheci-o através de um livrinho publicado na década de 70, O 'Paradigma Perdido: A Natureza Humana'. marcou-me de tal forma que não mais o perdi de vista. Daí ao 'O Homem e a Morte' foi um instante, entre outros, toda a sua obra sobre o 'Método'. Assisti a inúmeras das suas conferências em Portugal e, sobretudo, em França. E aprendi sempre.Agora que se despediu de nós, em plena Feira do Livro de Lisboa, espero que muitos o encontrem nos livros que nos deixou, para melhor conhecimento da extraordinária composição que é o Ser Humano. Ver menos

Irão:  a guerra mais estúpida de sempre


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O JUIZ IVO ROSA


Ivo Rosa, no @jornalexpresso "Tendo em conta todos os inquéritos que o MP abriu em relação à minha pessoa, pelo menos sete deles visavam a sindicância de atos de judicatura pela via criminal — e não pela via de recurso. Se o MP não fica satisfeito com uma decisão, não pode abrir um processo-crime ao juiz por este ter aplicado o direito num sentido com o qual não concorda. 

Se um juiz que está a decidir tem de ponderar se o MP vai gostar, sob pena de ser alvo de um processo-crime, então vai decidir no sentido contrário só para não ter problemas. Tudo o que vá para além do escrutínio normal por via de recurso é um atentado ao Estado de direito.

"Se Ivo Rosa dirigiu a carta que dirigiu ao PR e ao PAR, sendo evidente há muito, e agora de forma flagrante, que está em causa o Estado de direito, espera-se que o PR faça algo, que chame o PGR a Belém, que chame o PM para falar sobre o tema politico em causa, que se pronuncie, que o PAR distribua a carta aos grupos parlamentares para as medidas que cada um tenha por convenientes, espera-se que o PAR também se pronuncie.

era uma vez um  Saab

Há uns anos, no Brasil, o condutor do carro onde eu ia - português que tinha vivido em Inglaterra - parou educadamente numa passadeira para uma senhora atravessar e ela ficou assustada. 

Pensou - explicou-nos o outro passageiro do carro, esse brasileiro - que ia ser assaltada...Na Suécia, há 40 anos, recordo-me de ir num velhinho Saab, e na Suécia parecia haver na estrada nada mais do que velhinhos, seguros e suaves Saab, na mesma altura que em Portugal, a reboque do crédito e da ignorância, todos os carros eram pequenos, novos e maus, enfim de lata, dizia eu na Suécia o meu amigo, sueco, que ia a conduzir, parou o carro numa berma, íamos a 50km hora, para dar passagem a um tipo que ia a 60km hora. 

Este baile de ópera vienense na estrada sempre me assalta a memória quando hoje, em Portugal, estou numa passadeira e uma condutora acelera para só parar mesmo em cima; ou um cavalheiro vai na auto estrada a 120 km hora colado à traseira do meu carro para ultrapassar; ou sicrano atravessa uma aldeia a 50km hora, também a 60km e até a 90km! 2 mortos por dia, é o saldo.

Passo férias em lugares, na Europa central, onde os carros param para dar lugar aos ciclistas e o condutor faz um gesto suave de - a senhora dança? Fujo de lugares onde a violência se impõe à delicadeza. Excerto de crónica de Rauel Varela

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O lendário Saab Automobile já não existe. A empresa formalizou em dezembro de 2011 o fim de uma das marcas mais importantes da indústria automóvel. Famosa pela herança aeronáutica, pioneirismo na segurança e motores turbo, a fabricante sueca sucumbiu à gestão sufocante da General Motors (GM), que a adquiriu em 2000.

A GM tentou massificar a Saab forçando a partilha de componentes com a Opel. Contudo, os engenheiros de Trollhättan resistiram e redesenharam os veículos para manter os padrões da marca, o que inflacionou os custos e gerou prejuízos. Com a crise de 2008, a GM decidiu alienar a subsidiária. 

A neerlandesa Spyker Cars tentou salvar a Saab em 2010, mas a falta de liquidez paralisou as fábricas no ano seguinte. O golpe final ocorreu quando a GM bloqueou a venda a investidores chineses, recusando transferir as patentes e licenças dos motores. Sem alternativas, a Saab declarou falência. Os ativos foram comprados pelo consórcio NEVS, mas o direito ao nome e ao icónico logótipo perdeu-se para sempre.



Menina carrega irmã 

O video (https://youtu.be/demZteM3ofM?si=wnVGDhQOF4nIO36D) de menina de 8 anos, carregando a irmã doente em busca de auxílio, ficou como triste emblema da invasão de Gaza por Israel. As crianças estão a morrer de fome em casa enquanto os bombardeamentos incessantes reduzem a pó os acordos inúteis assinados em gabinetes distantes. 


História do Líbano agora destroçado


Cartoonistas 'a bombardear' Trump

Ballet de Kiev

0 mundo lisboeta de Natália Correia



Natália Correia viveu quase toda a sua vida em Lisboa, cidade angular de toda a sua existência.

Nela escolheu a sua residência numa zona de confluência de várias camadas sociais - à distância o Rato (espaço aristocrático), ao cimo o Marquês de Pombal (área burguesa) e, defronte, a Avenida da Liberdade (zona cosmopolita).

Corriam os anos 50 quando a escritora, então em início de carreira, descobriu um quinto andar na Rua Rodrigues Sampaio: "Um dia vim aqui visitar uns amigos e a atmosfera da casa atraiu-me logo. Eles mudaram-se e este apartamento esteve muito tempo devoluto, como que à espera que eu casasse e o alugasse".

Situava-se num edifício sólido e elegante, discreto e requintado com, no rés-do-chão, uma das melhores pastelarias-restaurantes da cidade. Natália passou a habitar o último piso após o seu casamento, em 1953, com Alfredo Lage Machado. "Ele foi o grande amor da sua vida", confidenciou-nos Helena Cantos (protagonista feminina do filme Santo Antero),e sua amiga íntima durante décadas.

Com invulgar bom gosto, a poetisa decorou-o. Na entrada dispôs um busto seu da autoria de Martins Correia; no salão principal instalou a biblioteca composta por milhares de volumes, um auto-retrato, um óleo de Cesariny, uma escultura de Júlio de Sousa e uma máscara de Eça de Queiroz, de Tomas Costa. 

Em posição de destaque, uma gigantesca mesa-secretária, estilo império, com tampo de mármore escuro e pés dourados, cadeiras Luís XVI, porcelanas chinesas (herdadas da mãe), peças de artesanato e um tabuleiro de xadrez; numa sala anexa, vários quadros contemporâneos, um canapé, um par de bergeres e um bar de estilo renascença.

Durante duas décadas a casa tornou-se um dos mais pujantes salões literários de Lisboa, onde se reuniam, pelas noites fora, intelectuais, artistas, escritores, pintores, políticos. 

"Natália Correia e o seu marido cederam a sua elegante residência", descreve um jornal da época, "para a representação da peça de Jean-Paul Sartre, Huis Clos, inédita entre nós. Foi interpretada por Natália Correia, Maria Ferreira, Castro Freire e Manuel Lima".

O espectáculo, encenado por Carlos Wallenstein, teve entre a assistência Isabel da Nóbrega, Urbano Tavares Rodrigues, Sophia de Mello Breyner, Francisco Sousa Tavares, João Gaspar Simões, Fernando Amado e Almada Negreiros.

Numa noite, em 1950, Henry Miller bate à porta de Natália que fica espantada. Ele entra, senta-se e discute com os presentes, entre os quais David Mourão Ferreira e Delfim Santos, o tema do amor. 

Ao sair, o romancista norte-americano exclamará: "Aqui sentimo-nos ou no século XVIII ou no ano 2000. Foi preciso vir a Portugal para encontrar uma verdadeira pitonisa".

Entre outros vultos universais que a frequentaram, destacam-se Ionesco, Claude Roi e Michaux.



Em 1971 resolve abrir, com a escultora Isabel Meyrelles, o Bar Botequim, na zona da Graça. Transfere para aquele local as tertúlias da sua casa, adaptando-o com requinte. As mesas são especialmente encomendas, as cadeiras estofadas a veludo, as paredes revestidas a damasco. O bar tornar-se-à (com piano em fundo) um novo santuário de Natália Correia. Noite após noite, ano após ano, a poetisa ali fará inesquecíveis tertúlias, discussões, conspirações.

O quarto da escritora revelava-se um verdadeiro casulo. Nas paredes sobressaíam crucifixos, imagens do Padre Cruz e medalhas de Nossa Senhora de Fátima.

A cama era de bilros com dossel, a secretária um bufete em pau-santo, a abarrotar de manuscritos e livros. Acordava ao fim da manhã, tomava uma refeição ligeira na cama, e dedicava o tempo a escrever na secretária.

Ao fim da tarde, pelas sete horas, chegavam as amigas íntimas que recebia enquanto tomava banho. "De seguida escolhia a roupa, ocupando-se o senhor Machado de lhe comprar os batons, as sombras, as meias", pormenoriza Helena Cantos. "Jantava e, depois, seguia invariavelmente para o Botequim".

Os últimos anos de Natália Correia foram marcados por preocupações constantes. A mãe morre no Brasil e a irmã Carmen desaparece naquele país, onde se radicara, tendo sido possivelmente assassinada; o marido falece, após 39 anos de um casamento harmonioso; as dificuldades económicas espreitam e vários amigos afastam-se.

"Ela poderia ter vendido a sua colecção de pintura ou a biblioteca, mas não era capaz, dadas as recordações que encerravam", refere Helena Cantos. "Além disso queria legar esse património aos Açores".

A autora de Sonetos Românticos dedica-se, com a incansável ajuda de João Rubus, a reunir os seus manuscritos espalhados pela casa. O trabalho resulta na edição da Poesia Completa, a que deu o título de O Sol nas Noites e Luar nos Dias.

Na noite de 16 de Março de 1993 passa a noite, como de costume, no Botequim. Ao regressar a casa, pelas quatro horas da madrugada, sente-se mal e sucumbe de um ataque cardíaco.

Após a morte, em 1997, de Dórdio Guimarães (seu último marido) iniciou-se o inventário do recheio da casa. Os livros e manuscritos foram tratados por técnicos da Biblioteca Nacional que descobriram grandes raridades, como edições dos séculos XVI a XIX. Os quadros foram estudados pelo "marchand" Manuel de Brito.


Entre os bens, entregues aos Açores e guardados no Museu Carlos Machado e Biblioteca Pública de Ponta Delgada, sobressaem 10 mil livros , 286 pinturas esculturas de autores portugueses , móveis , roupas e objectos pessoais e contas bancárias. O seu acervo literário, contendo diversos manuscritos inéditos encontra-se guardado em 176 caixas na Biblioteca de Ponta Delgada.

Tudo este património destina-se, segundo o testamento, a criar o Museu Natália Correia, na Fajã de Baixo, em São Miguel, sua terra natal – o que, passados 32 anos, não se efectivou. Ainda.

Natália Correia: o país das jotas mudas